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Como em qualquer desporto e em qualquer país, o futebol, enquanto paixão, começa bem cedo. Geralmente, no seio da maior parte das famílias, as crianças são criadas de acordo com as cores clubísticas do pai, da mãe, dos avós, dos padrinhos… É de acordo com quem tiver mais força para influenciar! E logo aos seis ou sete anos, as crianças são arrastadas para a prática do futebol. Quer seja pela aptidão que aparentam ter ou pela simples prática de desporto e preocupação com a saúde.

Nos dias que correm, um dos argumentos a que mais se recorre para esgrimir os dos rivais é o da formação. A equipa “x” não vence regularmente, mas orgulha-se dos jovens que ensina. A equipa “z” vence quase sempre, mas não tem nenhum jogador dos seus quadros. Ou seja, a questão da formação aparece quando mais se precisa dela e desvaloriza-se quando não é positiva. Mas antes de se procurar medir a pertinência da formação na discussão, é urgente rever a formação em si. Não os moldes em que é executada, as competições que a servem ou outra coisa qualquer. É urgente mudar o fator humano na formação; o papel de qualquer adulto deve ser revisto. Afinal, é de ensinar crianças que se trata, os futuros adultos.

Traquinas B da Associação Académica de Coimbra Fonte: Facebook oficial Associação Académica de Coimbra
Traquinas B da Associação Académica de Coimbra
Fonte: Facebook oficial Associação Académica de Coimbra

Desengane-se quem pensa que qualquer treinador serve para liderar uma equipa sub-11, sub-15 ou sub-19. Não basta a autorização ou o diploma de treinador, o lado humano do líder também influencia, e de que maneira, os jovens. É preciso ter a noção de que num jogo entre equipas sub-12, por exemplo, vale mais o treinador que repreende a equipa no treino seguinte do que aquele que o faz em pleno terreno de jogo, em frente ao público e em altos berros. Deve ter-se em consideração a maturidade (ou falta dela) de uma criança desta idade que ainda encara os treinos e os jogos como uma extensão do recreio da escola. Claro que lhes deve ser explicado que já começam a ter certas responsabilidades e compromissos, mas não aos gritos e fora do ambiente de treino que, supostamente, é mais reservado e propício à aprendizagem. E se falo disto é porque conheço estas realidades. Joguei bastante tempo, nos vários escalões, e passados alguns anos, ao acompanhar o meu irmão, esta realidade em nada se alterou. Pena que algumas das crianças contra quem joguei não tiveram a sorte de encontrarem treinadores como os meus.

Em muitos casos, o facto de se construir um homem antes de um jogador é esquecido. São atirados para o banco aqueles miúdos mais gordinhos, aqueles que não têm tanto jeito ou aquele guarda-redes que se desvia dos remates mais fortes. É inadmissível que nestas idades sejam sempre os mesmos jogadores a entrar em campo. Nesta fase tão prematura das suas vidas, a ideia é de incutir nestas crianças o espírito de grupo, o sacrifício e esforço por um objetivo comum e a busca da prática de um estilo de vida saudável.

É preciso também ter em conta que, provavelmente, acima de 90% dos treinadores das camadas jovens em Portugal, fá-lo depois do trabalho e sem as condições ideais para si e para os seus aprendizes. E uma grande parte não recebe qualquer remuneração por isso, muitas vezes por dificuldades económicas dos clubes onde prestam auxílio. Mas nem só nos treinadores reside a “culpa”. Ainda que sejam eles quem lida com as crianças no terreno de treino e jogo, são muitas vezes os pais que contribuem para a fraca formação dos seus próprios filhos. É expectável que queiram que os seus rebentos brilhem pelos sintéticos do distrito e lhes derretam o coração com beijinhos atirados para a bancada, golo após golo. Mas essa primeira forma de pressão, em certa medida saudável, quando excedida é extremamente prejudicial para o ser humano que ainda está a desenvolver a sua personalidade.

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