
Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google
Causa sempre estranheza, a alguém como eu, escrever sobre a morte de alguém como Mário Wilson, que conquistou, há muito, a imortalidade sagrada (e indestrutível) a poucos concedida pela memória colectiva. É um exercício penoso: o autor do texto, extinto mesmo antes de o estar, tentando fazer por recordar quem jamais pode morrer; ou muito menos ser esquecido – a morte continua sendo demasiado sobrevalorizada.
Mário Wilson partiu fisicamente na segunda-feira, aos 86 anos, deixando-nos um legado inigualável – não se trata somente de vitórias e títulos (mas também); o Velho Capitão foi (é) muito mais que isso: um jogador, um treinador, um homem visionário e exemplar, que através do talento, de uma personalidade ímpar, alicerçada em valores e princípios inegociáveis, colheu (colhe) unanimemente a admiração de pares e adversários; um consenso raro, no desporto e na vida.
Cruzei-me consigo em diversas ocasiões, troquei consigo algumas palavras, sempre ouvindo, raramente falando, e inspirando cada frase, cada letra, por vezes emocionado, outras vezes atónito, compreendendo como nunca antes havia compreendido que existem palavras que nascem directamente do coração, da própria alma. Que melhor elogio se poderá fazer a Mário Wilson? Como melhor o definir? Dizendo, simplesmente, que o seu nome se misturará, indubitável e para sempre, com o nome e a história de dois gigantes do nosso futebol, do desporto nacional: Académica e Benfica, os seus dois grandes amores (os nossos dois grandes amores!). Quantos poderão dizer que o conseguiram? Mário Wilson era (é) de uma safra irrepetível.

Fonte: Académica
Nasceu em Moçambique, terra encantada – a mesma de Eusébio e Coluna –, onde tanto Benfica se fez e se continua a fazer. Chegou a Portugal em 1949, com 19 anos, para representar o Sporting; no clube de Alvalade cumpriu duas épocas, fez 38 jogos, marcou 37 golos e sagrou-se campeão nacional por uma vez (em 1950/1951). O desejo de conciliar o futebol com uma formação académica (formar-se-ia em Geologia) levá-lo-ia a deixar a capital, rumando até Coimbra. Vestiria a camisola da Académica durante 12 épocas (entre 1951/1952 e 1962/1963), tornando-se numa figura incontornável do clube e da cidade. O Velho Capitão, antes guiado, tornara-se guia, personificando, como poucos, aquilo que verdadeiramente representa a Briosa. Como treinador, prosseguiu o exemplo do Mestre Cândido de Oliveira, chegando a treinador principal da “sua” Académica em 1964, onde viveria momentos de glória – em 1966/1967 sagrar-se-ia vice-campeão nacional, algo inédito na história do clube.
Despertou para a política em Coimbra: para a luta estudantil; para a luta contra a colonização; contra o regime; contra a ditadura – predicados históricos de academistas e benfiquistas. Às margens do Mondego, partilhou a “República” com Almeida Santos; ao Tejo, casa com Agostinho Neto. Um revolucionário de tom agradável, sem nunca levantar a voz grossa e pausada, feita de palavras humildes, simples e divertidas (como são sempre as mais inteligentes). Uma estranha e hipnotizante capacidade de comunicar com os homens; de uma força impressiva que só a mais pura honestidade pode conter.
Em 1975, com 46 anos, chegaria, finalmente, ao Benfica, o seu outro grande amor, o de nascença, o que não havia sido ensinado. No Glorioso, seria campeão em 1975/1976 – tornando-se no primeiro treinador português campeão pelo Benfica – e venceria a Taça de Portugal em 1979/1980 e 1995/1996. Foi, ao longo de várias épocas, “bombeiro” do clube, substituindo, interinamente, o treinador principal nos momentos mais difíceis; a última vez aconteceu em 1996/1997, na fase de transição entre Paulo Autuori e Manuel José.

Fonte: SL Benfica
Além de Académica e Benfica, treinaria ainda Belenenses, Vitória de Guimarães, Boavista, Estoril-Praia, Cova da Piedade, Louletano, Torreense, Olhanense, Águeda e FAR Rabat, de Marrocos. A sua última experiência, com quase 70 anos, aconteceria no Alverca, presidido por Luís Filipe Vieira, na época de 1998/1999.
Um percurso notável: no futebol e na vida. Mário Wilson partiu fisicamente, mas a sua herança, a sua inestimável sabedoria, jamais nos deixará. Hoje, através das suas eternas palavras, compreendemos melhor; somos melhores. Resta-nos, por isso, e por tudo o resto, mostrar a nossa gratidão. Não haverá, por certo, homens perfeitos por todos os tempos – mas se alguém chegará a estar perto de o ser, esse alguém é Mário Wilson.
Foto de capa: SL Benfica












