Olá Southampton, sou o David | SL Benfica

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O QUE PODERIA TER SIDO O SOUTHAMPTON vs BENFICA

Um entusiasmante choque de crânios futebolísticos como Roger Schmidt e Russel Martin, que mesmo com as evidentes diferenças de talento à disposição, teriam argumentos táticos suficiente para conseguirem divertir-nos durante noventa minutos, não passou de relaxante passeata à beira-mar, a passo lento.

Com o Benfica sempre por cima, naturalmente, a tentar pressionar como dantes, e o Southampton a tentar replicar o que fazia o Swansea 2022-23.

Roger entrou a todo gás, com um onze muito próximo daquele que se prevê como principal na temporada que aí vem; Chiquinho acolheu Kokcu na parelha intermediária, Aursnes manteve o papel de omnipresente a partir da esquerda, onde tão bem jogou a época passada, e Neres fez um jogão de costas voltadas para a ala direita.

Rafa, a ostentar braçadeira de capitão do Benfica a ver se o ajuda na decisão capital em relação ao seu futuro, e Petar Musa, que naturalmente surgiu como referência ofensiva dada a falta de Gonçalo Ramos, tentaram discernir os caminhos do golo.

Foi na defesa que se proporcionaram as maiores novidades, ainda que sem grande efeito prático nem promessas de futuros risonhos. João Victor desempenhou o papel de lateral direito uma vez ou outra no Brasileirão, em França foi Kombouaré a ver na sua velocidade um argumento para o arrumar na ala – mas o ex-Corinthians não acrescenta muito mais enquanto homem aberto, e daí que a possibilidade de ser alternativa a Bah não seja, neste momento, muito… atraente.

Fez os primeiros quarenta e cinco minutos, precisamente na parte em que Russel Martin fez alinhar a juventude (quatro titulares com menos de dezoito anos: Amo-Ameyaw, Tyler Dibling, Kami Doyle e Meghoma) e deu tempo aos mais necessitados por uma vaga no plantel – daí que não tenha sido possível aferir qualidades defensivas ao brasileiro, e do que se poderia ver, a desenvoltura no último terço, o brilho de Neres ofuscou qualquer pormenor (se é que os houve).

Lucas Veríssimo e Morato fizeram parelha, sem grandes incidentes a registar como é apanágio quer dum quer doutro – jogando juntos, protegeram o conterrâneo que encarrilava pela direita e permitiam a reedição da dupla central que conquistou a Youth League ao serviço do Benfica, António com Tomás Araújo, na segunda metade.

Ristic actuou pela esquerda, foi certinho como sempre mostrou nos míseros minutos que lhe deram em 2022-23 e marcou um golo, não tão bom como aquele no Estoril, mas outro a mostrar a potente canhota. Que pode não ser tão adocicada quanto a de Grimaldo, preferindo a força ao jeito – mas não há ainda nenhum indício no jogo do sérvio que não justifique uma real oportunidade para a titularidade, pensada já precipitadamente para Jurásek (que viu da bancada, ao lado de Otamendi e Di Maria).

Samuel Soares assumiu as redes, controlou que nem polícia disciplinado a sua área de jurisdição e ofereceu já algo mais que Odysseas – grande à vontade com a bola nos pés. Talvez por aí tenha merecido jogar a totalidade do tempo, sendo o único que disso se pode vangloriar.

Os dois golos do Benfica vieram na primeira parte, o primeiro de Neres, que é de quem se deverá falar quando mais tarde se recordar este jogo como o primeiro passo duma caminhada triunfal até Wembley (e dia 1 de Junho, faltam exactamente 325 dias) – transgride cada vez mais as regras do extremo criativo que deriva para zona interior e atira em jeito, apesar de o ter feito por três vezes e das três vezes ter levado imenso perigo à baliza dos ingleses.

Neres parece continuar o ascendente caminho rumo à total confiança no seu próprio talento e identificação das suas lacunas futebolísticas, e por isso está muito próximo de completar a evolução para fantasista total, decisivo em qualquer situação. É, ou mostra ser, atleta cada vez mais inconformado com o tédio dos estratagemas táticos e parte muitas vezes à procura do desconhecido, sentando adversários com malabarismos enquanto convida para a brincadeira quem ele vê ter estofo para o acompanhar. Hoje foi Chiquinho, foi o novo melhor amigo Kokcu, foi Aursnes que veio algumas vezes lá da outra banda só para ter o privilégio de se associar, e foi Rafa.

David Neres e Vitor Carvalho no Benfica x Gil Vicente.
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Todos eles, excelentíssimos executantes e tecnicistas de grande nível e todos eles também completamente cientes do que os distancia daquele artista. A esta hora estarão certamente em acesa partida de xadrez mental na procura duma resposta para a qual só Schmidt conseguirá dar – há coragem para fazer coexistir Neres e Di Maria? Como a mais óbvia resposta é sim, então quem de nós sai do onze do Benfica?

Sim, jogaram mais Bah, António e Tomás, Rafael Rodrigues, João Mário, Tino, João Neves, Scheljderup, Gouveia – que foi segundo avançado e mostrou boas indicações – e um sonolento Tengstedt, mas é Neres quem merece todo o destaque, mostrando sobretudo o absurdo que foram as suas ausências de jogos capitais de 2022-23.

Não decorou ainda minuciosamente o mapa do campo como Fredrik, não tem a calma parental de João Mário na esquematização dos processos colectivos, não leva constantes multas de velocidade como Rafa nem fuzila como Gonçalo Ramos, mas David Neres reúne todas essas qualidades em doses mais modestas para suportar sobrenatural veia criativa, que tudo inventa sem grande necessidade de raciocinios chatos – tudo na sua criação artística é caoticamente ordenado para a caça ao sorriso, principal propósito do joga bonito.  E por isso a Supertaça continuará sem grande cartaz…

Pedro Cantoneiro
Pedro Cantoneirohttp://www.bolanarede.pt
Adepto da discussão futebolística pós-refeição e da cultura de esplanada, de opinião que o futebol é a arte suprema.

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