Há jogos que explicam perfeitamente porque é que o desporto nos agarra de forma tão irracional. Este jogo que opôs o FC Porto ao OC Barcelos, foi a personificação da afirmação anterior.
Numa reedição da final da temporada passada (ganha pelo OC Barcelos após desempate na marcação de grandes penalidades), transformou-se numa batalha emocional, física e competitiva absolutamente extraordinária, decidida apenas (tal como na edição transacta) nas grandes penalidades, depois de mais de duas horas de sofrimento, talento, nervos e resistência.
No fim, sorriu o FC Porto. Mas o hóquei ganhou muito mais do que um vencedor. Uma tarde que começou em silêncio. Antes da bola começar a rolar, o Pavilhão Multidesportos Dr. Mário Mexia, viveu um momento profundamente emotivo.
Foi cumprido unanimemente um minuto de silêncio em memória do Furriel do Exército Português Ismael Lamela, natural de Barcelos, que faleceu tragicamente na passada quinta-feira durante os saltos finais dos cursos de paraquedismo.
E talvez tenha havido algo simbólico nisso tudo: o jogo nunca perdeu intensidade competitiva… mas teve sempre um peso emocional diferente.
O OC Barcelos entrou sem medo. O FC Porto chegava embalado por uma impressionante série de 15 vitórias consecutivas, vivendo talvez o momento mais sólido da temporada. Mas rapidamente percebeu que teria pela frente um adversário sem qualquer complexo.
O OC Barcelos entrou melhor. Mais agressivo. Mais intenso. Mais confortável emocionalmente no jogo.
Logo aos três minutos, Carlos Ramos acertou no poste da baliza de Xavi Malián, e pouco depois surgiu o primeiro golo da partida. Excelente contra-ataque conduzido por Miguel Rocha e finalização fácil de Vieirinha (4’), premiando a superior entrada minhota.
O treinador do FC Porto Paulo Freitas percebeu imediatamente o problema e pediu pausa técnica ainda muito cedo, claramente insatisfeito com a passividade competitiva da sua equipa.
Se o OC Barcelos foi superior durante largos momentos da primeira parte, muito se deveu também à exibição monumental de Guillem Torrents,travando um duelo particular com Gonçalo Alves.
Mas não só Gonçalo Alves teve os seus intentos travados pelo guardião espanhol. Também Ezequiel Mena, Rafa e Hélder Nunes, embateram na muralha que Torrents havia erguido nos primeiros vinte e cinco minutos. Ora com a máscara, ora no um para um, Torrents transformou-se rapidamente num pesadelo para os dragões.
Mas do outro lado também surgia um enorme Xavi Malián, mantendo o FC Porto vivo em momentos particularmente delicados, e foi igualmente bafejado pela sorte.
Porque a verdade é que o OC Barcelos esteve muito perto do segundo golo em várias ocasiões: Pedro Silva acertou no poste, Morales rematou à barra em power play e Vieirinha voltou a acertar simultaneamente no poste e na barra. O FC Porto sobrevivia. E às vezes sobreviver já é uma forma de competir.
Quando o OC Barcelos parecia mais perto do segundo golo do que os portistas (sempre com imensas dificuldades durante a primeira parte para penetrar a defesa barcelense muito organizada e compacta), surgiu o talento individual.
Ezequiel Mena (22’), praticamente contra a corrente do jogo, empatou a partida com um remate extremamente colocado após passe de Hélder Nunes.
E o jogo mudou. O conjunto minhoto acusou emocionalmente o golpe. Surgiram perdas de bola que até aí não existiam e o FC Porto cresceu no encontro. Mas sem nunca controlar verdadeiramente a partida.
A segunda parte trouxe ainda mais tensão. As defesas começaram por superiorizar-se aos ataques até surgir um dos momentos mais importantes do encontro: cartão azul para Carlo di Benedetto e grande penalidade para o OC Barcelos.
Chamado à cobrança, Miguel Rocha (34’) não perdoou. E se houve jogador que personificou a alma competitiva do Barcelos durante esta partida, foi precisamente o avançado internacional português. Intensidade, visão de jogo, capacidade de aceleração e personalidade competitiva em todos os momentos deste encontro.
O avançado português esteve em praticamente tudo o que de melhor o OC Barcelos construiu ofensivamente. E talvez tenha sido cruel que uma exibição desta dimensão terminasse com uma bola na barra no desempate por penalties.
Em desvantagem, os dragões empurraram o jogo para diante e carregaram a linha defensiva da equipa comandada por Rui Neto. Procuraram intensidade, volume ofensivo e circulação rápida, mas encontraram sempre uma muralha coletiva extremamente organizada.
Um OC Barcelos compacto. Solidário. Competitivo. Sem nunca perder capacidade para sair em transição. O FC Porto teve até um penalty inicialmente assinalado sobre Rafa, mas após revisão os árbitros consideraram simulação do internacional português, aumentando a tensão emocional da partida.
O cronómetro dizia que os dragões estavam a menos de três minutos de serem eliminados, mas a equipa azul e branca tem individualidades que desequilibram qualquer estratégia, por melhor que esta tenha sido desenhada pelo treinador da equipa barcelense.
Há jogadores que parecem nascer para estes momentos. Quando o FC Porto começava a sentir o peso do relógio, surgiu uma obra-prima de Gonçalo Alves (48’). Picadinha sobre o guardião da turma de Barcelos. Frieza absoluta. Golo monumental, só ao alcance dos elegidos. Os adeptos azuis e brancos (que durante o jogo até foram globalmente “calados” pela sempre apaixonada massa adepta do OC Barcelos), explodiram de alegria.
O prolongamento trouxe tudo aquilo que o hóquei tem de mais bonito e cruel. Primeiro, Miguel Rocha voltou a colocar o OC Barcelos em vantagem, desviando oportunamente uma assistência de Ivan Morales.
Logo depois, Gonçalo Alves voltou a aparecer para empatar novamente o encontro, através de mais um gesto técnico de enorme qualidade, não sem antes Xavi Malián se ter agigantado para travar uma finalização aparentemente fácil de Luís Querido, realizando uma defesa absolutamente magistral, e que impediu que o OC Barcelos se colocasse com dois golos de vantagem a menos de cinco minutos para o final do prolongamento.
Até ao final, tudo podia ter caído para qualquer lado. Malián salvou o FC Porto.
Torrents manteve o Barcelos vivo. O jogo recusava-se a escolher um vencedor.
E depois chegaram os penalties. Miguel Rocha acertou na barra. Luís Querido atirou ao lado. Xavi Malián defendeu perante Carlos Ramos. Do outro lado, Edu Lamas, Gonçalo Alves e Carlo di Benedetto foram frios, eficazes e decisivos.
O FC Porto seguiu em frente. Mas entre ganhar e perder… houve quase nada. O FC Porto mostrou alma. O OC Barcelos mostrou grandeza. Os dragões demonstraram algo muito importante: capacidade para resistir quando tudo parecia fugir-lhes.
Mas seria profundamente injusto transformar esta história apenas numa narrativa de sobrevivência portista. O OC Barcelos fez um jogo extraordinário. Competiu sem medo, foi melhor durante largos períodos e perdeu apenas em mínimos detalhes. Num poste. Numa defesa. Num penalty. Numa e outra genialidade de Gonçalo Alves.
Às vezes, no desporto de elite, a diferença entre glória e desilusão mede-se exatamente assim.
Foi uma vitória à Porto, onde sobreviveu, acreditou e venceu no limite, mantendo intactas as suas aspirações de voltar a ser o rei do hóquei europeu.
BnR NA CONFERÊNCIA DE IMPRENSA
Bola na Rede: Qual foi a razão pela qual decidiu manter o Gonçalo Alves durante tanto tempo no banco? Foi uma decisão estratégica ou uma questão física?
Paulo Freitas: O Gonçalo é um atleta de eleição com uma qualidade acima da média, e que sabemos que nos pode ajudar em vários momentos do jogo. Fazemos um trabalho colectivo para sobressair a individualidade. Para mim, é uma satisfação treinar estes jogadores. Nós percebemos que as rupturas que o Gonçalo estava a conseguir criar, estavam a ser bem defendidas pela equipa do OC Barcelos, estavam a povoar muito bem o corredor central, e estava a alargar corredores laterais. Eu disse ao Gonçalo para procurar corredor lateral, e depois volta ao corredor central. Nós tínhamos que criar uma dinâmica que tirasse o OC Barcelos da sua zona de conforto. Estava a ser muito confortável para eles defender em ações de um contra um, e estavam a encurtar a pista muito bem. É uma equipa muito física, e que espera para sair em transição, e percebemos que o Gonçalo ia ser um jogador importante para aproveitar esse momento, e assim foi.
Bola na Rede: Nos últimos três minutos do tempo regulamentar, a sua equipa encontrava-se em vantagem. Para além de não ter sido bafejada pela sorte com os lances ao poste e à trave que referiu, o que sente que a sua equipa podia ter feito de diferente naquele momento do jogo para segurar essa vantagem e marcar presença numa nova final?
Rui Neto: O que faltou foi que tomamos uma decisão errada. Houve ali uma perda de bola que acontece a quem está lá dentro, e o Gonçalo Alves fruto da sua qualidade, conseguiu aproveitar. O lance do 2-2 é exactamente igual ao lance do 3-3, e ainda é mais difícil de explicar, a não ser pela qualidade absurda do Gonçalo. Uma recarga num recurso que só ele poderia ter encontrado naquele momento. Foram dois erros que são altamente penalizantes para a minha equipa. Hoje demonstramos porque fomos campeões da Europa no ano passado, não foi casualidade, e demonstramos também que temos muita qualidade e que somos uma das grandes equipas do hóquei nacional, apesar de não nos reconhecerem esse valor.

