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Matic, o nosso, está nomeado para o melhor onze da UEFA em 2013. Não se pode dizer que se trata de uma notícia surpreendente, pelo menos para quem acompanha o futebol europeu, mas é agora um dado adquirido. Reconhecimento justo e indiscutível para um jogador que cresceu muito no Benfica e que por cá se tornou um “senhor jogador”.

Os primeiros tempos de Matic ao serviço no Benfica foram passados na sombra da classe de Javi García. A consistência que o espanhol conferia ao nosso jogo era algo que o tornava intocável no onze e um dos mais adorados pelos adeptos. Era um contexto de afirmação naturalmente difícil para um jogador que chegava com poucas rotinas de jogo e a necessitar de melhorar em alguns aspectos do seu jogo. Sobretudo tácticos. Ainda assim, na sua primeira época na Luz, 2011/2012, o jogador sérvio fez trinta jogos pelas águias, somando todas as competições. Com o decorrer da temporada foi-se assumindo como uma peça segura e eficaz no puzzle de Jorge Jesus. Ora a fazer o lugar de Javi García, ora a jogar ao lado do espanhol, as qualidades técnicas do sérvio, aliadas à sua notável compleição física, começaram a evidenciar-se e já era tido como alternativa natural para colmatar a quase certa saída de Garcia no final dessa temporada.

Matic esteve entre a "polpa" de 2013 Fonte: sjpf.pt
Matic esteve entre a “polpa” de 2013
Fonte: sjpf.pt

É então no Benfica versão 2012/13 que surge o verdadeiro Matic. Esta aparição foi motivada por duas razões: pela saída de Javi García, mas sobretudo pela aposta de Jorge Jesus. O próprio jogador não tem dúvidas ao afirmar que o técnico português teve um papel preponderante na sua impressionante ascensão futebolística. De facto, depois de repentinamente ter perdido dois jogadores-chave na sua equipa, JJ reiterou a confiança em Matic e entregou-lhe o comando do meio-campo encarnado. E este não desiludiu. O testemunho que lhe havia sido passado era pesado, mas a facilidade com que o médio se afirmou como titular indiscutível mostra que os benfiquistas não ficaram reféns de um médio centro de alta qualidade, como era Javi García. As comparações ao médio espanhol são inevitáveis, não ocupassem ambos a mesma posição no terreno. Porém, encontrar pontos semelhantes no estilo de jogo de cada um não é nada fácil. No que num é sentido posicional, no outro é qualidade técnica. No que num é eficácia e simplicidade, no outro é capacidade para transportar a bola. As capacidades individuais têm naturalmente efeitos no estilo de jogo da equipa e o Benfica de Matic nada tem a ver com o Benfica de Javi García. Assim sendo, JJ foi obrigado a redefinir a disposição da sua equipa em campo, alterando inclusivamente o sistema táctico. O losango no meio-campo deu lugar a um duplo pivot no centro do terreno, onde Matic, ao lado de Enzo Pérez, se tornou o motor encarnardo.

Este preâmbulo serviu para chegarmos ao momento em que Matic se torna um dos melhores médios da Europa. E isso aconteceu ao serviço do Benfica, o que é sempre um motivo de orgulho. Aconteceu numa altura em que o próprio jogador pega no Benfica e o carrega às costas até a uma época quase-perfeita. Foi o super Matic que se assumiu como o elemento que equilibrava a equipa e a desbloqueava em termos ofensivos. Eram as suas mudanças de velocidade, a sua passada larga, que criavam os desequilíbrios na defesa adversária. Foram tantos os jogos em que saíram do seu pé esquerdo passes a rasgar a defesa e remates indefensáveis. O jogador que se aprontava a iniciar as jogadas ofensivas (e a terminá-las também) era o mesmo que travava o contra-ataque adversário. Um jogador sem posição, que estava em todo o lado, sempre com a sua incansável atitude e incessante qualidade técnica. Se para muitos é raro haver um jogador de qualidade mundial a actuar em Portugal, Matic veio pôr termo a tal ideia, assumindo-se como um médio de eleição com capacidade para encaixar em qualquer plantel do mundo. Nemanja Matic não será jogador do Benfica por muitos anos, mas já o foi tempo suficiente para o recordarmos como um dos melhores médios da nossa rica História.

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Para terminar, dizer que é com enorme satisfação que vejo a UEFA escolher dois jogadores a actuar em Portugal para o seu onze do ano (Jackson Martinez, enorme ponta-de-lança do FCP também está nomeado). É algo que acontece esporadicamente, o que prova que Matic fez uma temporada de altíssimo nível e merece ver o seu nome ao lado de ícones como Yaya Touré ou Schweinsteiger. É também a prova de que, quando quer, a UEFA sabe justar e distinguir os melhores.

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