João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Iraque, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.
A propósito das declarações de José Mourinho após o jogo do Benfica com a Casa Pia AC, há uma realidade que o futebol moderno insiste em ignorar, hoje sabe-se tudo… menos o essencial. Atualmente, qualquer departamento de scouting consegue analisar um jogador ao detalhe. Métricas físicas, mapas de calor, ações com bola, comportamento tático. Há dados para tudo. Relatórios para tudo.
E, ainda assim, continua a falhar-se no ponto mais crítico, aquilo que não aparece nos dados, o comportamento competitivo. Quem está disposto a competir quando é preciso vestir o fato de macaco. Ao longo dos últimos anos, tenho trabalhado em contextos onde o erro não era confortável, equipas em dificuldade, orçamentos limitados, cenários de pressão constante, jogos com impacto direto na sobrevivência.
E nesses contextos aprendi rápido uma coisa, o talento ajuda, mas não sustenta equipas. O que sustenta é outra coisa, menos visível, menos mensurável mas decisiva, mentalidade competitiva. Hoje fala-se muito de investimento, de milhões, de qualidade individual. Mas há uma pergunta que continua a ser pouco feita com a profundidade que devia:
Este jogador melhora a equipa… ou melhora apenas a perceção de qualidade? Encaixa no modelo de jogo? Responde à mentalidade que o projeto exige? O scouting evoluiu, mas trouxe consigo um risco perigoso, a ilusão de controlo total.


Avaliam-se passes progressivos, expected goals, duelos ganhos, intensidade média. Mas continuam a escapar variáveis críticas visíveis ao olho treinado e sentidas em contexto real.
- A reação ao erro.
- A consistência emocional.
- O compromisso sem bola.
- A capacidade de competir quando a equipa está por baixo.
E foi precisamente isso que ficou exposto no jogo entre o Casa Pia AC e o SL Benfica. Não foi uma questão de qualidade apenas, foi uma questão de resposta competitiva. Quando vemos equipas com elevado investimento, tecnicamente evoluídas, mas que nos momentos críticos desligam, o problema não está só no jogo, esteve nas escolhas.
Contratar não é identificar talento apenas, é identificar comportamento competitivo. E quando se investem mais de 100 milhões, correndo sempre o risco de erro, contratar perfis sem fome de vencer não é azar, é falha de processo.
Como treinador em contextos exigentes, há três indicadores que valorizo acima de qualquer dado:
- Como reage o jogador quando erra?
- Como reage quando está a perder?
- O que faz quando o jogo exige mais do que qualidade?
Quando José Mourinho fala em “fazer a matemática”, não fala de números. Fala de consciência competitiva, de jogadores que entendem o peso de cada momento, o impacto de cada decisão, a urgência de cada jogo. Isso não se ensina em relatórios, e não se corrige a meio da época.
Na minha experiência, as equipas não caem por falta de talento, caem porque, nos momentos decisivos, não conseguem sustentar o nível de exigência que a competição pede. E isso começa muito antes do primeiro treino. Começa na definição de perfil. Na clareza do projeto. Na coragem de escolher não apenas os melhores nomes mas os mais preparados para competir. E aqui surge uma questão inevitável:
Se o problema é falta de fome… porque não dar espaço a quem ainda tem tudo a provar? A formação não é apenas um ativo financeiro. É, acima de tudo, um ativo competitivo. Por experiência própria, o jogador da formação corre mais, arrisca mais, aceita errar e valoriza cada minuto. Não porque é melhor — mas porque ainda não está acomodado. E no futebol, muitas vezes, isso faz a diferença.


Quando um clube investe milhões em jogadores que não respondem nos momentos decisivos, mas mantém jovens no banco que treinam com intensidade todos os dias, há um desalinhamento claro.
Não é uma questão de idade, é uma questão de perfil competitivo. Se o projeto é claro, a integração de jovens não é um risco, é uma consequência lógica. Mas para isso é preciso coragem.
Coragem para assumir erros de recrutamento.
Coragem para quebrar hierarquias artificiais.
Coragem para apostar em quem responde no treino e não no nome.
Se queremos equipas com fome, temos de começar por dar espaço a quem ainda tem fome de crescer. Porque no fim, não são os milhões que garantem rendimento. São as decisões que sustentam o compromisso. E há uma coisa que a experiência me ensinou de forma clara: Não ganha quem joga melhor. Ganha quem compete melhor… quando não dá para jogar bem.

