Vivemos numa era em que parece haver um manifesto descontentamento nas bancadas cada vez que o jogo entra num ritmo mais pausado e cerebral. Centrando-me principalmente na realidade que melhor conheço – a do SL Benfica –, por alguma razão parece que no entender da generalidade dos adeptos o jogo tem de ter 90 minutos de correria, jogo directo e sem qualquer nexo. Basta haver um toque para o guarda-redes e a impaciência faz-se logo notar.

Não se pede aos adeptos que sejam treinadores de futebol, nem exímios analistas desportivos. Não precisamos de sê-lo para poder apreciar o fenómeno futebolístico. Mas é importante que olhem para lá do visível. No fundo, que vejam e que não olhem simplesmente. Porque é para lá do visível que muitas vezes encontramos o maior talento e talvez a tão pedida “intensidade”. Talentoso não é aquele jogador que passa com sucessivos dribles por três ou quatro adversários e que, no momento em que pode isolar o seu companheiro de equipa no um para um com o guarda-redes, decide-se por mais um drible e perde a bola; talentoso é aquele jogador que a bola ainda não lhe chegou e já ele está a pensar duas ou três jogadas à frente.

Felizmente o SL Benfica tem vários jogadores assim. Desde Grimaldo, passando por Pizzi, Zivkovic, Krovinovic e Rafa até “desaguar” no oceano de talento que é Jonas. Vários são os exemplos de jogadores que são muito mais do que aquilo que se consegue ver, porque a sua influência sem bola é, por vezes, maior do que a que mostram no momento em que a bola lhes chega. Para nossa sorte, esta temporada podemos contar com mais um deste tipo de jogadores: João Félix, o menino que vinha encantando os relvados do Seixal.

Quanto mais perto da baliza, mais influente João Félix se poderá tornar
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

João Félix tem 19 anos mas já se destaca pela maturidade com que se apresenta em campo. Chega a ser até curioso como é que tal é possível, o que retira desde logo quaisquer dúvidas que possa haver relativamente ao facto de se considerar João Félix um prodígio com grandes possibilidades de se tornar um jogador de top mundial. A inteligência que imprime em cada decisão, a forma como se movimenta no terreno, os espaços que pisa, a forma como toca na bola, tudo isto mostra o absurdo talento que este jovem possui.

A verdade é que o mister Bruno Lage conseguiu dar-nos uma amostra daquilo que poderá ser Félix, quando situado mais perto da baliza. Pessoalmente, é aqui que considero que o “79” tem de jogar, pois é onde se poderá tornar mais influente. Não querendo entrar em grandes considerações sobre se o SL Benfica deveria jogar em 1x4x4x2 ou 1x4x3x3 (o mister Bruno Lage já explicou que para lá do sistema táctico estão as dinâmicas entre os jogadores), vejo as características de Félix mais talhadas para o corredor central do terreno. No fundo, onde a magia – a sua magia – pode acontecer. Com o seu jogo de conexões, de toque e desmarcação, sempre à procura do espaço entre linhas e recheado de boas decisões e critério, João Félix poderá aproximar, de forma constante, o SL Benfica das vitórias.

Seja o mister Bruno Lage o treinador para o que resta da temporada ou venha algum outro treinador, desejo fortemente que a aposta em João Félix seja na zona central do terreno. O salto que deu na Formação e que o levou ao patamar da sua actual genialidade foi precisamente a partir momento em que saiu da ala e foi para o centro e isso é indicatório de onde ele se sente mais confortável a jogar.

Foto de Capa: SL Benfica

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Alfacinha de gema e Benfiquista por natureza, Bruno é um obcecado por Futebol e foi através da escrita que encontrou a melhor forma de dar a conhecer essa sua paixão pelo desporto-rei. É capaz de estar desde Segunda-feira até Domingo à noite a ver todos os jogos que passam na TV. Terá sido em pequeno que toda esta loucura futebolística foi despertada pelo seu Pai e pelo seu tio que, respetivamente, o levavam ao Estádio do Restelo e ao Estádio da Luz. Bruno não suporta facciosismos e tenta sempre ser o mais crítico possível para com o seu clube.                                                                                                                                                 O Bruno não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.