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Lições de uma reviravolta improvável

Leonor Caldeira · 7 min

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Estamos prestes a terminar o primeiro ano de Rui Vitória à frente do Sport Lisboa e Benfica. E, se toda a gente sabe que a avaliação e a reputação de um treinador vive quase inteiramente de resultados, talvez seja interessante retirar algumas conclusões do que foi feito nos últimos dez meses, antes que a sua primeira impressão fique irreversivelmente marcada pela classificação final do campeonato.

Rui Vitória chega ao Benfica em Junho de 2015 num contexto muito particular. Chega com a tarefa difícil de ser sucessor de alguém que deu várias vitórias ao clube e que sai “em alta”, com altos níveis de popularidade. A juntar a isto, esse mesmo ex-funcionário junta-se a um dos rivais, criando um sentimento generalizado de traição e orgulho ferido, mas que acima de tudo provocou um clima de grande incerteza e ansiedade, que se sentiu entre os adeptos e que se estendeu à equipa.

O facto de ele próprio ser um treinador relativamente jovem, a abraçar o desafio de treinar o seu primeiro clube “grande”, e de ter um temperamento calmo e ponderado não ajudou: criou-se alguma desconfiança entre os adeptos, com medo de que fosse demasiado “manso” e de que não tivesse capacidades para manter os parâmetros a que já estávamos habituados.

Há que assumir e não esquecer que, no início da época, Rui Vitória era o “underdog”, o desfavorecido, o subestimado. E essa imagem colou-se às expectativas do que seria a próxima época do Benfica.

O período de Rui Vitória arranca e as dificuldades aumentam. Sem grandes reforços de destaque (à exceção de Mitroglou), as alterações mais marcantes na equipa passaram pela inclusão de jogadores da formação. Logo em Agosto a Supertaça é a primeira desilusão. Arranca a época 2015/2016 e perdem quatro jogos com os principais rivais. Em Novembro, eliminados da Taça de Portugal. E a meio de Dezembro a sete pontos do primeiro lugar.

Para os mais pessimistas, esta parecia ser já uma época para esquecer, em que dificilmente poderia sair daqui alguma coisa digna de registo. Para os realistas, não fazia mal manter as expectativas baixas.

Rui Vitória conseguiu construir um percurso vitorioso no SL Benfica Fonte: SL Benfica
Rui Vitória conseguiu construir um percurso vitorioso no SL Benfica
Fonte: SL Benfica

Hoje, a entrar no mês de Maio, o Benfica está desde o início de Março a segurar o primeiro lugar no campeonato. Chegou aos quartos da Champions e conseguiu exibições que encheram os benfiquistas de orgulho. As vitórias no campeonato são gordas e o Jonas afirmou-se como um dos melhores marcadores da Europa. Isto com um dos onzes objetivamente mais fracos dos últimos anos e com o plantel mais barato entre as equipas que estão no pódio.

Fazendo o ponto de situação: existe um antes e um depois de Rui Vitória? Mudou-se de treinador – mas, na prática, que mudanças é que se notam?

Há que puxar pela memória e lembrar que, apesar de bicampeões, nem tudo no Benfica eram rosas. Durante vários anos as queixas foram sempre as mesmas: dizia-se que não existia a intenção de fazer da Champions League uma prioridade para o Benfica, que se descartava facilmente a possibilidade de enquadrar jogadores da formação na equipa principal, que volta e meia existiam uns rasgos de pseudo-criatividade a nível tático em jogos de maior importância que quase sempre davam mau resultado, e, por último, que quem liderava a equipa tinha consecutivamente uma postura inapropriada e inaceitável quando representava o Sport Lisboa e Benfica (apesar de muita gente achar isto perdoável face aos resultados, não considero que seja um fator menor e merece ponderação).

Enfim, apesar de ser verdade que os resultados positivos existiam e no fundo é isso que sossega a massa associativa, existiam inúmeras falhas em opções de fundo que denunciavam um certo descuido face àquilo que deve ser o projeto Benfica a longo prazo: um clube com maior relevância internacional, com jogadores com consciência benfiquista capazes de personificar a nossa mística. Em dez meses, Rui Vitória iniciou a trajetória de inversão.

Mostrou que é possível fazer exibições de qualidade face às melhores equipas da Europa, enquanto se lidera um campeonato nacional. Alguém que não compreende que isto tem que ser o básico do Benfica ano após ano não compreende o que é o Benfica. Havia uma intenção de convencer de que o clube não tinha a dimensão necessária para sequer ambicionar vingar nas duas frentes, mas Rui Vitória desmistificou esse complexo de inferioridade que se quis impor.

E isto é que deve ser o Benfica daqui para a frente. Esta época terá que servir de precedente para consolidar as presenças e vitórias na Champions. Se já se conseguiu manusear o domínio interno, foi nesta época que se deu o primeiro passo para criar um novo paradigma de equilíbrio obrigatório entre frentes nacionais e internacionais.

Num ano em que a Caixa Futebol Campus é premiada com o título de “Best Academy of the Year”, Rui Vitória limitou-se a dar lugar a quem o lugar já era devido. Ultimamente tem havido críticas que tentam relativizar esta aposta na formação, constatando que afinal só há três ou quatro jogadores nessa circunstância. Que me recorde, nunca se disse que o Benfica deveria passar a ter, de um ano para o outro, uma equipa de jogadores totalmente formada no clube. A diferença que se pedia e a diferença que ocorreu é na oportunidade concedida para jogar. Também aqui há novo precedente para que se continue a abrir a porta a jovens formados no Seixal se a qualidade o justificar. É uma das peças chave para construir o Benfica de amanhã, que se quer com jogadores que crescem a perceber a magnitude da causa que servem. Gradualmente, lá se há de chegar.

O SL Benfica recebeu o prémio de 'Best Academy of the Year' Fonte: SL Benfica
O SL Benfica recebeu o prémio de ‘Best Academy of the Year’
Fonte: SL Benfica

Apostar simultaneamente na formação e nas prestações em competições europeias tem que ser a fórmula de ouro. A Champions não serve só para ganhar o título de campeão europeu; serve também de uma via direta de financiamento que permitirá segurar os talentos que são gerados para que cheguem efetivamente à equipa A e possam ser facilmente mantidos. Uma vez que o próprio Rui Vitória já integrou uma equipa técnica de Juniores e sabe o valor do trabalho que por lá se desenvolve, com toda a certeza compreende como estas duas pontas têm que se ligar.

Mais: a segurança que é ter o plantel nas mãos de alguém que tem a consciência de que não está em posição de fazer experiências e malabarismos! Ao longo do ano, conhecemos um treinador que valoriza a consistência tática e que sabe ler o jogo e fazer substituições necessárias na grande maioria das vezes. No máximo, as críticas que têm sido feitas devem-se ao facto de jogar com onzes semelhantes frente ao Bayern e frente ao Vitória de Setúbal, pelo que eventualmente o fim trágico do cansaço físico chegará com maus resultados. Estamos cá para ver.

Por fim, também a postura de Rui Vitória merece destaque e nota positiva. O Sport Lisboa e Benfica é um clube com raízes muito humildes e também isso faz parte da sua identidade coletiva. Não pode haver espaço para arrogâncias e condutas inconsequentes enquanto se está ao serviço do Benfica. Rui Vitória já avisou para não contarem com ele para alimentar intrigas e miudezas que só entretêm os pobres de espírito, e agradeço-lhe muito essa postura, que é o mínimo aceitável de alguém que, inevitavelmente, reflete a imagem do clube para o exterior.

Neste momento em concreto, o espírito de união entre os jogadores é palpável e a motivação está ao rubro. Houve uma reviravolta incrível no campeonato e os méritos têm que ser bem distribuídos: aos adeptos, à equipa… E ao treinador.

Rui Vitória provou ser um líder capaz de manipular o psicológico da equipa e conseguiu criar a motivação, a união e a ambição que devolveram o Benfica ao seu habitat natural – o primeiro lugar. Lembrou aos distraídos que o Sport Lisboa e Benfica nunca, em momento algum, é de subestimar.

Resumindo, no pior cenário possível deixa-se escapar o campeonato por muito pouco, eventualmente pelo normal desgaste físico da equipa, decorrente da época que foi feita – e isso é razão nenhuma para humilhações. Desde já fez-se o improvável com os recursos disponíveis e os adeptos têm mostrado que reconhecem essa virtude ao invadirem em massa os estádios por onde passa a equipa, jornada após jornada.

Os  Fonte: SL Benfica
Os adeptos têm estado sempre ao lado dos jogadores do SL Benfica
Fonte: SL Benfica

Em específico, quanto a este campeonato não nos podemos esquecer de que a pressão de o ganhar estava em toda a gente menos no Benfica. E os obstáculos que foram ultrapassados e a reviravolta mágica que ocorreu perante os nossos olhos são, por si só, razões para vaidade. E, porque se os clichés existem é por alguma razão, estava certo quem disse que o que importa não é quantas vezes caímos mas quantas vezes nos levantamos. Aconteça o que acontecer, acabamos esta época de pé.

Num plano mais geral, finalmente vejo sinais de mudança de direção para o projeto Benfica dos próximos anos. Há largas décadas que o Benfica vive aquém daquilo que é o seu potencial e daquilo que todos queremos testemunhar enquanto apaixonados por este clube. Não é só o Benfica dos anos 60 que tem que ser o auge da sua História; o Benfica do século XXI tem muita história por escrever e muita glória por conquistar. E esse percurso começa a traçar-se com treinadores dispostos a concretizar essa nossa prerrogativa.

Pode ainda não se ter ganho nada mas espero sinceramente que estejam a ser a construídas bases para um futuro melhor e, se assim for, Rui Vitória é o protagonista do início dessa mudança.

Foto de capa: SL Benfica

Leonor Caldeira

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