Como é que eu reagiria se, no início da época, alguém me dissesse que o SL Benfica estaria em quarto lugar, colado ao FC Paços de Ferreira, a mais de dez pontos da liderança, com uma percentagem de vitórias abaixo dos 50%, fora da Liga dos Campeões e derrotado na meia final da Taça da Liga? Provavelmente atacaria a inteligência e conhecimento futebolístico desta pessoa. Com um investimento de mais de 100 milhões em jogadores e com a chegada de Jorge Jesus seria impossível isto acontecer com a equipa encarnada. A época tinha tudo para correr bem – mas será que tinha mesmo?

O namoro com a hipótese de regresso de Jorge Jesus era já bastante longo, mas acabou mesmo por se concretizar no início desta temporada. Com ele vieram grandes jogadores, uns já com provas dadas como Everton, Waldschmidt ou Vertonghen. Outros, grandes promessas como Pedrinho ou Darwin.

Apesar de um bom início de forma, a primeira hecatombe surgiu logo na eliminação com o PAOK FC. Numa eliminatória a uma mão, não tendo Jesus tido tempo para implementar o seu futebol, foi dada uma certa margem ao treinador encarnado. O que é certo é que era um presságio do que estaria para vir e tem, teve e terá um grande impacto naquilo que são as finanças do clube encarnado.

Perante o falhanço no acesso à Champions, o SL Benfica viu-se “obrigado” a vender o verdadeiro líder da equipa, Rúben Dias – que hoje vai brilhando na Premier League. Foi um bom negócio? A nível financeiro, claro que sim. A nível desportivo foi absolutamente decisivo para o total falhanço que tem sido esta época.

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A temática da venda de Rúben Dias transporta-nos para a forma como é gerido o SL Benfica. O clube encarnado tem sido gerido como uma autêntica empresa, focando-se apenas nos lucros, desprezando resultados desportivos e ignorando aquilo que são as opiniões dos adeptos.

A grande culpa disto é obviamente de uma pessoa: Luís Filipe Vieira (LFV). O presidente que há menos de dois anos disse que Jorge Jesus nunca mais treinaria o SL Benfica, que Taarabt não mais envergaria o manto sagrado e que afirmou que nunca seria sensato apostar tudo numa superequipa, pois isso poderia desequilibrar muito o saldo financeiro do clube. Olhemos para onde estamos agora.

Mesmo com todo o investimento que foi feito, o plantel continua desequilibradíssimo e com lacunas graves. LFV passou o controlo total do futebol para Jorge Jesus e isso tem se mostrado um erro gravíssimo. Não há na estrutura do SL Benfica uma única pessoa que se mova bem dentro do mundo do futebol. O departamento de scouting é absolutamente ignorado.

100 milhões de euros depois e a equipa não tem, no plantel, um defesa direito de qualidade. São gastos 38 milhões em dois extremos. Onde é que estava este elevado investimento no ano do possível penta? E na segunda época de Bruno Lage?

É perfeitamente normal, e até louvável, que se mude de opinião. Contudo, LFV não mudou de opinião. As apostas fortes no mercado de transferências e a contratação e Jorge Jesus tinham em vista apenas uma coisa: conseguir mais votos naquelas que seriam as eleições mais disputadas na história do SL Benfica.

A formação tem sido uma das áreas mais afetadas este ano. Aquela que foi, durante anos, a bandeira de LFV e do SL Benfica aparenta estar completamente esquecida. A saída de Rúben Dias marcou praticamente o fim dos atletas da formação na equipa principal. Os jogadores da formação são apenas uma miragem. Gonçalo Ramos vai jogando cinco minutos de quando em vez, muitas vezes sendo impedindo de jogar na equipa B. Esta tem sido uma das gestões de carreira mais desastrosas que alguma vez vi.

Jovens como Ferro, Jota ou Tomás Tavares são emprestados a clubes completamente aleatórios, sem sequer ter em consideração a forma como o seu jogo encaixa no estilo de futebol da equipa ou do campeonato. O empréstimo de Tiago Dantas, com uma cláusula de compra baixíssima, é o perfeito indicador da forma como o SL Benfica vê os empréstimos: oportunidade de valorizar os jogadores, sem nunca ter em conta o seu desenvolvimento.

Olhando para isto de forma externa podemos culpar, por exemplo, Ronaldo Camará de não querer renovar? Os jovens da formação olham para aquilo que é a “estrutura” encarnada e não veem qualquer futuro. Ronaldo Camará escolheu, para já, não renovar o seu contrato e foi, subsequentemente, afastado de todas as equipas de formação. Isto é forma de lidar com a situação?

O SL Benfica vai sendo gerido de forma amadora e sem qualquer projeto para aquilo que é o futuro do clube. Jorge Jesus abandonou o clube das “águias” por não encaixar no “projeto de aposta na formação”. Menos de cinco anos depois, está de regresso. O que aconteceu a este projeto desportivo? Simples, nunca existiu.

O SL Benfica é gerido ao sabor o vento, pensando apenas em vencer o campeonato da época que decorre. Com o passar do tempo vamos ficando cada vez mais para trás relativamente ao resto da Europa. Internamente, o domínio esbateu-se completamente. Vão sendo distribuídos cargos no clube não por mérito ou conhecimento, mas sim por ligações de amizade. Financeiramente, o clube fez um investimento arriscadíssimo e não vai ter retorno, ainda mais se falhar (novamente) o acesso à prova milionária. A política da transferências e os mercados explorados pelo SL Benfica vão contra aquilo que é a tendência dos grandes clubes europeus. O clube atravessa uma crise de identidade.

Ainda assim, 62% dos benfiquistas escolheu, de forma democrática, continuar com tudo isto… Dá que pensar…

 

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