Cabeçalho modalidadesA lenda norte-americana John McEnroe tinha perfil de futebolista (no mau sentido, obviamente). O mundo do ténis sabe quão bem jogava, mas muitos por todo o mundo apenas o relembram como um jogador rezingão e mal-educado, que discutia e quase chegava a ameaçar os árbitros depois de jogadas que terminavam com uma bola duvidosa. Quando o juiz gritava “fora”, já se sabia que o americano protestava e ficava largos minutos a dizer “dentro” – bem ao mau estilo futebolístico. Hoje, porém, as figuras que McEnroe faria seriam apenas escusadas – bastaria ao americano pedir ao árbitro um Challenge e o Hawk-eye (ou Olho de Falcão) encarregar-se-ia de dar o veredicto final: dentro, ou fora. Sem discussões, sem perdas de tempo desnecessárias.

O público do ténis não é menos conservador do que o do desporto-rei, e quando a Associação de Tenistas Profissionais (ATP) propôs a utilização do Hawk Eye como espécie de Vídeo-árbitro choveram críticas, críticas essas semelhantes àquelas que oiço hoje, recorrentemente, dirigidas ao VAR: “vai quebrar o ritmo de jogo” ou “desvirtua o desporto” são as mais comuns.

Há, primeiramente, que fazer uma grande distinção entre as tecnologias utilizadas no ténis e no futebol: o VAR continua a depender da interpretação do árbitro, enquanto que a imagem transmitida pelo Hawk Eye é sempre inequívoca (se a bola toca na linha é dentro, se não toca é fora). E isto faz toda a diferença.

Fonte: Ontennis
Fonte: Ontennis

Pessoalmente, considero que as entidades competentes deveriam repensar as funções atribuídas ao VAR de forma a proteger simultaneamente a equipa de arbitragem e o próprio jogo. Situações como dúvida se a bola entrou ou não na baliza, foras-de-jogo, troca de identidade de jogadores sancionados e agressões puníveis com expulsão direta são passíveis de ser analisadas exclusivamente com recurso a imagens televisivas, de forma inequívoca. Situações como a escandalosa mão de Thierry Henry (ou mesmo “La mano de Dios”, no Mundial de 1986), ou agressões como a do murro de Samaris, no fim da época passada em jogo do Benfica contra o Moreirense, seriam analisadas a tempo e horas e inequivocamente punidas de acordo com o ocorrido.

O problema e polémicas associadas ao VAR vêm com a simples distinção entre o que é ou não considerado um “erro grosseiro” – e, por isso, ser objeto de análise da tecnologia auxiliar. Casos como faltas (ou não) a meio-campo, que terminam em golo para uma das equipas, e outros exemplos semelhantes deitam por terra a ideia de o VAR tornar o jogo o mais claro e limpo possível. Deve decidir-se o que fazer nesses casos, de forma a procurar sempre uma decisão tão inequívoca quanto possível, uma vez que o futebol é um jogo de contacto e no qual o juiz tem, desde sempre (e continuará a ter), de tomar decisões que podem mudar o rumo da partida: é parte do jogo tal e qual como as equipas de 11 jogadores. Estas decisões devem, no entanto, ser sérias e rigorosas, ainda mais quando se tem o apoio de imagens televisivas, e falhas na marcação de foras-de-jogo ou falhas como atribuição de penálti quando a falta é, na verdade, cometida fora da área (ou vice-versa) são absolutamente imperdoáveis hoje em dia.

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O argumento da quebra de ritmo de jogo é, para mim, no mínimo irónico, num desporto que tantas vezes sai mal na fotografia por causa de autênticos mestres na arte performativa (as famosas “cãibras” a partir dos 80 minutos, guarda-redes que perdem vastos minutos sem motivo aparente ou mesmo os típicos “mergulhos para a piscina”) que, esses sim, deveriam ser criticados e, se possível, erradicados do futebol. Nisto, o ténis pode orgulhar-se de ser um desporto em constante evolução e, para combater estas perdas de tempo (que também existem nos courts), a Federação Internacional de Ténis (ITF) implementou, pela primeira vez na qualificação do US Open 2017, um relógio que, à semelhança do basquetebol, cronometra os segundos entre os pontos, dando aos jogadores noção do tempo que têm até disputar o ponto seguinte. Também este ano vai ser testado no ATP Masters Sub-21 um sistema que dispensa todos os árbitros exceto o juiz de cadeira, dando ao Hawk Eye toda a responsabilidade no que toca a assinalar bolas dentro e fora, em todos os pontos. 
Muitas são as opiniões e ideias apresentadas até aos painéis da FIFA, como as famosas (e aos dias de hoje estranhas) ideias de Marco Van Basten como acabar com os prolongamentos, acabar com os foras-de-jogo, parar o cronómetro quando o jogo para (à semelhança do basquetebol) e reduzir a partida a 60 minutos úteis, etc.  O que é certo é que a introdução do VAR não só não acalma como ainda consegue acicatar alguns ânimos, não só por parte dos adeptos mas também de (ir)responsáveis técnicos por este mundo do futebol fora.

Artigo revisto por: Francisca Carvalho