– Colômbia e Setúbal: do café ao choco frito –

“Assinei pelo Setúbal antes do Mundial”

BnR: Os 11 golos em temporada de estreia foram o cartão-de-visita com que te apresentaste à primeira divisão e a Ilídio Vale. O Mundial sub-20 na Colômbia ainda é o melhor momento da tua carreira?

RL: Sem dúvida! Foi na mesma época em que me estreei pelos seniores do Varzim – quando comecei a ir à Seleção – e há um antes do Mundial e um pós-Mundial.

Fonte: Facebook Rafael Lopes

BnR: O que é que mudou após aquele desempate por penáltis frente à Argentina de Battaglia, Lamela e Iturbe?

RL: Quando começámos, queríamos chegar o mais longe possível, mas não pensávamos em ganhar ou chegar à final. Nada disso! Queríamos era fazer um bom trabalho e, mesmo a Federação, não acreditava que chegássemos tão longe; só queriam que fizéssemos boa figura e não retirássemos o cartão ao árbitro como fez o Zequinha. Depois, foi passo a passo.

Anúncio Publicitário

Nesse desempate por penáltis, pensávamos que já estava perdido: falhámos dois seguidos e estava 3-1 para a Argentina. Quando fui bater o penálti, se falhasse, íamos à vida. E mesmo que eu marcasse, se eles marcassem a seguir, ganhavam. Acabámos por ter sorte e mérito – o Mika esteve muito bem – e seguimos em frente.

Não foi depois desse jogo que mudámos a nossa maneira de pensar; depois desse jogo dissemos “Venha outro! Siga!”.

Na final tivemos um bocadinho de azar…se fores a ver, o Óscar não tinha marcado nenhum golo até à final e marca três; já o Mika não tinha sofrido golos até à final e sofre três também. São coisas que acontecem uma vez na vida, mas penso que merecíamos. Atualmente, tu vês onde estão os jogadores da seleção sub-20… na altura, poucos eram conhecidos, poucos jogavam nas equipas onde estavam e, os que jogavam, faziam-no na Segunda Liga. Só faltou a cereja no topo do bolo.

BnR: Jogaste 96 minutos, divididos por quatro jogos. Como é que o ego de um jogador, que vinha de uma grande época, gere esta utilização intermitente no contexto de uma grande competição?

RL: Fica-se sempre triste e eu até comecei a titular, contra o Uruguai. Estávamos a jogar em 4-4-2 e, neste sistema, seria sempre a primeira opção para jogar ao lado do Nélson [Oliveira]. Depois, o treinador mudou para 4-3-3 e, jogando apenas com um na frente, obviamente que, naquela altura, sabia que não iria jogar estando lá o Nélson. Nos jogos seguintes ficava triste quando não jogava, mas pensava que o mais importante era a equipa e o país que estava a representar.

BnR: Deixaste Bogotá ainda mais valorizado e assinas pelo Vitória FC no regresso a Portugal. Tendo outras possibilidades em carteira, porque é que optaste pelo histórico sadino?

RL: Já passaram muitos anos, já posso dizer: assinei pelo Setúbal antes do Mundial. A oficialização foi só quando regressámos, mas já estava tudo feito. Se fosse, não o faria: não porque tenha algo contra o Vitória, até porque gosto muito do clube e das pessoas, adoro a cidade e tive colegas espetaculares… na altura era miúdo, tinha 18 anos, estava na Segunda Liga e ganhava pouco… surgiu a oportunidade de ficar logo vinculado a um clube da Primeira Liga, um clube histórico e decidi assinar. Hoje, teria esperado até ao final do Mundial.

BnR: Chegas a Setúbal com 20 anos e encontras um plantel que misturava juventude e veterania de forma exímia. O que é jogadores como Ricardo, Hugo Leal ou Meyong te ensinaram nesse ano?

RL: Ensinaram-me tudo: fosse como profissional ou como pessoa. Quando cheguei, estava com um bocadinho de receio, chegar a um balneário daqueles… Foi dos melhores anos que tive de balneário, foi espetacular. Antes de ir para lá, fui espreitar a equipa que tinham e vi Ney, Ricardo Silva, Miguelito, Zé Pedro, Neca, Hugo Leal, Jorge Gonçalves, Bruno Amaro… e eu assim “Jesus, o que vai ser de mim?”. Em Janeiro ainda se juntam o Meyong e o Targino: só gente com muito futebol, muitos anos daquilo e grandes carreiras! Foi mesmo incrível!

Deixa-me contar-te uma história do Hugo Leal: o meu primeiro jogo pelo Vitória foi frente ao FC Porto no Dragão, foi a minha estreia na Primeira Liga. No autocarro para cima, o Hugo virou-se para mim e perguntou-me “Oh miúdo, o que é que achas que vai acontecer amanhã?” e eu respondi-lhe que se tivéssemos um bocadinho de sorte podíamos ganhar e ele “Ok, miúdo. Amanhã falamos”. Acabou o jogo, perdemos 3-0 e ele vem e diz-me assim “Então?” e eu “Fo****! Não dá…” [risos].

Desse ano tenho tantas… Tenho uma hilariante com o Zé Pedro, mas não posso contar.

BnR: Estamos entre amigos.  

RL: Está bem, vou contar, mas espero é que ele não fique chateado comigo! Fomos a um churrasco na casa do Diego e ele tinha dois cães, dois pugs. Estava lá a equipa toda, mulheres, filhos… todos a comer, a beber cerveja… Ao fim de algum tempo, já estávamos animados e o Igor vira-se para o Zé Pedro e disso “Oh Zé, opá, manda os cães à piscina” ao que o Zé respondeu “Não mando nada!”. “És mesmo cobarde! Porque é que não mandas?” e o Zé Pedro pega no cão e atirou-o à piscina: mas atirou-o para aí uns dez metros para o ar. O cão cai à piscina e a filha do Diego começa a correr; descobrimos que o cão tinha problemas respiratórios e mal conseguia respirar quando saiu da piscina… Pensávamos que ia morrer! Depois ficou um clima estranho, mas lá passou e continuámos.

Outra: em Janeiro veio o Targino (…) que personagem! Esta com o José Mota. O Targino estava a falar ao telemóvel no balneário e não se podia. Onde ele se sentava no balneário, tinha uma televisão por cima e metia lá o telemóvel a carregar; ficava lá a baloiçar. Um dia, está a falar ao telefone e o Mota entra de repente; ele largou o telefone, mas não desligou. Na palestra, o Mota assim “Fo****, mas quem é que está a falar?” e o Targino discretamente pegou no telefone e desligou a chamada. O mister viu e pediu-lhe para ir à última chamada e ligar de volta. “Epá não, mister! Desculpe lá!”. “Não, vais ligar!” e o Mota começa para a pessoa do outro lado “Ouve lá, achas que ele pode estar aqui a falar no balneário? Que seja a última vez que ligas a esta hora” e a outra pessoa, como não sabia com quem estava a falar, começou a insultar o José Mota. [risos]

BnR: O mister José Mota é um treinador muito autoritário?

RL: É exigente – tem essa imagem e corresponde ao que ele é enquanto treinador -, mas fora do campo é espetacular: no balneário, quando vamos jantar… Quer sempre que o grupo vá jantar reunido. Ele é capaz de, no intervalo, chamar-te os piores nomes possíveis, e depois, no final do jogo, chega à tua beira e dizer “Grande jogo! Espetáculo!” e tu ficas assim (..) depois percebes que ele é assim e que não diz aquilo para te ofender. É espetacular como pessoa e como treinador.