De Jorge Jesus nunca se esperou a maleabilidade comunicacional ou a postura serena que se imagina num treinador de topo. Com traços da identidade portuguesa, o técnico garantia sim a competência do treino, o estudo dos adversários e conhecimento aprofundado sobre o jogo, que lhe permitiram sempre abordar todas as competições como objectivos a pronto.

São essas valências que lhe permitem a ambição e confiança desmedidas que se transportam para a flash interview e que resultam muitas vezes em precipitações e equívocos, com evidente falta de nível – a resposta a Rita Latas nos Barreiros é disso o último grande exemplo.

Na noite de domingo, houve ainda desvalorização a Waldschmidt, apesar do golo salvador  – “pode fazer muito melhor”, depois de encostar o alemão à esquerda e de este lhe dar a vitória -, como já tinha acontecido no episódio com Gonçalo Ramos no jogo para a Taça.

São inúmeros os episódios que obrigam o treinador a retratar-se, vícios que nem a aventura asiática ou brasileira – e o intercâmbio cultural – conseguiu disfarçar. Que são toleráveis quando consegue engrenar o seu 4-4-2 de sempre e despachar o que lhe aparece à frente, pelo menos até às fases decisivas: nesse contexto os vícios passam a “personalidade vincada” e o peculiar feitio de Jorge não faz mossa.

Em 2020-21, enquanto demora a “arrasar” como prometeu à chegada, as suas declarações vão distanciando a massa adepta, já de si dividida com o seu regresso sebastiânico-trágico.

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Quando chegou à Luz em 2009, impactou não só pela evidente melhoria da competitividade da equipa como também na forma agressiva de se expressar. A falta de sofisticação apontada por alguns era vista como “ganas” pelos mais apaixonados.

Os confrontos com outros treinadores, por vezes até de forma exagerada – Manuel Machado – ou episódios como a dispensa de Quim, em directo e em horário nobre na televisão do estado, exigiam abastado rendimento dentro de campo para ser visto apenas como resultado da sua “frontalidade”.

Em 2010-11, depois de época desastrosa onde falhou a toda a linha, viu-se o reverso da moeda e a insatisfação constante de grande parte da massa adepta, que foi surgindo sempre que as épocas não correspondiam – houve redenção definitiva no triplete de 2013-14, quando já era hábito aceitar os devaneios do técnico e a sua forma irreverente de comunicar.

A ida para o Sporting CP e o clima de guerrilha instaurado por Bruno de Carvalho tornaram-no em cavaleiro negro contra o benfiquismo. A aposta de Vieira noutro tipo de perfil como Rui Vitória, mais comedido e responsável, encaixou com a outra grande lacuna apontada a Jesus: a aposta na formação. A forma paternal como orientava a equipa foi corte unilateral com a presença dos seis anos anteriores, existindo uma linha de continuidade quando se apostou em Bruno Lage.

Mas o fantasma de Jorge Jesus pairava na Luz, habituada à intempestividade de um treinador que conjugava como ninguém o frenesim de apoio das bancadas com a sua própria gestão da equipa, utilizando muitas vezes o público como aliado da sua expressividade para dentro de campo. Acontece que esse estilo de comunicação, de grande intensidade, causa também grande desgaste. Amor e ódio.

Depois de uma segunda volta estranha a todos os níveis e a proximidade das eleições, Vieira não teve outra hipótese senão recuperar o seu grande trunfo. Mas as grandes lacunas apontadas até agora, defeitos de sempre do seu sistema – a permeabilidade do meio-campo que expõe em demasia o eixo defensivo, por exemplo –, e a falta de resultados convincentes não têm permitido disfarçar as gaffes e a inconstância comunicacional.

A promessa do “jogar a triplicar” subiu desnecessariamente as expectativas, colocando-o a ele e à equipa sobre brasas. A eliminação aos pés do PAOK foi pressão adicional que não se esperava e a atitude muito mais despreocupada que vai mostrando, apático por vezes, não tranquiliza os benfiquistas – pelo menos aqueles que viram no seu regresso a solução para todos os males.

Tal como aconteceu com Sherwood, já este ano houve oportunidade de pisar os calos a colegas de profissão: Steven Gerrard ficou incomodado no final do jogo da Escócia e Lito Vidigal só se safou de um confronto pela pronta atitude de Rui Costa, que segurou Jesus no momento do golo de Everton.

Esta procura da adrenalina e os constantes despiques nunca deixaram de ser aspectos vitais da sua energia, onde nem sempre tem comportamentos aceitáveis até para com membros do próprio staff técnico – como Raul José ou Shéu Han, que por ele foi empurrado em White Hart Lane.

Jesus será desculpado consoante a sua taxa de sucesso. Num clube gigantesco como o SL Benfica exige-se mais que vitórias ou goleadas, mas apenas elas poderão ajudar à desvalorização dos aspectos menos bons do estilo de gestão de Jorge Jesus. O calendário apertado não tem permitido grandes semanas de treino nem a frescura necessária para implementar o seu futebol, electrizante e desmedido como só ele sabe ser.

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