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«Não era o meu futebol. Jorge Jesus não ia era com a minha cara» – Entrevista BnR com Miguel Rosa

Miguel Ferreira de Araújo · 16 min

«Não era o meu futebol. Jorge Jesus não ia era com a minha cara» – Entrevista BnR com Miguel Rosa
Foto: SL Benfica

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O Evangelho, segundo Miguel Rosa, podia ser o nome da obra que versava sobre o percurso contrário ao que rezava a profecia de um missionário do nosso futebol. Encontrou na Cruz de Cristo, com vista para o Tejo, o santuário que buscava desde o Inferno da Luz. Figura de proa da embarcação azul, viu o barco a ir ao fundo antes de pedir Piedade e ver na Cova a salvação. Nunca precisou de panegíricos para estar ciente do seu valor e, como qualquer devoto a este desporto, deixou a promessa de muitos golos na próxima época. Se Deus quiser, porque com Jesus não pode contar. Em mais uma aparição das Entrevistas Bola na Rede, luz Miguel Rosa.

– Retrospetiva de um amor profundo –

“Sempre fiz grandes épocas desde que comecei a ser comparado a Rui Costa”

BnR: Bem-vindo, Miguel. Obrigado por teres aceitado conceder-nos esta entrevista. O futebol surgiu muito cedo na tua vida.

Miguel Rosa [MR]: Aos oito anos. Os meus familiares leram num jornal desportivo que o Benfica estava a fazer captações e decidimos ir lá tentar a sorte, porque não tínhamos nada a perder e o “não” era sempre certo. Acabei por treinar com a equipa A – um ano mais velhos do que eu -, e a verdade é que me correu muito bem e eles quiseram logo ficar comigo.

BnR: Como viste a transição dos Pupilos do Exército para o Benfica Campus?

MR: Não há comparação possível. Saímos de um pelado, que arranhava por todo o lado, e de uns quartos que eram uma coisa mínima para um luxo – aquilo agora é um hotel, praticamente. Até já ouvi dizer que está nomeada para Melhor Academia do Mundo. É qualquer coisa de extraordinário.

BnR: Disseste recentemente que as memórias desses tempos davam um livro. Queres ensaiar agora um capítulo e contar algumas delas?

MR: Vou pelas mais engraçadas. Estávamos na passadeira do ginásio, eu e o André Carvalhas, e ele pôs na velocidade máxima – tínhamos de entrar em andamento. O Carvalhas conseguiu, porque se agarrou de lado. Eu, em vez de fazer como ele, quis agarrar-me no meio, e não me matei por um bocadinho. Era o centro de estágio inteiro a gozar comigo. Depois, tive outra: o carrinho de relva. Muitas vezes íamos para os treinos nele. Certo dia, não sabia que estava com a marcha-atrás posta, carreguei no acelerador, aquilo anda para trás e parti tudo o que lá havia.

BnR: Deixaste a escola e tiraste um curso profissional. De quê?

MR: De informática.

BnR: O rótulo de um dos jogadores mais promissores da tua geração pesou negativamente?

MR: Não, nunca senti esse peso. Aliás, até foi bom, porque as pessoas olhavam-me de outra forma. A verdade é que sempre fiz grandes épocas desde que comecei a ser comparado, por exemplo, com o Rui Costa. Desde então, comecei a fazer tudo e mais um pouco, mas não tive oportunidades para dar continuidade na equipa A.

Fonte: Facebook Miguel Rosa

BnR: Esses bons desempenhos valeram-te chamadas às seleções e à equipa principal. Alguma vez te deslumbraste?

MR: Não, pelo contrário. Sempre mantive os pés bem assentes no chão e sabia que tinha de continuar a trabalhar. Nos escalões jovens de Portugal, lembro-me de um torneio que fizemos no Porto, no qual acabámos por ser campeões e onde eu fui considerado o melhor jogador da competição. Nessa altura, falou-se em grandes equipas que andavam atrás de mim, como o Barcelona e o Arsenal, mas nunca me chegou nenhuma proposta.

BnR: Também FC Porto e PSV Eindhoven mostraram interesse.

MR: O FC Porto foi num estágio da Seleção, no Jamor. O Freitas, que era diretor da formação do clube, foi perguntar aos meus familiares qual era a possibilidade de eu ir para o FC Port. Disseram-lhe que tinha contrato de formação e que tinham de pagar 250 mil euros dos direitos de formação ao Benfica, mas eles não estavam disponíveis para pagar esse valor. Por sua vez, o PSV contactou o Benfica, salvo erro, na Irlanda. Jogámos contra eles, ganhámos 2-0 e marquei os dois golos.

BnR: Porque é que Bruno Lage foi o treinador que mais te marcou nas camadas jovens?

MR: Quando o mister Bruno Lage me conheceu, começámos a jogar num sistema tático com o qual me identifico muito: o 4-4-2 losango, onde jogava a “10”, atrás dos dois avançados.

BnR: O sistema predileto de Jorge Jesus.

MR: Exatamente. A partir daí, comecei a fazer cada vez mais grandes épocas e cada vez mais golos. Nos Juvenis de segundo ano, fiz 37 golos! Sempre fui um médio que se caracteriza pelo meu instinto goleador: todos os clubes por onde passo, faço bastantes golos.

BnR: Como viste a passagem de Bruno Lage pela equipa principal?

MR: Eu, o André Carvalhas, o Rúben Lima, o Miguel Vítor – os que tinham mais confiança e moral com ele – já falávamos nisso nos juniores; dizíamos-lhe mesmo que era uma questão de tempo até chegar à equipa principal do Benfica. Sabíamos do seu valor, da pessoa que era e a forma como motivava os jogadores. Percebemos que ia ser um treinador de alta competição.

-“Ai-Jesus”-

“Nos primeiros treinos pôs-me na minha posição, mas depois começou a utilizar-me a lateral-direito”

BnR: Foste emprestado ao Estoril Praia no teu primeiro ano de sénior. Qual o motivo pelo qual optaste pela Equipa da Linha?

MR: O Benfica queria emprestar-me ao Oliveirense, com quem tinha uma parceria e para onde foram o Rúben Lima e o Romeu Ribeiro, mas eu achava que o Estoril tinha um projeto melhor, de subida. Não subimos por um golo ou por um ponto, não me recordo exatamente, e a Oliveirense lutou para não descer.

BnR: Quais as principais dificuldades que sentiste na adaptação à Segunda Liga?

MR: Tenho de dizer que fui muito bem recebido pelo Marco Silva e pelo Marco Bicho, que eram os capitães. Como vinha do Benfica, deixaram-me sempre à vontade, porque são benfiquistas ferrenhos. Para ser sincero, esperava mais dificuldades. Talvez a maior dificuldade tenha sido o futebol mais duro e mais físico, que não é tão bem jogado como na formação, em que se sai a jogar desde o guarda-redes. Aliás, concordo plenamente com a criação e inclusão das equipas B na segunda divisão, precisamente por isto.

BnR: A indefinição em relação à tua posição no campo prejudicou-te?

MR: Acho que não, porque é sempre bom um jogador ser polivalente. Considero-me melhor a número “10”, ou a número “8”, mas também gosto de jogar na ala esquerda. Sou um jogador que precisa de ter bola, e, se nos primeiros 15/20 minutos não a tiver, desapareço do jogo. Tal e qual como o Messi: se não tiver bola, não faz a equipa jogar.

Fonte: Facebook Miguel Rosa

BnR: Seguiu-se o Carregado, ao serviço do qual apontaste metade dos golos do clube no campeonato. É-te essencial um papel de destaque para apresentares o teu melhor futebol?

MR: Claro que sim. Sei que nessa época houve muitos clubes interessados em mim porque, apesar de termos descido, levava o Carregado às costas – que é mesmo assim – e, a partir daí, houve muitas equipas interessadas, como o Belenenses.

BnR: Já adivinhavas que estes números iam servir de passaporte para dares o salto para uma equipa como o Belenenses, ou, até, garantir lugar no plantel do Benfica?

MR: Sabia que poderia ir para o Belenenses e, ao mesmo tempo, ter hipótese de, pelo menos (!), fazer a pré-época no Benfica.

BnR: No Restelo, manténs o brilho da temporada anterior, num palco com holofotes ainda maiores. O Benfica foi falando contigo?

MR: Sim. No Belenenses, principalmente, fui sempre acompanhado. Os olheiros do clube iam ver-me muitas vezes ao Restelo. Foi nesse ano que comecei a explodir, acabei por ser o Melhor Jogador da Segunda Liga, e o Benfica quis que fizesse a pré-época com eles.

BnR: Que justificações te foram dadas para, passada uma semana de treinos no Benfica, seres novamente emprestado?

MR: Recordo-me perfeitamente. Nos primeiros dois treinos, ele pôs-me na minha posição e até estava a fazer golos, mas depois começou a utilizar-me a lateral-direito. Depois, de lateral-direito passei para lateral-esquerdo e, finalmente, quando já tinha jogadores para fazer 11 contra 11, ficava num campo à parte a fazer remates ao Moreira, juntamente com o David Simão e com o Rúben Pinto. Éramos os jogadores que ele queria emprestar. Passada uma semana, fui falar com ele e tentar perceber o que ele pretendia.

Fonte: Facebook Miguel Rosa

BnR: Quais eram as suas pretensões?

MR: Queria levar-me para a Suíça, para estágio, e eu disse “Para quê? Para continuar a jogar nas laterais defensivas?”. A resposta dele: “Imagina lá que um jogador se lesiona e eu preciso de alguém para aquela posição?”. “Se ninguém se lesionar, vou estar lá a semana toda a treinar à parte”, disse-lhe. “Mas já é muito bom estares aqui, porque, se quiseres que eu te ponha na tua posição, tens Gaitán, Salvio, Saviola,…”; referiu quase metade do plantel. Então disse-lhe que achava melhor ser emprestado ao Belenenses, porque queria fazer a pré-época com o clube pelo qual ia jogar. Ele insistia que eu tinha de ir para a Suíça, houve um bate-boca e fui falar com o Rui Costa. Acabaram por deixar-me ir.

– Saudades do que a gente não viveu –

“Aí percebi: não era o meu futebol. Ele não ia era com a minha cara.”

BnR: Acabas por regressar a uma casa que já conhecias. O que te fez voltar a Belém?

MR: O amor e a paixão que os adeptos tinham por mim. Fiz grandes e amizades e tinha de voltar àquele clube.

BnR: No final da temporada és distinguido com o Prémio de Jogador Revelação da Segunda Liga. Trocavas este reconhecimento por uma oportunidade real de discutir um lugar no plantel do Benfica?

MR: Sem dúvida. No ano anterior já tinha sido o Melhor Jogador da Segunda Liga. Estava na altura certa de jogar na Primeira Liga ou, pelo menos, de ter uma oportunidade no plantel principal do Benfica.

BnR: Acabas por voltar à Luz e integras o plantel recém-formado do SL Benfica B. Como é que este projeto te foi apresentado?

MR: Começaram por dizer-me que ia para a equipa principal – e o meu objetivo era esse. Entretanto, recebi uma chamada do Bruno Maruta para me apresentar na equipa B. “Então mas o Presidente disse-me que ia voltar para a equipa principal”, disse-lhe. “As informações que tenho são que o Jesus quer ver-te na equipa B”, retorquiu. A verdade é que, desde que comecei a jogar pela equipa B, fiz uma pré-época fora do normal, fiz de tudo e mais alguma coisa nos jogos de treino que fazíamos frente à equipa principal – muitas vezes até ganhávamos – e o Jesus, que era o árbitro, só acabava quando a equipa principal empatasse ou desse a volta. Ficávamos ali duas ou três horas. O Norton de Matos dizia-lhe que já passava da hora e o Jesus respondia-lhe “Mas és tu quem manda? Quem manda aqui sou eu”. Por mais golos que marcasse e por melhor que jogasse, senti que não tinha hipóteses. Durante o campeonato, em dez meses, fui considerado o Melhor Jogador da Segunda Liga em nove, e cinco vezes o Melhor Jovem; na Gala da Liga, venci novamente o Prémio de Melhor Jogador do campeonato. Podia ter feito tudo e mais alguma coisa que não ia ter oportunidades.

BnR: [Miguel prossegue]

MR: Houve uma altura em que o Benfica foi jogar a Barcelona para a Liga dos Campeões, não sei se se lembra.

BnR: 0-0 em Camp Nou. O Barça já estava apurado.

MR: Exatamente. O Norton de Matos disse-me que eu ia com a equipa principal para Barcelona e fiquei todo contente. Assim, ainda em Lisboa, integrei o grupo de jogadores que foi assistir aos vídeos de análise ao Barcelona na última palestra antes da viagem. A este, seguiu-se um vídeo da equipa B do Benfica, em que ganhámos 3-1 ao Marítimo B, jogo no qual marquei dois golos e fiz a assistência para o Ivan Cavaleiro. Num dos meus golos, em que recebo a bola na lateral do João Cancelo e dominei e chutei de pé esquerdo, o Jorge Jesus virou-se para mim e diz-me assim “Ó miúdo, quando dominaste a bola, não tinhas o Kardec em melhor posição para fazer golo?”. “Até tinha e também era bem jogado, mas fiz golo”, ripostei. “Pronto, então podes voltar para a tua equipa”. Aí percebi: não era o meu futebol. Ele não ia era com a minha cara. Era fora do normal.

BnR: Nessa equipa estavam João Cancelo, Victor Lindelof ou Gonçalo Guedes. Muita qualidade.

MR: O André Gomes era meu suplente. Ele é que sobe à equipa A. Por aqui se explica muita coisa. Nesse ano, podia fazer mundos e fundos, podia fazer três golos por jogo, que nunca iria ter uma oportunidade com o JJ. Apesar de não lhe guardar rancor! Antes pelo contrário, acho que, neste momento, ele está nos 6/7 melhores treinadores do mundo.

BnR: Mês após mês és considerado o MVP da Segunda Liga. Sentias-te num patamar competitivo à parte?

MR: Foi precisamente sobre isso que falei com o Luís Filipe Vieira – que me ajudou muito e é um grande Presidente. “Se eu não tiver mais oportunidades no Benfica, por favor, deixe-me sair para jogar num clube de Primeira Liga”. Tinha propostas do Belenenses e o Marítimo e o Benfica queria enviar-me para a Madeira, por causa de um acordo que envolvia outro jogador que tinha ido do Marítimo para o Benfica, e tinham-lhes prometido que ia eu para lá. Foi uma guerra do caraças. Mas como tinha sido muito feliz no Belenenses, sentia-me amado – ainda hoje recebo mensagens para terminar lá a carreira…

BnR: Existe essa possibilidade?

MR: Daqui a dois ou três anos, sim. Tenciono voltar ao Belenenses quando já estiverem na Segunda ou mesmo na Primeira Liga.

BnR: Estamos a falar do Clube de Futebol “Os Belenenses”?

MR: Sim.

– O Evangelho Segundo a Cruz de Cristo –

“A vossa sorte é que assinámos ontem com o Iuri Medeiros, senão era já ele que ia hoje”

BnR: Gostas de viajar?

MR: Sim.

BnR: Recuemos até 20 de Agosto de 2015. Innsbruck é uma bonita cidade.

MR: Sobretudo para garantir o apuramento para a Fase de Grupos da Liga Europa pelo Belenenses.

BnR: A estreia nas competições europeias é o ponto mais alto da tua carreira?

MR: Era algo com que sonhava, e a verdade é que consegui. Foi muito gratificante. Também apanhei um treinador que gostava muito de mim. Tem a sua maneira de ser, mas é uma maneira de ser positiva.

BnR: Sá Pinto?

MR: Sim. Com quem ainda mantenho contacto. Aliás, fizemos um jogo-treino contra ele há um ano (…).

BnR: Já estava no SC Braga?

MR: No Legia! Fomos a Rio Maior – eles estavam lá a estagiar na paragem de inverno do campeonato polaco –, e ele veio falar comigo e pensava que eu já tinha 34 anos. Como apareci tão cedo (com 18 anos o meu nome já estava a ser falado em todo o lado), as pessoas acham que sou mais velho. “Não, mister! Ainda agora fiz 30 anos”. E ele assim “O quê, Rosinha? Então atenção que estou de olho em ti!”. A verdade é que fomos para o jogo, joguei a partir da esquerda e dei cabo do lateral-direito do Legia. E ele aos gritos para mim “Ó Rosinha, está quieto! Este miúdo ainda joga tanto!”. Virou-se para um dos nossos diretores e disse “Ouve lá! Não tarda muito ele está é lá comigo. A vossa sorte é que assinámos ontem com o Iuri Medeiros, senão era já ele que ia hoje, mas estou de olho nele!”.

BnR: 129 jogos depois, decides trocar o lado pelo qual vês o Cristo Rei e assinas pelo Cova da Piedade. O diferendo entre clube e SAD do Belenenses afetou-te?

MR: Eu estava lá era para jogar futebol, não tinha de ligar ao que vinha de fora.

BnR: O que aconteceu nessa época?

MR: Passei um bocadinho mal. Treinava na equipa titular, estava na palestra, e acabava por ir para o banco ou para a bancada. Não compreendo porque é que me fizeram isso.

BnR: Alguém conhece o Parque da Quinta das Conchas melhor do que tu?

MR: Não, não, não. Ainda ontem lá estive a treinar, por exemplo.

BnR: A instabilidade – profissional e emocional – na carreira de um jogador de futebol ainda é um tema tabu na nossa sociedade?

MR: Talvez para alguns, mas eu não tenho medo de falar. Foi o meu pior ano e passei muito mal. Digo mais: nesse meu último ano no Belenenses, chorei muito e muitas vezes não conseguia dormir. Não tenho vergonha de contar. O meu passado fala por mim e toda a gente reconhece o meu valor. Fiz tudo para sair e sei que dei um passo atrás ao ir para a Segunda Liga, mas não me arrependo. Antes pelo contrário, porque o Cova da Piedade sempre me tratou bem, fez de tudo para que continuasse a jogar ao mais alto nível e pagaram-me sempre a tempo e horas. A alegria de jogar futebol voltou.

– De caixão à Cova –

“Pelo menos entre oito a dez golos prometo que vou fazer”

BnR: Disseste na tua apresentação pelo clube de Almada que tiveste propostas de emblemas da Primeira Liga. Quais foram?

MR: O Rio Ave, mas tive de optar pelo Cova da Piedade.

BnR: O Cova da Piedade tem condições para almejar a algo mais que a Segunda Liga?

MR: O objetivo, quando cheguei, passava por estabilizar o clube na Segunda Liga, mas condições não faltam para sonhar com a Primeira Liga.

BnR: Fizeste um interregno de seis meses na última temporada, com o Ventspils da Letónia, e o Universitatea Cluj, da Roménia, metidos ao barulho. Podes clarificar o que se passou?

MR: No Universitatea Cluj, a primeira proposta que me fizeram até me agradou, mas, passados uns dias, o valor do ordenado já tinha descido abruptamente. O tempo deu-me razão: os jogadores portugueses que foram para lá foram mandados embora passadas três semanas. Com Ventspils até cheguei a assinar. Dois dias antes de viajar, mandei uma mensagem ao diretor e ele liga-me “Pois, Miguel… temos de ver, porque a Câmara ia ajudar-nos com 75% do ordenado e agora diminuíram para 25%. O Presidente disse que o valor que ias ganhar agora é impensável e já não te consegue dar casa e carro…”. “Mas eu assinei um contrato!”, disse-lhe. “Mas nós não fomos a um notário reconhecer a assinatura”. Então fui ao advogado do Sindicato e fomos para tribunal.

BnR: Qual o papel do mister João Alves na tua decisão de voltares ao Cova da Piedade?

MR: O mister João Alves ligou-me porque soube que não tinha chegado a acordo com o Ventspils e perguntou-me se estaria disposto a regressar e a ajudá-lo. “Neste momento, o que mais quero é voltar a jogar e mostrar novamente o meu perfume”. Cheguei, peguei de estaca e a equipa começou a ter resultados: estávamos a três ou quatro pontos do Casa Pia e acabámos com seis ou sete de avanço. Quando começou a pandemia, estávamos a jogar muito bom futebol e acreditávamos que conseguíamos a manutenção dentro do campo.

BnR: O que pensas sobre a readmissão do Cova da Piedade e do Caso Pia na Segunda Liga?

MR: Devem manter-se, sem dúvida alguma. Acho injusto penalizarem equipas que ainda podiam defender-se dentro de campo. Ainda estavam 30 pontos em disputa.

BnR: O teu contrato terminou em junho. Já tens clube para a próxima época?

MR: Tenho algumas equipas interessadas, entre as quais o Cova da Piedade. Tive o Doxa, do Chipre, mas em termos de salário não me seduziu. Independentemente de onde jogar, pelo menos entre oito a dez golos prometo que vou fazer.

Todas as fotografias usadas nesta entrevista foram retiradas do Facebook do entrevistado de forma consentida

Artigo revisto por Mariana Plácido

Miguel Ferreira de Araújo

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