Para onde vai o Benfica

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O Benfica é um servo do tempo que nos manipula toda a vida. Consoante o estado em que se encontra – vivo e vencedor, cá vamos andando, meio-vivo, deprimido, quase-morto – leva consigo os seus adeptos. Faz-nos loucos e doentes, arrasta-nos na depressão, atira-nos para a morte aos 92 minutos. Junta avôs, pais e filhos, que se atropelam em busca do melhor ângulo (na bancada, na taberna da aldeia, no topo da montanha) para que, numa maravilhosa sincronia de bocas abertas, olhos arregalados, punhos cerrados e joelhos flectidos que só um golo do Benfica traz, possam deleitar seus olhos com aquele golaço do Magnusson, do Paneira, do Rui Costa, do João Pinto, do Simão, do Cardozo. Foram muitos – tantos! -, três milhões de golos ou até mais, que já vi e sonhei que vi por aquele relvado.

"E agora?" / Fonte: pt.uefa.com
“E agora?”
Fonte: UEFA

O antigo Estádio parece que até era mais verde, cheirava mais a relva, o sol acariciava-o de plena vontade, por anos e goleadas a fio. Os pilares a tremer, esmagados por cento e vinte mil seres fanáticos que empurravam os onze vermelhos e a bola baliza adentro, e o quarto anel acenando lá de cima, satisfeito por ter feito bem o trabalho enquanto terrestre. Havia benfiquismo militante, misturado com ganas de mais golos porque um 5-0 nunca chegava – e esses adeptos exigentes enfadavam-se se não chegasse o sexto. Se o sexto demorasse, até o avô tirava a boina e cabeceava e a mãe esquecia o joanete para finalizar de primeira, à Águas. O quarto anel (deliciosa expressão) está feliz, com certeza: viu Taças dos Campeões Europeus, viu Eusébio. O que podiam ter querido mais? Lá saberão eles, agora, felizardos inconscientes, da volta que isto deu. Se olhassem lá de cima, só iriam ver ombros caídos, pessoas cabisbaixas, sangue benfiquista num vermelho rosado muito maricas e fraco de espírito (para fazer jus ao equipamento, claro). Se vissem um Presidente que ambiciona a final da Liga dos Campeões quando apresenta dois invejáveis campeonatos em dez anos, o Cortez de águia ao peito e um jogador da formação a ser lançado para defender o resultado contra o Cinfães porque 1-0 chega, menos quando num soalheiro domingo de Maio “pensávamos que 1-0 chegava”…

Et pluribus unum, de muitos, um, parece-me completamente desprovido de sentido, actualmente. Porque não de um, muitos? Esse um foi eleito em 2003 (daqui por alguns anos: Eu? Eu nunca votei Vieira!) – os muitos seguem-no, cegos – e ligou o Benfica à máquina. O último a sair que a desligue ou carregue no reset, por favor.

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