A tentativa do ATP de fazer com que, este ano, o circuito possa ter um decurso mais normal do que o ano passado levou a que se tomasse decisões um pouco ousadas e arriscadas, alguns poderão até considerá-las teimosas e muito irresponsáveis.

Uma destas decisões veio no sentido de tentar garantir a realização dos torneios calendarizados, em especial os Grand Slam.

A Tennis Australia, que organiza o primeiro Grand Slam do ano, o Australian Open, fez, e está a fazer, de tudo para que o torneio decorra com o mínimo de risco possível, não só para os jogadores, mas, em particular, para os australianos que, fruto de ações e dedicação individual e coletiva, conseguiram conter a pandemia.

Sempre com o objetivo de minimizar ao máximo os riscos, foi criado um elaboradíssimo protocolo sanitário, e é aqui que começa o “problema”. Aos jogadores foi dito que teriam de fazer uma quarentena restrita de 14 dias num hotel, em Melbourne, designado pela organização e que apenas se poderiam fazer acompanhar por um membro da sua equipa técnica ou família. Nas regras para esta quarentena constava a obrigação dos jogadores permanecerem no seu quarto de hotel durante 19 horas por dia. Nas restantes cinco, os jogadores teriam de encaixar os treinos, quer seja em court ou ginásio.

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A um lote muito restrito de jogadores, os mais cotados, foi dado o privilégio de poderem fazer a quarentena num hotel diferente, em Adelaide, e com um protocolo sanitário muito diferente. Os jogadores, que até teriam melhores condições no quarto, estavam muito menos limitados a este espaço e as horas de ginásio não contariam para o plafond diário de período fora do quarto. Foi-lhes permitido, também, que se pudessem fazer acompanhar por mais elementos da sua equipa técnica.

Este duplo critério causou polémica e Djokovic tentou fazer-se ouvir, num misto de crítica e sugestão, junto da organização. O sérvio que, naturalmente, foi um dos beneficiados desta dualidade de critérios mostrou-se bastante solidário com os seus colegas de Melbourne apelando à organização, nomeadamente, que aliviasse as restrições impostas. A Tennis Australia mostrou-se sempre bastante intransigente e nunca pareceu interessada a sequer discutir essa possibilidade deixando as críticas de Djokovic cair em saco roto.

A juntar a esta situação, já por si, bastante complicada, nos charters, vindos de várias partes do mundo, expressamente incumbidos de trazer os jogadores para a Austrália, houve quem testasse positivo, o que fez com que todos os passageiros dos respetivos aviões fossem obrigados a uma quarentena ainda mais restrita com a total impossibilidade de saída dos quartos durante o período de 14 dias.

Sem a possibilidade de fazer treino de court nem de ginásio, foram muitos os vídeos que circularam pelas redes sociais de treinos improvisados nos respetivos quartos de hotel. Os dois portugueses que estão na Austrália para disputar o torneio, Pedro Sousa e Frederico Silva (João Sousa, apesar de ter qualificação direta, viu-se obrigado a desistir da sua participação depois de ter testado positivo para COVID-19), sofreram na pele esta situação, num caso de uma forma direta, já que Frederico Silva estava num dos três voos que entrou em quarentena restrita, e no outro caso de forma indireta, uma vez que Pedro Sousa iria ter como parceiro de treinos o canadiano Vasek Pospisil que também estava num desses voos.

 

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A situação foi muito complicada e, ainda que haja uma natural consciência da necessidade destas restrições, foram (e são) muitos aqueles que questionaram a forma desigual como muitos vão chegar ao primeiro torneio do Grand Slam de 2021. Agora que já passou a quarentena e esta situação está, bem ou mal, ultrapassada, seguem-se os torneios de preparação e a ATP Cup, que serão uma boa forma de avaliar um possível impacto desta dualidade de critérios.

Foto de Capa: ATP Tour

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