Ao longo dos anos, temos sido inundados pela ideia de que o treinador português é, por si, um treinador de topo mundial. A verdade é que esta é uma teoria só baseada no sucesso de José Mourinho. Contudo, é uma ideia muito defendida no Futebol Português. Os clubes fecharam os olhos ao treinador estrangeiro. Aposta-se no treinador português às cegas, num carrossel de treinadores despedidos e empregados em curtos períodos de tempo.

É recordar a desconfiança com que se olhou para a chegada de Keizer. Porquê contratar um treinador estrangeiro com tantos portugueses disponíveis? Um treinador que não conhece a nossa realidade, o nosso campeonato, os nossos jogadores. Queremos um futebol português fechado ao estímulo de diferentes culturas, ideias e métodos de trabalho. Com isto, recusamos a diversidade e limitamos a evolução dos nossos treinadores.

Já gostei mais do treinador português. A primeira década do século foi propícia à cultura portuguesa, mas hoje são outras que brilham. Destaco três caraterísticas no treinador lusitano: Capacidade de Adaptação, Estratégias Motivacionais e Estudo do Adversário. Portanto, um treinador académico.

A aposta no treinador português é cada vez mais valorizada internamente
Fonte: SL Benfica

Hoje em dia, as estratégias motivacionais banalizaram-se numa realidade em que o futebolista vive mais na internet do que no ambiente fechado do balneário. Além disso, o foco deste treinador é o estudo e a adaptação ao adversário. É um estratega que treina a equipa em prol daquilo que o adversário oferece. Uma qualidade que se esgotou no tempo, que não sobressai perante uma cultura de um Futebol desenvolvido em processos e ideologias de jogo.

É que, hoje, os grandes treinadores trabalham e insistem na sua ideia de jogo, seja ela qual for. Jogam para impôr em campo o futebol no qual acreditam. Num mundo onde cada um olha cada vez mais para dentro, o treinador português continua a olhar demasiado para fora.

Vejamos Mourinho. Parou no tempo. Não percebeu que não pode ganhar campeonatos e entusiasmar os adeptos e jogadores com um futebol de exploração do adversário. Não percebeu que já não é possível suprimir o talento. Vejamos Jorge Jesus. Um enorme treinador quando se limita a fazer aquilo que melhor sabe – treinar. Assim que começa a olhar para os lados e a dar corda à boca, é o usual descalabro. Vejamos Rui Vitória. Alguém que desvaloriza o treino e recusa a possibilidade de trabalhar uma ideia de futebol. Limita-se a estudar o adversário e a montar uma equipa focada em anular os pontos fortes deste.

Bruno Lage dá grande primazia à vertente do treino e à construção de uma ideia de jogo
Fonte: SL Benfica

Em Portugal, têm surgido treinadores a fugir a este estereótipo – Castro, Jardim, Marco Silva, Miguel Cardoso -, porém, têm tido dificuldades em afirmar-se no topo do futebol europeu. É neste contexto que surge Bruno Lage. Alguém focado no treino e na insistência de uma ideia. Alguém que adora futebol, que adora partilhar futebol. Um treinador que olha para os seus jogadores e para a qualidade daquilo que produzem.

Contudo, mantém-se como um treinador com uma escola muito portuguesa. Em jogos de maior dificuldade, já vimos este SL Benfica abdicar da ideia de jogo que tem vindo a construir. Um Benfica de posse, de troca de bola e futebol apoiado, já surgiu em campo como uma equipa a oferecer o jogo ao adversário e a explorar o futebol direto e de contra ataque.

Eu quero um Benfica em Lageball. Espero que este treinador não ceda à pressão dos resultados e que não traia o futebol no qual acredita. Que saiba usar o estudo do adversário somente para limar arestas e não como um modo de viver o jogo. Lageball Bruno.

Texto corrigido por: Mariana Coelho

Foto de Capa: SL Benfica

Comentários