Após a tão esperada decisão do regresso do campeonato, as equipas procuram no espaço de um mês recuperar da paragem competitiva e aumentar os índices físicos, como se de uma pré-época se tratasse. E quem melhor para beneficiar desta paragem que Gabriel Appelt Pires?

Afastado dos relvados desde 4 de fevereiro, acreditamos que o seu regresso à competição seja uma excelente notícia para Bruno Lage, aumentando a confiança para a perseguição ao primeiro lugar. Veremos ainda se o interregno competitivo suspendeu, ou se deu por terminado, o período mais instável e inconsistente na era “Lage”.

Em cada equipa há um lote reduzido de jogadores, que pela sua presença em campo, conseguem transmitir uma confiança extrema aos colegas, treinador e próprios adeptos. No SL Benfica um desses casos é Gabriel. Exemplo disso, na presente temporada, com o médio em campo em 24 partidas, os encarnados contabilizam apenas duas derrotas, ambas na Liga dos Campeões.

Talvez ainda mais elucidativo da influência do médio brasileiro e da importância do seu contributo nos resultados da equipa, seja mesmo notar os resultados na sua ausência. Desde o seu afastamento por lesão, a equipa iniciou um ciclo de oito jogos, apenas conseguindo uma única vitória. Certo que dados estatísticos valem o que valem, no entanto, no caso de Gabriel não há como dissociar deles.

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Como justificar desportivamente tamanha dependência e influência do médio encarnado?

Com o camisola 8, defensivamente, volta uma capacidade de recuperação de bola mais eficaz, consistente, aliada a uma intensidade de pressão inigualável no plantel, e seguramente em toda a Liga Portuguesa. Sempre podemos dizer que também Florentino demonstra forte capacidade de recuperação, no entanto não tem sido alternativa direta a Gabriel e a sua capacidade evidencia-se sobretudo em antecipação e não no desarme propriamente dito, mais físico e de choque.

Regressa um conhecimento tático mais refinado, no que à ocupação de espaços, exigível a um médio num esquema de 4-4-2, diz respeito. Daí que a sua amplitude de movimentos seja tão alargada, com preenchimento de grande parte do terreno e participação em todos os momentos do jogo.

Ofensivamente, desde logo proporciona uma solução de construção adicional, face à construção a três que vem sido assegurada por qualquer um dos médios. Ainda que seja uma solução que comporta mais riscos, consegue com facilidade ser uma solução de passe na frente dos centrais, onde as suas rotações de costas para o adversário são capazes de eliminar linhas de bloqueio adversárias. Não é um médio de sair da pressão em posse, é, contudo, um médio com um controlo do espaço e de bola muito favorável a rotações perante os adversários.

Desde a lesão de Gabriel, o SL Benfica disputou oito jogos e venceu apenas um
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Como ponto diferenciador e mais entusiasmante, volta a verticalidade no último passe. Gabriel consegue produzir mais verticalidade no último passe que o próprio Taarabt, que utiliza este estilo de passe, sobretudo, em desbloqueios e rotura de setores, ainda que longe do último terço. Diria mesmo que o médio que mais se assemelha a Gabriel é Samaris, no entanto, o momento e pensamento do passe é completamente distinto, sendo mais refinado o do brasileiro, criando mais perigo em zonas frontais da baliza.

Gabriel permite um maior envolvimento coletivo em fase atacante, quer através de repentinas mudanças de flanco, capazes de desbloquear qualquer organização defensiva, quer pela procura dos laterais em fase mais avançada do terreno, potenciando toda uma dinâmica que sem Gabriel poucas vezes se evidencia.

Esta sua capacidade de imprevisibilidade e de passe proporcionam um SL Benfica mais vertical, ampliando o espaço entre setores do adversário e capaz de potenciar o jogo entre linhas tão querido a Pizzi, Chiquinho, Taarabt ou Rafa.

Nas bolas paradas, quando comparado com a maioria dos médios do plantel encarnado, surge mais qualidade e agressividade no cabeceamento, seja defensivamente ou ofensivamente. Relembre-se o golo de cabeça ao FC Famalicão a contar para a Taça de Portugal, que deu a vitória do SL Benfica já nos descontos.

Não podemos dissociar o seu regresso de um previsível aumento de passes falhados por jogo, ainda que insista em alternar o par de botas clássico constantemente. Surgirá maior quantidade de perdas de bola desnecessárias, uma menor circulação e fluidez no meio campo defensivo, aliado a um excesso de tempo com a bola nos pés, provocando uma lentidão do jogo em certos momentos.

Cremos, contudo, que os benefícios são amplamente superiores aos pontos negativos que possam advir do regresso de Gabriel. Ainda que lento, por vezes, consegue gerir bastante bem os momentos do jogo e perceber exatamente o que a equipa precisa, sendo o elemento mais esclarecido e potenciador do melhor SL Benfica de Bruno Lage.

Artigo revisto por Diogo Teixeira