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Nyck de Vries vai estrear-se a tempo inteiro na Fórmula 1 (F1). Aos 27 anos, o neerlandês foi anunciado como novo piloto da AlphaTauri a partir de 2023. Uma contratação que já se adivinhava depois da exibição de luxo levada a cabo pelo piloto em Monza, para o Grande Prémio de Itália.
De Vries deixou uma primeira impressão fantástica. Substituiu Alex Albon por uma corrida e levou a Williams aos pontos, ao fechar num esplêndido nono lugar. Bateu Nicholas Latifi de forma clara, num carro que o canadiano já conduz desde 2020. Aliás Latifi apenas pontuou em Suzuka durante a presente temporada e não fez melhor que o nono lugar do colega dos Países Baixos. O próprio Albon só fez mais dois pontos do que de Vries.
A entrada de Nyck de Vries já era antecipada há vários anos. Campeão do Mundo de Fórmula 2 em 2019, rumou à Fórmula E onde também conquistou o título. A Mercedes parece ter adormecido com um potencial diamante sob contrato porque o caminho do neerlandês não parecia ter como chegada a grelha de partida da Fórmula 1. Assinou um contrato com a Red Bull e a lógica falou mais alto do que a conveniência.
Uma contratação com diversos prós e contras promete influenciar a vertente mais mediática do automobilismo.
Foto de Capa: Formula 2
Artigo redigido por Filipe Pereira
PRÓ: A IMPORTÂNCIA DE SUBIR O ESCADOTE
He’s sampled a few different seats in 2022, but @nyckdevries finally found his home at @AlphaTauriF1 🥰#F1 pic.twitter.com/VRAgD5OXf3
— Formula 1 (@F1) October 8, 2022
Em 2014, Nyck de Vrjes alcançou o título de campeão da Europa de Fórmula Renault 2.0. Derrotou de forma clara Dennis Olsen e Alexander Albon, num campeonato que ainda contou com a participação de dois jovens promissores: George Russell e Charles Leclerc. Ambos são mais novos do que Nyck de Vries, mas não tardaram a mostrar o seu talento e foram campeões no escalão imediatamente inferior à F1 mais cedo até do que o próprio piloto neerlandês.
Justificaram inteiramente a aposta por parte das estruturas da Ferrari e até da Mercedes, ingressando nas estruturas da Alfa Romeo e da Williams, onde cresceram antes de avançar para duas das principais formações do campeonato. De Vries foi, todavia, campeão de Fórmula 2 em 2019, o que faz com que seja levantada a questão: porque é que o neerlandês precisou de mais 3 anos para conseguir um lugar definitivo na F1?
Será que foi porque simplesmente surgiu na “geração errada” em que por muito bom que seja, há sempre alguém melhor do que ele? Terá sido esse o caso com Nikita Mazepin, que apenas conseguiu 11 pontos, enquanto colega de equipa do piloto dos Países Baixos que, por sua vez, obteve 264 pontos?!
A chegada de Mazepin à Fórmula 1 foi questionada por diversos comportamentos do atleta, mas a falta de resultados do russo não passou despercebida. Aliás, o maior motivo para a contratação do piloto pela Haas terá sido mesmo, o investimento de Dimitry Mazepin, oligarca russo, na formação norte-americana. Só que este não foi, de todo, um caso único.
Outro caso mais gritante foi o da aquisição da estrutura da Force India pelo magnata Lawrence Stroll, pai de Lance Stroll. Em 2020, falou-se da possibilidade de o piloto canadiano abandonar a Racing Point (atual Aston Martin) para dar lugar a Sebastian Vettel. O contrato de Lance Stroll, não permitia, contudo, uma rescisão neste sentido ao contrário do vínculo de Sérgio Pérez, que acabou por rumar à Red Bull.
É difícil de acreditar que o parentesco com o dono da equipa não tenha tido algum peso, ainda que segundo o atual diretor da Aston Martin (já Diretor da Racing Point, na altura), tenha consistido numa decisão coletiva. E é capaz de ter sido o caso, em bom nome da verdade. Mas o investimento de 80 milhões de euros (valores noticiados pela publicação alemã Autosport und Sport em 2016) por Lawrence Stroll com vista a que o filho entrasse na Fórmula 1 com apenas 18 anos estabeleceu um precedente algo injusto para Lance Stroll.
Stroll já teve alguns resultados na Fórmula 1, nomeadamente pódios e é um piloto talentoso, mas nem pela Fórmula 3 passou. E passados 6 anos da sua estreia, será justo dizer que ainda não justificou a entrada tão madrugadora no maior campeonato tutelado pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA).
Se retrocedermos ainda mais, até 2011, temos a estreia de Pastor Maldonado na Fórmula 1, piloto patrocinado pela PDVSA, companhia petrolífera do Estado da Venezuela. No ano em que a crise do petróleo venezuelano eclodiu, Maldonado abandonou o campeonato.
Mas qual é a importância da chegada de Nyck de Vries à F1 perante estes casos? É muito simples, é um caso em que o trabalho e o talento prevalecem em detrimento da ganância, o que pode não ser nada (mais provável) ou marcar um precedente positivo em que se mata a ideia de que “só se chega à Fórmula 1 por causa do dinheiro, o talento não interessa”.
CONTRA: A SOMBRA DE VERSTAPPEN
📞 ALÔ MARKO! 📞@Max33Verstappen contou que encorajou @nyckdevries a ligar para Helmut Marko após o GP da Itáliahttps://t.co/zGnjWp31iM #F1 #F1noGP
— Grande Prêmio (@grandepremio) October 8, 2022
Nyck de Vries admitiu que o compatriota e bicampeão do Mundo, Max Verstappen teve influência na escolha de assinar pela AlphaTauri, a equipa B da Red Bull.
“Super Max” não esconde a amizade que tem com de Vries. Referiu que foi ele próprio (Verstappen) num jantar depois do Grande Prémio de Itália, a sugerir que o compatriota ligasse a Helmut Marko, Conselheiro da Red Bull uma vez que Pierre Gasly, piloto da AlphaTauri, tinha manifestado o desejo de rumar à Alpine Racing, rescindindo contrato com a estrutura da Red Bull Motorsports.
Helmut Marko admitiu já a possibilidade de o neerlandês de 27 anos ser o piloto número 1 da AlphaTauri já em 2023, situação que sustenta o rumor de que de Vries será o substituto de Sérgio Pérez na Red Bull, aquando da eventual saída do piloto mexicano (algo que não se espera num futuro assim tão próximo)
A questão é que fica no ar: será que de Vries tomou a decisão certa, de um ponto de vista competitivo ao assinar com a Red Bull Motorsports? O piloto neerlandês tinha suscitado o interesse da Williams e da Alpine, sendo que o da formação britânica foi mais sério.
É verdade que em qualquer uma destas duas estruturas, o futuro, a continuidade na Fórmula 1, seria mais incerta. Mas de Vries já tem uma carreira fora da Fórmula 1, com títulos na Fórmula E e ainda participações no Campeonato do Mundo de Endurance (WEC), nomeadamente nas 24 Horas de Le Mans.
Ao assinar pela AlphaTauri, parece que já estabeleceu um teto para a sua carreira: ser o piloto número 2 de Max Verstappen. O que, como se viu com Pérez, nomeadamente no Grande Prémio do Azerbaijão, quando o mexicano estava a liderar a corrida e teve uma péssima paragem nas boxes, impedindo-o de lutar pela vitória com o colega de equipa, isto depois dos dois pilotos da Ferrari terem abandonado a prova.
Para não falar de situações como o famoso caso entre Sebastian Vettel e Mark Webber, no Grande Prémio da Malásia de 2013, em que o alemão, na altura, líder da Red Bull, se recusou a entregar a vitória do Grande Prémio a Webber, apesar do australiano ter feito o mesmo em épocas anteriores.
O (na altura) tricampeão do Mundo desobedeceu a ordens diretas da equipa e colocou mesmo em causa a continuidade dos dois carros em prova. Os atos de Vettel não tiveram qualquer consequência, o que mostra como a Red Bull fica “refém” da hierarquia da equipa e em particular, de um piloto. O problema, note-se, não está na vontade de Vettel ganhar a corrida mas no facto de desrespeitar ordens de equipa que Webber por sua vez, seguia.
A Mercedes, por exemplo, já mostrou que não tem de ser este o caso, Entre 2014 e 2016, Nico Rosberg e Lewis Hamilton partilhavam o mesmo estatuto dentro da equipa e a Mercedes nunca perdeu um campeonato de pilotos ou de construtores com esta dupla. Depois de 2016, com Valteri Bottas, adotaram o comportamento da equipa austríaca (e da Ferrari no tempo de Schumacher e Barrichello, diga-se).
PRÓ: A “LIBERTAÇÃO” DE PIERRE GASLY
really love this quote from @PierreGASLY about athletes’ mental health – “we are not lions in a cage for people going to the zoo. there is us as athletes & the person behind it.” https://t.co/vQ2AgIoXNb pic.twitter.com/nLY7U2Swro
— megan BRAUNY FOREVER brown (@thatgirlondeck) July 27, 2021
Pierre Gasly integrou a estrutura da Red Bull Motorsport sdurante 9 anos. O piloto francês reconhece que a decisão de rumar à Alpine foi ponderada e agradeceu a compreensão de Christian Horner, Diretor da equipa de Fórmula 1 da Red Bull, e de Helmut Marko, que o deixaram rumar à equipa francesa, apesar de ainda ter um ano de contrato com a estrutura austríaca.
Gasly apreciou a abordagem da estrutura gaulesa, assumindo o desejo de ter o francês de 26 anos num projeto ambicioso e de médio-longo prazo. Com vários anos de duração, o contrato dá segurança ao piloto, que vai terminar a presente época na equipa italiana da AlphaTauri. A Alpine ocupa o quarto lugar no campeonato de construtores, com 13 pontos de vantagem para a McLaren, uma situação que deixa Gasly otimista em relação aos objetivos da formação.
A carreira de Gasly parecia já ter atingido um teto quando correu na primeira metade da época de 2019 ao serviço da Red Bull, onde foi incapaz de corresponder às expetativas deixadas por Daniel Ricciardo, que tinha brilhado em 2014 quando saiu da Toro Rosso (atual AlphaTauri) e não só bateu o tetracampeão do Mundo, seu colega de equipa, mas foi o único piloto fora da Mercedes a ganhar corridas.
Pierre Gasly falou já por diversas vezes sobre a sua saúde mental assim como da importância de ver os pilotos como pessoas, não como “leões numa jaula”. Admitiu que ser despromovido para a Toro Rosso após 12 corridas foi um golpe duro.
“Podia ter destruído algumas pessoas (…) Mas não me destruiu a mim porque eu não desisto. Quando muito, tornou-me mais forte.”, disse numa entrevista ao The Guardian
E ficou, de facto, mais forte porque no ano de 2020 ganhou em Monza, ao serviço da AlphaTauri, que já não conquistava um grande prémio desde Sebastian Vettel em 2007.
Ao rumar à AlphaTauri, Nyck de Vries permitiu à Red Bull facilitar a saída de Gasly, acrescentando desta forma dois pilotos com ambições e com um futuro promissor à grelha, em vez de deixar o francês “preso” por mais um ano numa estrutura em que teria poucas possibilidades de progredir.
CONTRA: O FUTURO DE YUKI TSUNODA
OFICIAL | Yuki Tsunoda renova com a AlphaTauri para o próximo ano
Assim sendo, o piloto japonês vai cumprir a sua terceira temporada na Fórmula 1. pic.twitter.com/P1OJayfk9o
— Cabine Desportiva (@CabineSport) September 22, 2022
Yuki Tsunoda renovou contrato com a AlphaTauri. O piloto japonês de 22 anos tem alguns resultados interessantes como um quarto lugar na grande corrida de Abu Dhabi, em 2021. Acabou nos pontos por 10 ocasiões em 38 provas que já realizou e chegou por 14 ocasiões à terceira sessão (Q3) da qualificação. Conta com 11 pontos no campeonato, menos 12 do que o colega de equipa, Pierre Gasly.
Helmut Marko admitiu que a experiência que de Vries traz à equipa pode ser favorável para Tsunoda. Ainda assim, não se pode dizer que seja um grande sinal para o japonês ser ultrapassado na hierarquia por um piloto apenas 5 anos mais velho. Mais ainda. se Nyck de Vries vier a ocupar mesmo o lugar de novo número dois de Verstappen no futuro. Aí colocar-se-à a questão: não estará a ser colocado um teto sobre a cabeça do piloto japonês? Se calhar não é um cenário tão catastrófico para o piloto nipónico, mas a verdade é que vai ter de brilhar para se afirmar como uma boa solução para a Red Bull e para ser o sucessor de Pérez.
Caso contrário, Yuki Tsunoda corre o risco de seguir o exemplo de pilotos como Jean-Éric Vergne, piloto francês que, para muitos, seria o novo grande piloto da França depois de Alain Prost. Correu ao lado de Daniel Ricciardo até 2013, não conseguiu substituir Mark Webber na Red Bull e no final da época de 2014, abandonou a equipa e a grelha de partida da Fórmula 1, perante a chegada dos jovens Carlos Sainz e Max Verstappen.
A política da Red Bull sempre se baseou na aposta em jovens e ainda que Tsunoda tenha apenas a tenra idade de 22 anos, o tempo não corre a favor do japonês e a época de 2023 vai ser extremamente importante.
A chegada de Nyck de Vries à Fórmula 1 parecia uma promessa quebrada, mas foi finalmente cumprida. Com expetativa alta, a ambição do piloto neerlandês parece clara: chegar à equipa principal da Red Bull. Da Vries depende de si próprio agora para garantir que a chegada à Fórmula 1 é um acontecimento marcante para o campeonato ou se é apenas um facto curioso a ser recordado daqui a uns anos.










