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Em reflexão ao que Rui Vitoria disse na pré-época, referindo que o Benfica tinha de ser uma equipa dominadora, de posse e de espetáculo, de nada serve ter o domínio do jogo, se depois não soubermos dar um contexto vencedor aos atletas, rumo ao sucesso.
A dependência individual da equipa para criar desequilíbrios adversários continua a ser alarmante. Numa altura em que já se devia notar alguma diferença nos comportamentos dos jogadores, não se compreende como os mesmos erros continuam a ser cometidos.
Foram muitos os pontos negativos em relação ao jogo de hoje, apesar da vitória. Começando mesmo pelo treinador, que não soube mais uma vez, entregar à equipa uma ideia de jogo consistente e criativa.
Não se compreende o porquê da escolha de Franco Cervi e Toto Salvio para as extremidades, quando se tem Facundo Ferreyra no centro do ataque. É fácil perceber o porquê de ter optado por um meio campo mais reforçado, com três unidades. Ljubomir Fesja, Pizzi e Gedson Fernandes. Quando se tem jogadores de frequências altas como os dois argentinos, torna-se apetecível para a equipa que não tem a bola, explorar a sua perda. Sálvio e Cervi não são capazes de entender os momentos em que têm de progredir, recuar ou parar, libertando sempre espaços nas costas, deixando a equipa em desvantagem numérica.
A verticalidade que ambos podem dar à equipa, pouco ou nada fez sentido num jogo como estes. Se Rui Vitoria estava à espera de explorar as fragilidades da equipa turca em transições ofensivas, foi completamente barrado com a proposta de jogo dos turcos. Um Fenerbahçe com um bloco muito baixo, cauteloso, à espera do erro da equipa encarnada e sempre muito preocupado em não deixar os jogadores do Benfica ganharem a superioridade numérica em momentos da perda da bola.

Fonte: SL Benfica
Não se compreende como Andrija Zivkovic ficou de fora depois da excelente forma que demonstrou na época passada a jogar como medio interior. Rui Vitoria podia não ter optado por mete-lo em detrimento de Gedson ou Pizzi, mas fazia muito mais sentido coloca-lo no lado direito como aconteceu já na segunda parte com a saída de Sálvio. Tinha o Benfica sido mais capaz de ter critério em posse e na decisão do passe, teria errado muito menos.
Só para não falar que o sérvio por ter conhecimentos espaciais daquela zona do campo, seria capaz de dar mais profundidade ao jogo, dando a possibilidade de receber a bola e criar desequilíbrios em zona frontal á baliza. Assim libertava Ferreyra de marcação serrada, podendo então receber a bola em condições melhores e de possível remate á baliza. Algo que não aconteceu, fazendo com que Ferreyra jogasse sempre de costas para a baliza, tarefa que lhe complicou e muito o seu jogo.
Apesar de Sálvio e Cervi serem dos jogadores do plantel que mais desequilíbrio cria aos defesas contrários, a verdade é que são mais as vezes em que perdem a bola do que as vezes que ganham o lance num um contra um. Para não referir nos picos de intensidade que praticam ao longo do jogo sem sentido algum.
Rafa Silva é um jogador com a mesma capacidade de desequilíbrio que os dois argentinos, mas capaz de oferecer ainda mais ao jogo. Um jogador com a qualidade de aparecer em zonas interiores, receber a bola e virar rápido de frente para o jogo. Tinha feito muito mais sentido, ter introduzido Rafa, no lugar de Cervi, dando a possibilidade á equipa de ter um jogador rápido e móvel no ataque, sabendo dar largura e profundidade ao mesmo tempo, mas com uma mentalidade e sabedoria do jogo muito maior que o extremo argentino.
Facundo Ferreyra passou completamente ao lado durante toda a partida em que esteve campo. Foram poucas as intervenções que teve em jogo, e quando entreviu, já a bola ia em péssimas condições para fazer seja o que fosse com ela. Para este estilo de jogo de bola longa, jogar sempre de costas para a baliza e ganhar todos os duelos individuais no corpo a corpo, não faz sentido algum ter Ferreyra e não Nicolás Castillo. O avançado chileno, oferece muito mais robustez e agressividade ao ataque, capaz de ganhar qualquer duelo, tanto no ar como pelo chão. Sabendo também da frequência como Sálvio e Cervi procuram a linha de fundo para cruzar, Rui Vitoria tinha que ter tido a lucidez para introduzir de início o avançado chileno.
Muito se tem falado sobre a situação em torno de Jonas. Seria expectável que por esta altura, tivéssemos visto Jonas marcar um ou dois golos num jogo como estes. Mas certo que as coisas por si só não bastassem. Pois a equipa iria ter o mesmo tipo de “ordens” para cumprir e ideias ao “dispor”.
Via-se a olhos nus, a distância com que Ferreyra estava da bola e dos companheiros, sem quaisquer hipóteses de intervir nos lances. Com Pizzi e Gedson sempre a descair para uma das alas para combinar com os laterais e os extremos, Ferreyra era obrigado a subir no terreno para arrastar a linha adversaria e estar sempre pronto na área, á espera do cruzamento. Não houve ninguém capaz de procurar os espaços entre linhas. Mesmo apesar de os turcos defenderem sempre com muita gente no meio campo, o jogo do Benfica canalizava-se sempre para uma das laterais.
Houve preocupação em demasia do treinador em não deixar Pizzi e Gedson subirem muito no terreno, para não criarem desequilíbrios na linha defensiva da equipa. Foi raro ver os dois a envolverem-se em simultâneo no ataque. Era sempre em diagonais para o meio, que Cervi ou Sálvio, permitiam a Pizzi e Gedson subirem á vontade no terreno e introduzirem-se dentro do bloco adversário.
A taxa de sucesso no transporte da bola para o ataque com qualidade e critério na decisão, começa a ser algo estrondosamente inquietante. Pizzi está longe do nível que já demonstrou em anos anteriores, e o seu decréscimo na produtividade da equipa começa a ser demasiado evidente.

Fonte: SL Benfica
Gedson sempre muito empolgante e lutador em cada lance que disputa, mostrou que tem qualidade para evoluir e lutar por um lugar no plantel. Mas quando a dificuldade aumenta, ainda denota algumas fragilidades na ocupação dos espaços e nos timings de receção e orientação ao colega de equipa.
Com Filip Krovinovic ainda a recuperar de uma longa lesão, começa-se a perceber a necessidade do clube em investir no mercado, á procura de mais um jogador para o meio campo, com vasta experiência e qualidade para acrescentar ao plantel encarnado.
Numa eliminatória como esta, é importante não sofrer golos. E nisso o Benfica esteve bem. Controlou sempre a profundidade, antecipando-se sempre que os turcos procuravam espaços interiores para rapidamente soltarem na lateral. As transições defensivas continuam a ser um dos pontos fortes deste Benfica, que ontem, mais uma vez mostrou ser rápido na antecipação ao jogador alvo e na recuperação da bola.
A linha dos três “tratores” (Ruben Dias, Jardel e Fesja), mostraram mais uma vez que são uns autênticos “varredores” de erros sucessivos por parte dos colegas de equipa. Rápidos o suficiente para chegar e antecipar em cada lance, optando sempre pela melhor solução no desarme.
Nota positiva para Ruben Dias que a cada dia que passa mostra que é atualmente o melhor defesa central português.
As diferenças que se notam do lado esquerdo para o lado direito da defesa são aterradoras. É demasiado explicito a superioridade de Alex Grimaldo perante a inferioridade de André Almeida. O Benfica continua a depender de um jogador que é “tudo”, mas ao mesmo tempo acaba por não ser “nada” em específico. E isso retira muito do que são as pretensões para a equipa e a sua qualidade em campo como um todo.
O Fenerbahçe quase não criou perigo algum junto da baliza encarnada. O jovem Alemão Odisseas Vlachodimos teve uma noite aparentemente tranquila. Nos lances que interveio, mostrou o porquê de ser aposta de Rui Vitoria para o futuro.
É uma autêntica incógnita saber se a equipa turca, pode ou não fazer mais do que fez ontem no jogo contra o Benfica. É certo que está em desvantagem e que tem de correr atrás do prejuízo, mas foi muito perentória. Demais até. Mas o próximo jogo agora é na Turquia, e lá as equipas turcas são sempre muito difíceis de bater.
Se o Benfica espera alcançar os play-offs de acesso á liga milionária, tem de pensar primeiro em superar-se a si mesmo, trabalhar mais, para que na próxima terça-feira, dia 14 de agosto, possa levar de vencida a eliminatória e estar um passo mais perto dos milhões da “Champions”.
Foto de Capa: SL Benfica









