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Nem os deuses ganham ao tempo

Tiago Pinto Martins · 7 min

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Cabeçalho modalidadesNo fim, Jaromir Jagr estava longe de ser aquele que sempre conhecemos. Olhávamos para ele e víamos a idade a pesar-lhe nas pernas, e todo o esforço que fazia para as arrastar gelo acima e gelo abaixo. De certa maneira, esse esforço ainda era mais denunciante num homem a quem tudo pareceu sempre tão fácil. Começámos então a ver coisas que nunca dantes tínhamos reparado: os olhos cansados, o cabelo grisalho, os pés preguiçosos, os esgares de dor. Então compreendemos: os deuses também envelhecem.

Primeiro Período: O adeus a um dos maiores.

E assim, sem uma despedida à altura da personalidade em questão, Jagr deixou a NHL e regressou à República Checa. Haverá quem veja neste fim uma mancha na carreira de Jagr, uma fraca representação daquilo que é o seu legado. A essas pessoas diria que não percebem o legado de Jagr. Os números, ninguém lhos tira. Terceiro de sempre em golos, segundo em pontos, terceiro em jogos disputados. Muito melhores seriam estes números sem o interregno de três anos na KHL. Quaisquer que sejam os padrões utilizados, Jagr é um dos melhores jogadores da história do hóquei no gelo. Ao mesmo tempo, foi muito mais do que isso. Foi a antítese perfeita de Lemieux. Mario, o imperador, a camisa onde nenhuma nódoa se atrevia a cair. Jaromir, o arlequim, a mullet e as calças de ganga de cintura alta, a mostrar a fivela do cinto. Puro 90’s.

Jaromir Jagr a dar sardinhas a Luc Robitaille Fonte: Sports Illustrated
Jaromir Jagr a dar sardinhas a Luc Robitaille
Fonte: Sports Illustrated

Como qualquer um dos grandes jogadores, Jagr teve muitas facetas durante a sua carreira. O Jagr pós-KHL era outro jogador. Perdido estava o irreverente, o bad boy, a prima donna. Passou a ser um homem dedicado à sua arte e obcecado com o treino. Jagr logo percebeu que o jogo a que voltava era muito diferente daquele que deixara. O tempo dos espíritos livres tinha acabado. O hockey passara a ser um desporto de trabalho. E ele trabalhou como ninguém, com uma lealdade inabalável, quase religiosa, inspirando muitos jovens pelo caminho. Ele sabia que já não tinha a velocidade necessária para acompanhar os mais novos, então adaptou-se. Tornou-se num objeto inamovível, usando o seu peso e volume em sua vantagem. Ninguém lhe conseguia tirar o disco. Foi assim que ainda conseguiu ser líder em pontos em duas equipas diferentes depois dos 40.

Para o fim, começamos finalmente a entendê-lo. A sua dedicação ao jogo vinha do medo de o perder. O principal desejo de Jagr nunca foi ganhar, ou superar a competição, foi sempre jogar pelo prazer de jogar. Jagr só queria jogar porque podia fazê-lo e fê-lo até não poder mais. Queria jogar para sempre, queria vencer o tempo. Não conseguiu, mas caramba se não esteve perto.
Segundo Período: Memorando de desentendimento.

Um aviso antes de continuarmos: este período vai ser mais para mim do que para vocês, vai ser uma espécie de terapia para ver se resolvo esta questão na minha cabeça de uma vez por todas. Eu adoro este desporto, mas isto tem-me deixado louco e está a afetar a alegria que ele me traz. Já me fez desligar a televisão mais do que uma vez. Estou a falar, claro, de todos os golos anulados e não anulados por interferência ao guarda-redes e da confusão que reina por esta altura entre jogadores, treinadores, árbitros e adeptos. Já ninguém sabe o que devia ser e o que não devia ser golo. Parecendo que não, saber o que é golo é uma cena importante.

Primeiro passo, fazer a reconstrução dos acontecimentos. Tudo começou há duas semanas atrás, antes da pausa para o All Star Game. Os dois mais promissores da NHL, as duas futuras estrelas da liga, Connor McDavid e Auston Matthews, viram dois golos aparentemente limpos serem-lhes anulados. Antes se quer de olharmos para a regra, deixem-me dizer que estes golos, eticamente falando, deveriam ter contado. Matthews apenas vai disputar o disco e acaba por fazer contacto com o guarda-redes, que não tem qualquer hipótese de defendê-lo. Na verdade, Bernier já nem sabia onde o disco estava, a menos que tenha olhos atrás da cabeça. McDavid limitou-se a seguir um remate à espera do ressalto, acabando por tocar muito ligeiramente no guarda-redes. Nada nestas duas situações indicia qualquer infração. Mas a regra diz outra coisa. Se formos ao livro, diz lá explicitamente que qualquer contacto, mesmo que acidental, dentro da área azul deve ser considerado interferência. Conclusão número um, os golos foram bem anulados. Conclusão número dois, a regra é parva.

Jake Allen a tentar levantar-se depois de ter sido arrastado por um jogador dos Bruins Fonte: Sportsnet
Jake Allen a tentar levantar-se depois de ter sido arrastado por um jogador dos Bruins
Fonte: Sportsnet

Até aqui tudo bem, o caminho era claro: mudar a regra. Mas a NHL não sabe medir as distâncias. Talvez pelos golos terem sido anulados a quem foram, a liga entrou em pânico e, em vez de aproveitar o fim-de-semana do All Star para descansar, decidiu enviar um memorando às equipas a avisar que os árbitros iam passar a ser mais brandos na aplicação da regra. Com estamos a falar da NHL, e o senso comum é algo que não existe por estas bandas, esta semana tivemos dois golos que deviam ter sido anulados e não foram. Jake Allen foi arrastado da frente da baliza por um jogador nos Bruins e Connor Hellebyuck ia sendo decapitado por James Neal. Depois de vistos revistos os lances, golo validado. Resumindo, passamos de aplicar à letra uma regra parva a ignorar completamente essa regra parva, apesar de ela continuar a ser a regra.

Há situações que suscitam um ligeiro acerto na interpretação das regras. Tudo bem. Eu aceito isso. Mas isto é diferente, é a subversão total do que está nas regras. Numa semana, estavam a anular golos em que, apesar de haver contacto, o guarda-redes não foi de maneira nenhuma impedido de fazer a defesa. Na semana, seguinte estavam a validar golos em que o guarda-redes é arrastado e agredido. Mais parvo do que uma regra parva, só fingir que ela não existe.
Terceiro Período: Correção de curso em Nova Iorque.

As peças começam a movimentar-se, em antecipação ao trade deadline. Não quero estar aqui a criar expectativas infundadas. Os últimos trade deadlines ensinaram-nos a esperar um dia de apatia, antecedido por uma ou duas semanas de moderada atividade. No entanto, há uma equipa com o poder de mexer com tudo: os New York Rangers. Segundo Larry Brooks do New York Post, a equipa está com espírito vendedor. Jim Dolan, o dono da equipa, terá aprovado um plano de reconstrução do plantel, com o objectivo de competir verdadeiramente pela Stanley Cup e abandonar a mediocridade que têm registado nos últimos anos. Há seis anos consecutivos que os Rangers se qualificam para os playoffs, mas sem nunca serem tidos como sérios candidatos ao título.

Para mudar essa situação, Jeff Gorton quer atrair jogadores jovens e com potencial, estando disposto a deixar sair alguns dos seus veteranos. Dentro dos disponíveis, há nomes óbvios como Michael Grabner e Rick Nash, ambos em fim de contrato, e outros menos óbvios como Mats Zuccarello e Ryan McDonagh, todos eles apostas interessantes para uma equipa que se veja com arcabouço para atacar a Stanley Cup. Trocar Nash ou Grabner seria apenas bom negócio. Trocar Zuccarello ou McDonagh seria um sinal definitivo da mudança de atitude dos Rangers.

Rick Nash, o nome que está a agitar o mercado, quando faltam 19 dias para o trade deadline Fonte: Blue Seat Blogs
Rick Nash, o nome que está a agitar o mercado, quando faltam 19 dias para o trade deadline
Fonte: Blue Seat Blogs

O que quer que Gorton se decida fazer, precisa da aprovação de Henrik Lundqvist. A verdade é que ele é a principal razão da mediocridade dos Rangers. Tem sido a sua performance na baliza a manter a equipa nos lugares respeitáveis da tabela classificativa. É também por ele que os Rangers têm hipotecado o futuro ano após anos, procurando desesperadamente ganhar uma taça enquanto o sueco ainda for um dos melhores da liga. Mas esta não é uma situação sustentável. Assim os Rangers acabarão por definhar até que Lundqvist deixe de ser o jogador que, por agora, ainda é.

“O competidor dentro de mim quer que tenhamos a melhor equipa possível aqui e agora. Não estou para estar à espera dois ou três anos para lutar por um título”, disse Lundqvist ao New York Post. “Mas, ao mesmo tempo, e apesar de ser difícil porque contra mim falo, eu tenho tanto sentimento por esta organização que, seja qual for o caminho, eu estou com ela”. Portanto, o plano está aprovado por Lundqvist. Agora falta coragem e engenho para o aplicar.
Estrelas da Semana

Primeira Estrela: Evgeni Malkin (Pittsburgh Penguins)
Com sete pontos em três jogos era difícil Malkin não ser a primeira estrela da semana. O russo fez quatro pontos contra os Washington Capitals, marcou um golo aos New Jersey Devils e amealhou mais dois pontos na vitória sobre os Vegas Golden Knights. Depois de um começo de época tremido, os Penguins estão numa posição confortável na Divisão Metropolitana. Para isso muito tem contribuído o regresso à normalidade do “Big Three”. Phil Kessel é segundo na NHL em pontos, Malkin é terceiro e Sidney Crosby é nono.

Segunda Estrela: Harri Sateri (Florida Panthers)
Harri Sateri teve a semana perfeita com três vitórias em três jogos, sofrendo apenas cinco golos nesses encontros. Os Panthers venceram os últimos quatro jogos, todos com o finlandês a proteger as redes. Não é que estejam mais perto dos playoffs por isso, porque não estão.

Terceira Estrela: Rickard Rakell (Anaheim Ducks)
Se Evgeni Malkin não existisse, provavelmente Rakell seria a primeira estrela da semana. O sueco marcou quatro golos e fez três assistências em quatro jogos esta semana. Rakell pontuou em todos os cinco jogos da road trip que os Ducks fizeram pela Divisão Atlântico.

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Foto de Capa: NHL

Tiago Pinto Martins

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