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Fórmula E: Criação e adaptação para um automobilismo sustentável

Filipe Pereira · 6 min

Fórmula E: Criação e adaptação para um automobilismo sustentável
Foto: Fórmula E

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Com o aumento das preocupações ambientais, as diferentes modalidades do automobilismo têm vindo a sentir a necessidade de levar a cabo uma adaptação com vista a tornar a realização dos campeonatos mais sustentável. Um dos casos mais célebres desta prática ocorreu em 2014, quando a Fórmula 1 regulamentou a utilização de motores de turbo híbrido V6, com vista a reduzir o consumo elevado de combustível pelo V8.

Até 2026, a geração V6 de motores vai continuar na Fórmula 1, ano em que se espera um novo passo em direção à sustentabilidade do campeonato, com um regresso aos V8 e sobretudo aos V10 a ser classificado por várias figuras como um acontecimento impossível num futuro próximo.

A IndyCar começou ainda mais cedo a trabalhar neste sentido, quando em 2007 os carros passaram a ser abastecidos por Etanol, um combustível renovável. Até a NASCAR, um campeonato conhecido pelo consumo elevado de gasolina, instituiu o “Next Gen Car” em que o sistema de aerodinâmica perde protagonismo em prol de um motor mais eficiente. Além disto, as equipas passaram também a estar proibidas de substituir um carro antes da utilização do respetivo veículo em três corridas diferentes.

Mas uma das principais impulsionadoras destas alterações no desporto motorizado foi a criação da Fórmula E. A natureza dos carros é o principal elemento distintivo da Fórmula E. Com as diferentes modalidades a seguir o rumo da sustentabilidade, que futuro tem esta modalidade de automobilismo?

Foto de Capa: Fórmula E

A CRIAÇÃO DO CAMPEONATO SUSTENTÁVEL

A ideia de um campeonato de automobilismo disputado em circuitos urbanos com carros 100% elétricos surgiu a 3 de março de 2011, quando Jean Todt, Presidente da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) à data, e o empresário espanhol Alejandro Agag se encontraram num restaurante em Paris.

A primeira época do Campeonato do Mundo de Fórmula E decorreu entre os anos de 2014 e 2015, sendo a modalidade concebida com o objetivo de mostrar as potencialidades dos carros elétricos no automobilismo. Desde o seu começo que existiu a preocupação de colocar os melhores construtores e os melhores pilotos do Mundo, com alguns nomes com passagens na Fórmula 1, assim como outros que fizeram um nome no automobilismo, a participar no campeonato.

A primeira corrida da história da modalidade teve lugar em Pequim a 13 de setembro de 2014, com Lucas di Grassi a vencer, num dia marcado por uma colisão entre Nicolas Prost e Nick Heidfeld. A Fórmula E já leva 8 temporadas, com sete campeões diferentes, entre os quais António Félix da Costa em 2020 e Jean-Éric Vergne, o único piloto a ganhar o título de pilotos em duas ocasiões. O campeão da última temporada foi Stoffel Vandoorne, piloto belga que já passou pela Fórmula 1.

Desde cedo que a bandeira da sustentabilidade hasteada pela Fórmula E atraiu várias marcas e patrocinadores. Se na Fórmula 1, os motores são concebidos por apenas quatro construtores, na Fórmula E, sete marcas participam no desenvolvimento dos mesmos: a Mahindra Racing, a Porsche AG, a DS Automobiles, NIO 333, a Nissan, a Maserati e a Jaguar.

“E” DE EVOLUÇÃO

O caráter precursor da Fórmula E foi o que tornou a modalidade atrativa para fãs e marcas. Para além do aspeto ambientalista inovador no automobilismo, o engajamento do público, a atribuição de um papel a este último nas corridas tornou-se uma das principais características do campeonato. Destaque para o chamado “fanboost” (vai desaparecer em 2023) que  consistia numa votação online em que os fãs determinavam que três pilotos recebiam um reforço de energia no carro durante 5 segundos.

A partir de 2023, a Fórmula E vai estrear um novo regulamento, e com as novas regras chega o carro “Gen 3”, a terceira geração do carro do campeonato. É caracterizado por velocidade de ponta superior a 320 km/h e acima de tudo, por ser o primeiro carro de corridas no Mundo a atingir o “net zero”, ou seja, a não acrescentar mais camadas de dióxido de carbono à atmosfera do que aquelas que absorve. Um marco histórico para a missão de demonstrar as potencialidades desportiva dos automóveis elétricos.

São sinais claros de que em apenas 8 edições, a Fórmula E tem mostrado uma excelente capacidade de se renovar, de se manter na vanguarda da renovação sustentável do desporto automóvel.

FÓRMULA E E FÓRMULA 1: PODERÃO COEXISTIR?

As diferentes modalidades do automobilismo caminham no sentido de alcançarem, ou pelo menos, de se aproximarem do “net zero”. O caso em que este contexto pode vir a colidir com a Fórmula E é mesmo o da Fórmula 1. Aquele que é provavelmente o campeonato-rei do automobilismo, vai ter de tomar uma decisão até 2035, de acordo com o Diretor Desportivo da Envision Racing, Sylvain Filippi (https://biz.crast.net/formula-1-could-be-all-electric-by-2035-says-fomula-e-boss/) . A decisão passa por escolher avançar para um modelo com carros 100% elétricos, apelativa a um público mais geral, ou adotar um estilo mais híbrido, apelativo a um segmento mais específico do mercado.

“A Fórmula 1 terá muitas opções para o seu futuro. Poderá tornar-se 80% elétrica e 20% híbrida. Ou pode rumar a uma direção completamente diferente, retirando o melhor que o V12 consegue ser. E continuaria a proporcionar uma excelente competição e entretenimento”

Filippi frisou ainda que os carros da Fórmula E são mesmo capazes de vir a bater os carros de Fórmula 1, no que à velocidade de ponta diz respeito, daqui a 10 ou 15 anos, quando o “Gen 4” e o “Gen 5” tiverem sido desenvolvidos. Nota ainda que o carro de corrida elétrico tem evoluído significativamente desde a criação do campeonato do Mundo em 2014, com destaque para o fim da troca de carro a meio das provas, uma vez que as baterias passaram a aguentar esforços de 45 minutos com uma bateria de 52 KW.

Numa entrevista ao “The Race”, o Diretor Executivo da Stellantis (principal produtora mundial de carros), o português, Carlos Tavares, também abordou a coexistência entre F1 e Fórmula E. Ao contrário de Filippi, Tavares acredita que no futuro, as duas modalidades não serão capazes de coexistir devido à pressão elevada para que se abandone os motores de combustão interna em prol da tecnologia elétrica.

“A pressão da sociedade vai ser tão alta que a Fórmula 1 vai ter de abandonar a tecnologia de combustão interna, o que significa que, nesse momento, a Fórmula 1 e a Fórmula E vão ter de discutir com a FIA qual o rumo a seguir” disse Tavares ao The Race.

A Fórmula E tem uma licença de exclusividade da FIA para carros de monolugar elétricos, o que de acordo com o próprio Alejandro Agag, obriga a Fórmula 1 a pedir autorização ao campeonato de veículos elétricos, se quiser completar uma transição para esta tecnologia. A licença tem uma validade de 25 anos, o que garante a liderança da Fórmula E no que aos carros de corrida elétricos diz respeito, até 2039.

Assim, o campeonato do Mundo de Fórmula E tem efetivamente um futuro assegurado e tem tudo para coexistir a médio prazo com a Fórmula 1. A solução mais lucrativa parece efetivamente ser um modelo da índole do mencionado por Filippi: 80% elétrico e 20% híbrido. Este modelo manteria uma distinção entre os dois campeonatos, garantindo uma solução mais lucrativa, uma vez que as duas marcas carregam bastante importância. Se algum dia, tivessem de se fundir, não existem dúvidas que o modelo de carro elétrico prevaleceria, mas com a marca da Fórmula 1, uma vez que carrega uma importância histórica e mediática muito maior.

Filipe Pereira

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