SL Benfica | Há 60 anos, a Europa foi encarnada!

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Sim, havia, e ficou logo comprovado ao intervalo do primeiro jogo, já com 5-0 no marcador. Naquele princípio de novembro, a pressa na afirmação benfiquista resultou em gloriosa avalanche de bom futebol – Cávem no primeiro minuto, Águas aos 6’, José Augusto aos 12’, Santana aos 16’ e novamente Águas aos 28’.

Aterradora entrada e que deu origem ao adágio de ‘Meia-hora à Benfica’, que resultou no 6-2 final que impôs o nome do clube nas bocas da Europa. Agora sim, os holofotes viravam-se para o conjunto português que, no jogo de volta, permite o 2-1 de consolação para o Ujpest, já em clima de descompressão.

Euforia. O País enchia-se de esperança em algo mais: sobretudo quando se soube do adversário na próxima eliminatória. O Aarhus, campeão dinamarquês, não ostentava grandes pergaminhos e vinha de eliminar Légia de Varsóvia e Fredrikstad, o campeão noruguês, currículo que não atemorizava.

Quando visitou o Estádio da Luz, a 8 de março, cedo se percebeu que seria contenda de sentido único: 3-1, com dois de Águas e um de José Augusto. Augusto prometia assim o que acabou por cumprir na segunda mão, quando dinamitou a defesa dinamarquesa e apontou dois golos, exibição categórica que lhe valeu os louvores dos adeptos presentes no estádio (que o transportaram em ombros para as cabines!) e de Gabriel Hanot, reputado jornalista do L’Equipe  e responsável pela ideia de criação de uma Taça dos Clubes Campeões Europeus, que o apelidou de “melhor extremo-direito da Europa”.

Chegava-se às meias-finais. Nunca uma equipa portuguesa chegara tão longe e estivera tão perto de tocar no troféu. O sabor mais aproximado tinha sido a conquista encarnada da Taça Latina, onze anos antes. O adversário, o Rapid de Viena, vinha de eliminar o Besiktas, o Wismut Karl Marx – campeão da República Democrática Alemã – e o Malmö. Se chegados ali por mérito próprio, o confronto com o SL Benfica proporcionou-lhes perspetiva alargada quanto ao seu próprio talento, encontro brusco com a realidade.

A 26 de abril, são presenteados com um 3-0 esclarecedor na visita a Lisboa. Atónitos ficaram, assim pareceu pelas promessas de vingança em sua casa. Estavam convictos de que a vantagem benfiquista seria facilmente anulada no Prater. A imprensa austríaca, louca por explicações lógicas que se conciliassem com o seu próprio narcisismo patriótico, justificava assim a força lusitana: “Não estão habituados a leite, mas ao carrascão e do bom, daquele de passar as costas da mão nas beiças”.

A equipa que tornou o SL Benfica campeão europeu
A equipa que tornou o SL Benfica campeão europeu
Fonte: SL Benfica

É, portanto, fácil de imaginar o reboliço gerado pelo golo madrugador de José Águas, que sentenciava praticamente a eliminatória. O Rapid precisaria agora de quatro golos, inatingíveis dada a exclusiva preocupação austríaca em basear o seu jogo em atitudes irrefletidas, com os nervos à flor da pele.

Perto do fim, penálti por assinalar a seu favor – o árbitro inglês, Reg Leaf, foi de imediato engolido pela equipa austríaca, situação que viabilizou a fuga portuguesa para o balneário antes da invasão de campo – e foi lá que ficaram fechados horas, até o exército conseguir fazer dispersar a multidão em fúria e levar todos os elementos em segurança para o hotel.

Conta-se que, apesar do tratamento a que foram sujeitos no estádio, os benfiquistas decidiram comparecer ao banquete de confraternização: apercebendo-se, só depois, que nem a esse momento se dignaram os austríacos a comparecer, em clara demonstração de falta de fair-play. Atitudes ficam para quem as toma e não era hora de refletir sobre tamanha enxurrada de ofensas e parco sentido de hospitalidade: o SL Benfica estava na final dos Campeões!

Pedro Cantoneiro
Pedro Cantoneirohttp://www.bolanarede.pt
Adepto da discussão futebolística pós-refeição e da cultura de esplanada, de opinião que o futebol é a arte suprema.

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