3 de junho de 2019. É este o dia mais negro da história para quem gosta de passar o serão no sofá, enrolado numa mantinha, a ver novelas. Neste dia chegaram ao fim duas das maiores novelas de verão no que ao mercado de transferências do futebol nacional diz respeito. Com o SL Benfica como denominador comum, duas movimentações de mercado históricas foram oficializadas no espaço de duas horas: João Félix é o novo camisola 7 do Club Atlético de Madrid e Raúl de Tomás (ou R.D.T, como o próprio prefere) será (suponho) o novo camisola 9 do SL Benfica.

A venda do português por 126 milhões de euros (com o pagamento de juros à entidade bancária), que na verdade são 120 milhões (valor da cláusula), que na verdade são 108 milhões (após a transação de 12 milhões para os cofres de Jorge Mendes – se lá ainda houver espaço), é a maior de sempre de um jogador português. A contratação de Raúl de Tomás ao Real Madrid FC por 20 milhões de euros é a segunda maior compra do futebol português (a maior, curiosamente, também foi por parte do SL Benfica e também foi a de um Raúl que jogava em Madrid – Raúl Jiménez, 22 milhões, 2015).

Contas feitas, saldo (muito) positivo para o clube da Luz: 88 milhões de euros de lucro. Financeiramente, tudo certo. Mas na vertente desportiva, como fica o SL Benfica? João Félix é um dos maiores “talentos puros” (o pessoal de Madrid tem olho para slogans) do mundo do futebol atual. Acredito, sinceramente, que se alguém, daqui a cinco, dez anos, redigir um dicionário do futebol, o português será a definição de segundo avançado, falso avançado, nove e meio, nove e três quartos, etc. R.D.T. não o é.

Então, quem é Raúl de Tomás? Hispano-dominicano, nasceu em Espanha e ingressou cedo nos escalões de formação do Real Madrid FC. Apontam-lhe o pé direito como pé preferencial, mas pode ser só um mito. Quem o vê jogar não decifra de que pé gosta mais. Bastante salomónico. Com 1,80m e 75kg não pode ser chamado de “possante”, mas também não é um indivíduo franzino. Em outubro cumprirá o seu 25º aniversário, o primeiro enquanto jogador do SL Benfica.

Ao lado do presidente do SL Benfica, Raúl de Tomás enverga pela primeira vez a camisola que vestirá, se cumprir o contrato, de cinco temporadas
Fonte: SL Benfica

Na época 15/16, teve a sua primeira experiência fora dos merengues e fora da capital espanhola: jogou, por empréstimo, no Córdoba CF, que militava na segunda divisão espanhola. Participou em 27 jogos e apontou seis golos. O Real Madrid FC gostou da sua prestação, o suficiente para não o libertar do contrato, mas não o suficiente para o integrar no plantel. “Nós ficamos com ele”, disseram os dirigentes do Real Valladolid CF. E assim foi. Mais uma época de empréstimo, mais uma época na segunda liga espanhola. Desta feita, foram 39 jogos e 15 golos.

“E agora, já gostam de mim?”, terá perguntado de Tomás. “Hum”, terá respondido Florentino Pérez, presidente madrileno. “Não se preocupem, já sei o caminho”, terá retorquido Raúl, enquanto se dirigia mais uma vez para o segundo escalão do futebol espanhol. Empréstimo de uma época ao Rayo Vallecano de Madrid, S.A.D., que viria a repetir-se na temporada seguinte (a que findou o mês passado), na La Liga, após um casamento bem-sucedido, em que de Tomás marcou 24 golos em 32 jogos e em que o clube de Vallecas subiu de divisão.

Na época que há pouco se despediu, Raúl de Tomás apontou 14 golos em 34 jogos pelo Rayo Vallecano de Madrid, S.A.D., que veio apenas matar saudades do principal escalão, voltando de imediato para o escalão secundário. No entanto, desta vez Raúl de Tomás não voltou. Com uma proposta de 20 milhões de euros apresentada ao Real Madrid FC e um contrato de cinco temporadas, com um salário de 2,2 milhões limpos, apresentado ao jogador, o SL Benfica impediu que o talento do espanhol continuasse a ser desperdiçado na segunda liga do país vizinho. E ele tem muito talento.

Matador como poucos, de Tomás finaliza com eficácia de pé direito, pé esquerdo ou de cabeça. Remata, com qualidade, de dentro e de fora de área. Movimenta-se e, sobretudo, posiciona-se muito bem dentro da área adversária. Essa capacidade de posicionamento torna-o um jogador oportunista, que aparenta estar sempre no sítio certo. Apesar de ser um jogador latino, apresenta muita frieza frente à baliza e na hora da fuzilar, tendo gatilho fácil (muito mais fácil do que o de Haris Seferovic, por exemplo). É um jogador de filosofia simples: o objetivo é marcar, para marcar há que rematar, então eu remato. Fossem todos os pontas de lança assim…

Apesar de apresentar alguma mobilidade, não o vejo a substituir João Félix e a jogar como segundo avançado. Creio que Raúl de Tomás cumpre os requisitos de um avançado centro, sendo um concorrente direto e natural de Seferovic. De resto, sou da opinião de que com Seferovic e R.D.T, o SL Benfica bem fica servido no respeitante à ponta da lança que é a equipa de Bruno Lage. Com um jogador a fazer-lhe companhia, de Tomás será letal, tendo tudo para fazer 30/35 golos já esta época. Com a mobilidade que possui, pode resultar também num sistema 4x3x3, como avançado único.

Tudo pesado, o SL Benfica garante um excelente reforço que, acredito, vai agarrar a titularidade a tempo da Supertaça frente ao Sporting CP (4 de agosto, no Estádio do Algarve). No entanto, as inevitáveis comparações com João Félix têm que começar a ser evitadas. Só assim poderá Raúl de Tomás mostrar tudo o que tem para mostrar e dar ao SL Benfica tudo o que tem para dar. Eu dou o mote: neste texto, não falo mais de João Félix.

Foto de Capa: SL Benfica

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