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Muitos são os problemas que o nosso país enfrenta e as críticas que lhe podem ser apontadas ou dirigidas a quem sequencialmente o gere. Mas em muitos casos também marca pela diferença, pela positiva, como na gloriosa época dos Descobrimentos ou nos dias de hoje em relação a avanços na medicina e todas as áreas da Saúde e Tecnologia. No desporto, área de elevado interesse e que move multidões, também Portugal procura a sua posição na vanguarda tecnológica ao implementar o sistema do vídeo-árbitro (VAR).
Pouco tempo depois de ser campeão europeu de seleções, esta contribuição para as decisões dos árbitros e proteção da tão aclamada verdade desportiva, seria motivo de orgulho e consenso entre os adeptos portugueses. Ora, tal não corresponde à verdade como, nem de propósito, se verificou no fim de semana em que este artigo é publicado. Não estão em causa os clubes nem o árbitro do Clássico da 13ª jornada da Primeira Liga. Em causa estará, como em vários outros jogos desta época, envolvendo nem sempre os três clubes “grandes”, a própria definição das regras, a margem de interpretação do árbitro e a fraca distinção dos momentos em que o VAR intervém.

Fonte: FPF
Quando o clube do seu coração é aparentemente prejudicado, o adepto tende a questionar a validade e pertinência do VAR, mas quando o mesmo é beneficiado, com ou sem intervenção deste, o mesmo adepto tende a desculpar esta ferramenta porque “está agora a começar”.
Em Portugal, o adepto sobrepõe a vitória da sua equipa ao jogo limpo, justo e bem ajuizado para ambos os lados. Não é uma crítica, nem eu próprio me desmarco destes pensamentos, mas este facto ajuda a perceber a dificuldade que o VAR tem tido em criar raízes sólidas e saudáveis no nosso país. O cenário ideal e exigido pelo adepto-tipo português é o aparecimento do VAR adulto, perfeito, sem falhas. Isto é impossível. Desde logo pela dimensão interpretativa que é conferida a todos os lances. O VAR vai sempre depender do ponto de vista humano e, como tal, falhará. Segue um “livro de regras” mas, como em todas as regras, no seu início, há falhas. Não são claras, ao adepto comum, todas as nuances que condicionam a intervenção do VAR e isso afasta a receção pacífica desta tecnologia.
O adepto, impaciente e espicaçado pela rivalidade constante, não é capaz de aguentar as dores de crescimento desta ferramenta que promete ajudar os árbitros. Muitos até põem em causa a essência do futebol e acusam a modernização pela sua perda esquecendo, por isso, a defesa pela verdade desportiva. Episódios como a “mão de Deus” protagonizado por Maradona, no Mundial de ’86, vão acabar. Hoje em dia, recorda-se esse acontecimento como um dos mais belos constituintes do perfume do futebol clássico passando por cima do facto de se celebrar uma irregularidade. Caso um golo destes se sucedesse na Primeira Liga… A tinta que correria nos nossos jornais…

Fonte: Spiegel online
Os árbitros, mais do que nunca, estão numa posição central da atenção num jogo de futebol. Se erra, “é porque quer, o VAR estava ao dispor e ele não o usou”. Para se resguardarem, os juízes da partida podem até, no limite, deixar o lance seguir e, mais tarde, analisar com recurso a repetições televisivas a validade e regularidade do mesmo. Esta permanente confusão em torno das regras e das condições exigidas para que esta ferramenta seja utilizada contribuem massivamente para a desconfiança em relação ao VAR.
Exige-se, assim, uma reestruturação no seu manual, tanto a nível do terreno de jogo como nas cabines de análise. Por exemplo, os intervenientes sentados atrás dos televisores na Cidade do Futebol, deviam ser ex-árbitros, internacionais ou não. Experiência não lhes falta e desta forma evitariam a exposição dos atuais árbitros a este papel ingrato de corrigir um colega com mais experiência, naquele que seria um confronto de interpretações inclinado para o lado daquele com mais anos de “campo”.
Ao adepto, cabe-lhe aceitar esta evolução. Num recente Valencia CF vs FC Barcelona, meia Espanha reclamou a implementação do VAR aquando de um golo claro não validado a Lionel Messi. Esta tecnologia veio, por isso, para ficar e alastrar-se aos demais campeonatos europeus. Quanto às estruturas competentes e regentes deste sistema e do de arbitragem, cabe a transparência e correta evolução. Veja-se a inibição de constrangimentos da Federação Alemã de Futebol (DFB) em afastar um superior e coordenador do vídeo-árbitro na sequência de um favorecimento de um determinado clube. Não se pode é brincar com o adepto. Se ele deixar de ir ao estádio, não haverá tecnologia que valha ao desporto rei. O crescimento é compreensível e aceitável, o prejuízo e benefício que tocam sempre aos mesmos é que não.
Foto de Capa: Twitter Oficial do Conselho de Arbitragem














