2020 está do avesso. O que tomávamos por certo viu-se substituído pelo seu completo oposto. O futebol, que muitos tomam como um problema, mas que, na verdade, não passa de um sintoma dos grandes problemas do Mundo, não tem sido exceção. Um dos casos mais recentes e mais polémicos prende-se com a possibilidade de alguns dos mais consagrados jogadores do SL Benfica terem “feito a cama” a Bruno Lage.

Incrível, não é? Alguma vez eu pensei que em 2020 as pessoas seriam criticadas por fazerem a cama? Nunca! Andei eu a “levar nas orelhas” tantos anos por não fazer a cama e, neste ano que nunca mais acaba, é o preciso oposto que se revela um problema… Enfim, “só” faltam 168 dias para 2021…

Mas terá sido? Terão futebolistas dos encarnados “feito a cama” ao treinador setubalense? Não me parece, por um simples motivo: neste momento, não existem no SL Benfica quaisquer futebolistas. Coloquemos, então, a questão de outra forma, por exemplo, a negrito: terão membros do plantel das águias “feito a cama” ao seu próprio líder?

Estando de fora, posso apenas especular e extrair conclusões das minhas especulações. A minha resposta revestir-se-á, assim, inevitável e invariavelmente, de uma muito relativa e relativizada correção.

Anúncio Publicitário

No entanto, como já percebi que no lamaçal desportivo e comunicacional que no futebol português não há espaço para “correções”, vou arriscar e dizer que me pareceu notória a falta de empenho, compromisso e entrega – para não falar da gritante e repentina falta de qualidade.

É certo que são várias as possíveis explicações para que tudo tenha mudado em fevereiro deste maníaco ano, sobretudo após a partida frente ao FC Porto. Mas é também certo que uma dessas possíveis explicações é que a inusitada falta de compromisso tenha sido consciente e concertada, com o intuito único de originar uma mudança no comando técnico.

Visto de fora, afigurou-se-me sempre ser isto o sucedido. Não obstante, podemos formular outras teorias. Por exemplo, é possível que Bruno Lage não tenha sabido lidar com a importante vertente psicológica do plantel, nas suas individualidades e na sua coletividade. Nesse cenário, não é de estranhar que o técnico tenha “perdido” o plantel após a derrota no Estádio do Dragão.

A derrota no Dragão marcou o ponto de viragem no campeonato e na postura e atitude do plantel benfiquista
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Claramente algo mudou após essa partida. O sequente empate em Vila Nova de Famalicão (ainda que tenha dado acesso à final da prova-rainha) e a sequente derrota em casa frente ao SC Braga não ajudaram, mas à entrada para essas partidas já era relativamente claro que o chip de alguns jogadores tinha sofrido um curto-circuito.

Consciente ou inconscientemente, de forma isolada ou concertada, a verdade é que de então para cá a postura de vários jogadores foi imprópria de um profissional digno dessa designação, com especial incidência naqueles que deveriam ser um exemplo, em particular Pizzi, Rafa, André Almeida ou mesmo Rúben Dias, que se esperava poder ter sido uma voz de comando.

A camisola que envergam e o símbolo que carregam obrigam a que haja capacidade para dar a volta às situações mais difíceis e dolorosas. Posso até estar a ser injusto – pelo que, a confirmar-se, me penitencio -, mas não vi, em momento algum, sinais claros de haver vontade para dar a volta à série negra que o clube viveu durante meses (e que ainda não conheceu um fim cabal…).

Poderá ter sido incompetência e/ou incapacidade de Bruno Lage? Poderá. Apenas? Não creio. Algo mais esteve na base da referida falta de vontade demonstrada por vários jogadores e que se refletiu no coletivo. E acredito, como acreditei em todos os momentos durante esta negra fase dos encarnados, que na base da mudança (para pior) de atitude do plantel esteve uma vontade enorme de, precisamente, mudança.

E, quiçá, essa vontade encontrava justificação. Quiçá, Bruno Lage havia, de facto, perdido a lealdade do plantel que liderava. Todavia, há algo que, a confirmar-se este cenário (se é que alguma vez vamos saber ao certo o que se passou no seio da equipa durante estes meses), é injustificável e inadmissível: os jogadores deveriam ter a consciência de que acima de Bruno Lage, acima deles mesmos, está o SL Benfica e é seu dever, se não de outra índole, no mínimo profissional, respeitar a instituição que representam.

Por último, refiro algo que creio ser importante. Apesar de o holofote da culpa incidir em três ou quatro elementos em particular (como foi o caso no presente artigo), todo o grupo tem culpas no cartório, incluindo elementos que encontraram, mesmo nesta fase negra, uma sistemática e acérrima defesa dos adeptos.

Para cimentar o exposto acima – e para terminar -, segue uma citação de David Simão, retirada da entrevista dada ao Bola na Rede pelo médio formado no SL Benfica, em referência abstrata a vários jogadores e em referência concreta, calculo, a Samaris (ainda que David Simão se tenha recusado a apontar nomes):

O Bruno Lage, quando estava a perder, metia três avançados e eu dizia “Não faz sentido”, sou livre; não posso é dizer que o Bruno Lage não percebe nada e tem de ser despedido. Nós não estamos lá, não sabemos como foi a semana de trabalho. Toda a gente fala de um jogador em específico no Benfica: por que é que não joga, desapareceu e não sei quê; nós não sabemos se é bom elemento de grupo, se destrói um balneário… há jogadores, os denominados puxa-saco, que sabem exatamente como viver dentro do futebol. Isto num grupo (…) nós percebemos, mas para fora, quem vê umas imagens de meia hora, pensa assim “Aquele, que fica chateado quando a equipa perde, não joga” e aquilo é uma máscara, porque quando não há câmaras, aquele jogador não é nada disso: entra a rir quando a equipa perde e de cara fechada quando a equipa ganha.

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

Comentários