«Devíamos investir mais porque temos muito talento em Portugal» – Entrevista BnR com Henrique Chaves

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Natural de Torres Vedras, o sonho de miúdo levou-o a perseguir e a alcançar os grandes palcos do Desporto Motorizado, mais propriamente no Automobilismo, na categoria da ‘Endurance’.

A vencer as míticas 24 Horas de Le Mans em 2022, na sua estreia, na categoria dos LMGTEAM, Henrique Chaves é um dos nomes do momento do Desporto Motorizado em Portugal.

Como tudo começou, como vai o percurso, pensamentos sobre o futuro e como está o estado do Desporto Motorizado em Portugal, esta foi a nossa conversa com o piloto português, realizada no dia 4 de outubro de 2022.

– O início da caminhada até às pistas –

«Acho que, qualquer coisa para nos dar prazer, tem que dar algum trabalho, temos que nos esforçar, temos que nos sacrificar».

Bola na Rede: Como é que começou a paixão pelos carros? Conta-nos um pouco sobre o teu primeiro contacto com o desporto motorizado.

Henrique Chaves: Começou tudo quando era miúdo, estava no terceiro ano. Tinha um colega na turma que o avô dele tinha um kartódromo, ele fez lá uma festa de aniversário e fomos todos andar de kart. Gostei muito da experiência e continuei a convencer o meu pai a ir lá mais vezes, por iniciativa própria e sem ser a festas de aniversário. Ele próprio também fez alguns eventos de empresa, e o «bichinho» foi parar ao meu pai.

Depois, tinha eu uns sete anos, comprei o meu primeiro kart, com a ajuda dos meus avós e do meu pai para dar umas voltinhas, divertir-me um pouco mais sem ter que alugar um kart no kartódromo, e, foi assim que começou. O dono do kartódromo que organizava lá o Campeonato Nacional, disse ao meu pai «o teu filho tem algum jeito, vou propor o contacto a algumas equipas para fazer um treino, e pode ser que dê para alguma coisa», e assim foi, fui a Palmela e fiquei numa das equipas mais consagradas de Portugal naquela altura, a Tony Kart, liderada pelo Norberto Martins. E depois, aos meus nove anos, em 2006, fiz o meu primeiro Campeonato Nacional, e depois, daí, é história, acho eu (risos).

Henrique Chaves esteve nos Campeonatos de Fórmulas de produção entre 2015 e 2017.
Fonte: AVF

Bola na Rede: Iniciaste a tua carreira ao competir nos Fórmulas, na Fórmula Renault e na World Series Formula V8 3.5, mas acabaste por seguir um rumo diferente, da resistência (endurance) e dos GTs. Quando é que te apercebeste que o caminho a seguir era o dos GTs?

Henrique Chaves: Como todos os miúdos, acho eu, nascem a ver Fórmula 1, e a perceber o que é a Fórmula 1. É o pináculo do Desporto Automóvel, e, por isso, o sonho é sempre tentar chegar à Fórmula 1. Trabalhei e tentei sempre de tudo para lá chegar, e daí ter ingressado nos fórmulas de produção, fiz três anos de fórmulas. A ideia era fazer um quarto ano, na Fórmula V8 3.5, em que fiz a última corrida do campeonato em 2017 e ganhei, e pensei «se calhar tenho aqui uma abertura e pode correr bem o próximo ano e posso dar um salto grande nessa aspiração, chegar à Fórmula 1» mas esse campeonato foi descontinuado, e no fundo, pode ser um contrassenso o que eu vou dizer, mas, foi algo bom.

Pensando hoje, sendo uma pessoa mais madura e percebendo como é que tudo funciona, um piloto português tentar chegar à Fórmula 1, em que é preciso também muito investimento, era complicado, e também esse cancelamento do campeonato [Fórmula V8 3.5] abriu-me outras portas, nomeadamente no endurance, e se calhar foi uma «luzinha», digamos assim, que me ajudou a tomar este ritmo e a mudar para o endurance, onde estou super feliz. É uma disciplina [endurance] dentro do automobilismo muito interessante, e que eu adoro e sigo, e vejo muitas corridas, não só as que faço, mas também as dos Estados Unidos, é algo que sigo bastante e que gosto muito.

Bola na Rede: Para ti, quais são as maiores dificuldades pela qual um piloto tem que passar?

Henrique Chaves: Neste desporto, a maior dificuldade é perceber, e vivemos num país que vê muito futebol. E temos três clubes grandes, onde 90% da população é desses três clubes, e estão habituados a ganhar, e veem o clube a ganhar, e quando perde, cai o mundo, basicamente. E neste desporto, é completamente diferente. As vezes que ganhamos são muito menos do que as vezes que perdemos, portanto, temos que aprender a lidar com a derrota, temos de saber perder, mas também saber interpretar que, por vezes, um segundo ou terceiro lugar continua a ser uma vitória ou um bom resultado, e é isso que temos que aprender.

Respondendo à tua pergunta, essa é, se calhar, a maior dificuldade. Obviamente que há muito mais por trás, o trabalho que temos que desempenhar e tudo isso, são dificuldades. Mas, se fosse fácil, não tinha piada. Acho que, qualquer coisa para nos dar prazer, tem que dar algum trabalho, temos que nos esforçar, temos que nos sacrificar, e passa por isso. Pelo menos para mim, a maior dificuldade foi ter que aprender a perder, porque, talvez tenha tido a sorte de, no percurso do karting, estar no sítio certo à hora certa, com as pessoas certas por detrás de mim, de ganhar várias vezes, mas depois quando cheguei aos Fórmulas e levei, algumas «estaladas», digamos assim, tive que aprender da pior maneira que temos que perder, e, de saber perder. E hoje em dia, acho que sei perder, mas o foco é sempre na vitória, mas, a maior dificuldade é mesmo essa, aprender a lidar com a derrota.

Angelina Barreiro
Angelina Barreirohttp://www.bolanarede.pt
Natural de Monção, a Angelina é Licenciada em Relações Internacionais e, Mestre em Economia Social pela Universidade do Minho. Vê o desporto como um dos bons lados da vida, que forma uma boa parceria com a escrita e o jornalismo. O seu interesse pelo desporto surgiu cedo, tendo como principal área de interesse o Futebol, o Ténis e a Fórmula 1.

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