Cabeçalho modalidadesNo fim, Jaromir Jagr estava longe de ser aquele que sempre conhecemos. Olhávamos para ele e víamos a idade a pesar-lhe nas pernas, e todo o esforço que fazia para as arrastar gelo acima e gelo abaixo. De certa maneira, esse esforço ainda era mais denunciante num homem a quem tudo pareceu sempre tão fácil. Começámos então a ver coisas que nunca dantes tínhamos reparado: os olhos cansados, o cabelo grisalho, os pés preguiçosos, os esgares de dor. Então compreendemos: os deuses também envelhecem.

Primeiro Período: O adeus a um dos maiores.

E assim, sem uma despedida à altura da personalidade em questão, Jagr deixou a NHL e regressou à República Checa. Haverá quem veja neste fim uma mancha na carreira de Jagr, uma fraca representação daquilo que é o seu legado. A essas pessoas diria que não percebem o legado de Jagr. Os números, ninguém lhos tira. Terceiro de sempre em golos, segundo em pontos, terceiro em jogos disputados. Muito melhores seriam estes números sem o interregno de três anos na KHL. Quaisquer que sejam os padrões utilizados, Jagr é um dos melhores jogadores da história do hóquei no gelo. Ao mesmo tempo, foi muito mais do que isso. Foi a antítese perfeita de Lemieux. Mario, o imperador, a camisa onde nenhuma nódoa se atrevia a cair. Jaromir, o arlequim, a mullet e as calças de ganga de cintura alta, a mostrar a fivela do cinto. Puro 90’s.

Jaromir Jagr a dar sardinhas a Luc Robitaille Fonte: Sports Illustrated
Jaromir Jagr a dar sardinhas a Luc Robitaille
Fonte: Sports Illustrated

Como qualquer um dos grandes jogadores, Jagr teve muitas facetas durante a sua carreira. O Jagr pós-KHL era outro jogador. Perdido estava o irreverente, o bad boy, a prima donna. Passou a ser um homem dedicado à sua arte e obcecado com o treino. Jagr logo percebeu que o jogo a que voltava era muito diferente daquele que deixara. O tempo dos espíritos livres tinha acabado. O hockey passara a ser um desporto de trabalho. E ele trabalhou como ninguém, com uma lealdade inabalável, quase religiosa, inspirando muitos jovens pelo caminho. Ele sabia que já não tinha a velocidade necessária para acompanhar os mais novos, então adaptou-se. Tornou-se num objeto inamovível, usando o seu peso e volume em sua vantagem. Ninguém lhe conseguia tirar o disco. Foi assim que ainda conseguiu ser líder em pontos em duas equipas diferentes depois dos 40.

Para o fim, começamos finalmente a entendê-lo. A sua dedicação ao jogo vinha do medo de o perder. O principal desejo de Jagr nunca foi ganhar, ou superar a competição, foi sempre jogar pelo prazer de jogar. Jagr só queria jogar porque podia fazê-lo e fê-lo até não poder mais. Queria jogar para sempre, queria vencer o tempo. Não conseguiu, mas caramba se não esteve perto.

Anúncio Publicitário