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Nota introdutória: Aviso, desde já, que este texto versa sobre Renato Sanches e a sua transferência para a Alemanha. Insisto no tema, pese as mais recentes publicações, pois soa-me bem, quando se trata de bola e de Benfica, sublinhar que, por regra ditada popularmente, não existem duas sem três – o que me parece cada vez mais lógico e verdadeiro. Não procuro justificar a decisão do Bayern de Munique; não caio no ridículo (tão generalizado) de me passar por Ancellotti. No fundo, ofereço apenas mais uma caixinha de comentários para se manifestarem – com a vantagem de o poderem fazer no bom e velho português (18th door é engraçado, mas soa mal).

Que defeito crónico se adequaria melhor para descrever os portugueses em geral? Correndo o risco de cair em generalizações (sempre enganadoras e injustas) eu diria, quase imediatamente, que é a inveja. Num país em que o valor de alguém é medido, essencialmente, pela sua profissão e ordenado, acaba por se tornar natural a persistência de uma cultura de competição pouco saudável, normalmente assente, antes de tudo, no demérito ou infelicidade alheia: o sucesso do vizinho é sempre encarado dolorosamente; o fracasso com alívio.

Diria existir um caso exemplar: o de Cristiano Ronaldo. Dizem-me que se fosse futebolista nascido e criado no Benfica mais adeptos portugueses veriam nele um ídolo; se fosse de personalidade branda e relaxada muitos mais o acarinhariam em profunda admiração. Eu, pelo meu lado, não creio nessas razões. Para mim, muitos não gostam de Cristiano Ronaldo – pese a partilha da nacionalidade – apenas e só pela sua qualidade. Por ele ser bom naquilo que faz, por ser milionário e por não ter pudor em mostrar uns abdominais bem definidos. As pessoas que não gostam de Cristiano Ronaldo sentem-se ameaçadas pelo seu sucesso inatingível; e invejam a sua forma física. Por isso, o atacam e denigrem: antipatizam com o jogador e com o homem – neste país, há quem viva pior quando alguém é (mais) bem sucedido!

No emotivo mundo do futebol, estes odiozinhos endémicos e primários renovam-se com irritante e periódica regularidade, motivados pelas mais variadas razões, bastando, para tal, que alguém ouse destacar-se dos demais. O alvo, desta vez, chama-se Renato Sanches, jogador de 18 anos, titular do bicampeão Benfica, dínamo do líder do campeonato, revelação da temporada e reforço do Bayern de Munique por 35 milhões de euros – naquela que é, para já, “apenas” a terceira transferência mais alta da história do futebol, envolvendo um jogador desta idade (ou com menos). Não me debruçarei sobre o valor actual e o potencial futuro deste miúdo. Não procurarei justificar a decisão do Bayern de Munique em contratá-lo, nem cairei no ridículo (tão generalizado) de me passar por Ancellotti, futuro treinador dos bávaros, que aprovou um investimento que, muito provavelmente, atingirá no espaço de cinco anos o valor de 60 milhões de euros.

Julguei ingenuamente que o anúncio deste negócio tivesse o condão de devolver a clarividência a alguns adeptos que continuam a destilar ódio sobre Renato Sanches, um jovem que, como todos os da sua idade, vive o seu presente projectando legitimamente, para si, um futuro idílico pautado pelo êxito. Renato Sanches fá-lo com humildade e trabalho e com a dignidade que qualquer pai deseja poder vislumbrar, um dia, no percurso pessoal e profissional do seu próprio filho – pois, caro leitor, este miúdo de quem tanto já se disse é mais que um cromo de caderneta, é feito de carne e osso, e poderia perfeitamente ser seu familiar ou amigo.

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