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Isolado em Israel por força da pandemia, David Simão não olhou ao relógio na hora de conversar com o Bola na Rede. Durante quase duas horas, fizemos aquilo que o “fascina”: falar de futebol. Da infância pintada a vermelho a branco, à redescoberta do prazer de jogar em axadrezado, o médio do Hapoel Beer Sheva deu-nos um recital de sobriedade e honestidade, ao nível do que costuma fazer à flor da relva. Politicamente incorreto, pôs o dedo numa das várias feridas abertas do futebol português, explicou o motivo da saída para a Bulgária e o que falhou na Grécia. Do Benfica, clube do seu coração e onde esteve por mais de dez anos, disse não ter a qualidade doutros tempos, nomeadamente da época em que foi orientado por Jorge Jesus. Quanto ao futuro, está em aberto, com a certeza porém de que há uma Taça para conquistar e uma promessa por cumprir.

– Dedo na ferida –

«Quem faz mal ao futebol não são as pessoas do futebol, é quem não tem nada a ver»

Bola na Rede [BnR]: Olá, David. Como é que estás?

David SImão [DS]: Tudo a rolar.

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BnR: Como tem sido vivida a pandemia por ai?

DS: Acho que agora está a piorar, esta porcaria.

BnR: Podem sair ou nem por isso?

DS: Os jogadores não podem sair (…) é um bocado estúpido, na verdade [pausa para desviar o aspirador do caminho] não faz muito sentido porque os treinadores podem sair e depois vão dar-nos treinos…

BnR: Já foste à zaragatoa?

DS: Não, não, não! Aqui é uma balda! É à vontade. Recomeçámos o campeonato e ainda ninguém fez o teste.

BnR: Por falar em campeonato, aquilo ontem…

DS: Opá, a nossa equipa não é grande pistola. Para encontrar um “onze” vimo-nos à rasca, então o treinador anda constantemente a rodar. Como temos a final da Taça… jogamos sábado, jogamos terça-feira, voltamos a jogar sábado e ele não quer saber do campeonato; para nós acabar em quarto, quinto ou sexto é igual, então estão a apostar tudo na Taça, que dá acesso à Liga Europa. Ainda ontem estava a falar com o adjunto – que é quem está a preparar a equipa para o próximo ano – e ele dizia-me “Se tu, o Josué ou o Miguel [Vítor] se lesionarem, para nós é muito pior do que não jogarem estes jogos, porque precisamos de vocês para a final”. No último jogo saí ao intervalo, neste o Miguel nem foi convocado, o Josué também só entrou um bocado… andamos a rodar porque somos importantes e querem-nos disponíveis para a final da Taça.

Fonte: Facebook Hapoel Beer Sheva

BnR: Confesso que receei ficar sem entrevistado. A família já se habituou à ressaca das derrotas?

DS: Já sabem! Falo com os meus pais, que estão em França, todos os dias por videochamada, mas quando perco já sabem que não vale a pena ligarem nesse dia, porque não estou disponível para falar. O meu filho, que até gosta de futebol, de vez em quando lá manda um ou outro toquezinho, mas leva logo uma “cotovelada” da minha mulher para não tocar no assunto, porque… opá, somos competitivos, gostamos de ganhar e nunca cai bem uma derrota, muito menos quando não é esperada; quer dizer, estou numa equipa que normalmente joga para ganhar – apesar de nos últimos dois anos ter baixado o nível. Por muitos anos que jogue, nunca me vou habituar a perder.

BnR: Se há denominador comum nas escassas entrevistas que já deste é a tua auto-exigência. Se te pedir um balanço, pensas que já saíste mais vezes beneficiado ou prejudicado por essa condição?

DS: Tento fazer esse balanço dia após dia, jogo após jogo, ano após ano, mas não tenho bem essa noção. Pode já ter beneficiado em certas alturas e prejudicado noutras. Por vezes acho que posso dar mais e não estou a conseguir por uma razão ou outra e isso leva-me a entrar numa ansiedade que me é prejudicial, mas em outras tantas vezes essa exigência que tenho comigo no jogo e no treino faz com que melhore diariamente. É impossível dosear o que é que me deu, mas alguém exigente acaba por ganhar sempre mais do que perder, porque obriga-te a estar constantemente nos limites e a querer mais e melhor.

BnR: As expressões faciais dentro de campo ainda induzem em erro quem está de fora?

DS: Sim, é algo muito difícil de controlar, porque vivo muito o jogo. Sou muito transparente: tanto uma boa como uma má ação refletem-se na minha expressão corporal e facial. Automaticamente consegues perceber que fiquei chateado comigo, com o colega, com o árbitro… vivo aqueles noventa minutos sem filtro. Aquilo que sou no dia a dia, transporto para o futebol, mas com uma adrenalina muito maior.

BnR: Enquanto cá estiveste, foste uma das vozes mais dissonantes do nosso campeonato. Como vês o atual momento do futebol português?

DS: Não sendo o principal motivo que me levou a sair do futebol português, o ambiente que se vive aí não ajudou. Mas Portugal não é caso único: estive na Grécia e já houve corrupção; ainda agora o PAOK perdeu sete pontos. Quem faz mal ao futebol não são as pessoas do futebol, é quem não tem nada a ver com o futebol. Quem estraga este desporto são pessoas que nem tinham de aparecer e têm mais notoriedade que os verdadeiros protagonistas. O futebol vai ser sempre um negócio e não sou contra ele, mas quando isto é maior que o jogo, aí já tenho de ser contra. A legislação é contra o jogador! Muitas vezes diz-se que protege o jogador, mas apenas nas coisas mais simples; é inconcebível a questão do PER no futebol português, é algo ridículo! “Plano Especial de Revitalização”; compreendo isto uma vez, de um clube que passa uma má fase na sua vida desportiva. Uma má gestão aqui, uma má gestão ali, que levou a que o clube precise de um PER. Mas não posso aceitar que, cada vez que não querem pagar, ameacem os jogadores e isto é constante! Há vários clubes – de Primeira e de Segunda Liga – que dizem “Queremos rescindir” e nós “Ok, mas tenho seis meses para receber”; a resposta deles? “Ó amigo, rescindes assim se quiseres, senão vai para o PER e pagamos-te 50€ por mês em dez anos”. O clube no ano a seguir está na Primeira Liga e já tem três PER’s e vai meter o quarto quando quiser, e o quinto, e andamos nisto. Onde é que o jogador está protegido? Em Israel, existe um orçamento anual, seja ele qual for, e tens de dar garantias bancárias para participar naquele ano.

BnR: Senão não jogas.

DS: Senão não jogas! Não é “Eu prometo x” e chego ao fim e digo “Este se não jogar vai querer sair, e até me deixa um mês ou dois porque está mortinho para se ir embora, e se não quiser eu meto no PER” e para o ano mando vir mais dez; é assim que vai funcionando. Alguns clubes vão passando entre os pingos da chuva, embora, felizmente, não seja a maioria. Para mim a punição era “Tens? Jogas. Não tens? Não participas, baixas de divisão”. Há muitas equipas na Segunda e no CNS com orçamentos realmente inferiores mas cumpridoras. Eu quando jogava no Paços de Ferreira ganhava dois mil euros e joguei o ano inteiro a titular; eu não sou contra o ordenado baixo. O que eles prometiam era o que eles te pagavam e tu só tinhas de fazer o teu trabalho.

BnR: “Nem sempre digo aquilo que as pessoas gostam de ouvir, mas digo as minhas verdades”. Em algum momento te sentiste condicionado enquanto profissional por expressar a tua opinião?

DS: [Pausa para pensar] É assim, eu também não sou um exemplo, porque como já falámos sou um jogador que se excede um pouco dentro de campo e tenho plena convicção de que por vezes passei alguns limites. Lá está, outra situação: sou castigado com quatro jogos no Boavista por ofender uma pessoa da Liga, por dizer “É tudo uma máfia” ou “És corrupto”. Senti-me prejudicado e no calor do jogo, a caminho do balneário no intervalo (…) mas quer dizer, és expulso por ofender um árbitro e levas um jogo ou dois; ofendes um senhor que tem uma gravata e nem sabe o que é uma bola e levas quatro jogos, porque esse senhor tem muito mais poder do que os intervenientes. Contam-se pelos dedos de uma mão um jogador que apanhou quatro jogos por palavras; chamas filho disto ou filho daquilo a um árbitro e levas um ou dois jogos e àqueles senhores que estão na berma do campo, muitas vezes no telefone e que para um lado diz e para o outro omite, levas quatro jogos. Atenção que com isto não desculpo as minhas palavras: fui bem castigado. Muito por aqui se vê que as prioridades estão um bocadinho trocadas.

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