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Se lhe falarmos de José Miguel Aguiar, provavelmente, o nome pouco ou nada lhe dirá. Mas se esclarecermos tratar-se de Miguelito, então, certamente, recordará o jogador franzino e enérgico que, de bola colada ao pé esquerdo, calcorreou, por década e meia, para cima e para baixo, as muitas faixas laterais de que são feitos os relvados portugueses. “Nascido” e criado no Rio Ave, foi no Nacional que deu nas vistas, ao ponto do Benfica treinado por Fernando Santos ter apostado na sua contratação – o passo seguinte, porém, foi sempre escolha da sua cabeça. E levou-o sempre a terras distantes: ganhando até uma Taça do Chipre. Desde que terminou a carreira, Miguelito tem vindo a construir uma carreira como empresário de jogadores. Hoje, com 39 anos, recorda ao Bola na Rede a sua carreira de ponta a ponta.

– Sonhos cumpridos: uma carreira à “boleia” de talento e trabalho –

«Os jogadores têm de ser inteligentes, ao ponto dos seus gostos clubísticos não extravasarem cá para fora (…) e se só o clube rival o quiser, ele não vai jogar para esse clube?»

Bola na Rede: O Miguelito não acabou a sua carreira assim há tanto tempo. Certamente, que os nossos leitores ainda se lembram muito bem de si e dos clubes por onde passou… Vou começar pela sua alcunha: o seu nome é José Miguel Organista Simões Aguiar, mas sempre foi conhecido como Miguelito no mundo do futebol. Como é que surgiu essa alcunha e, sobretudo, como perdurou ao longo de toda a sua carreira?

Miguelito: Chamaram-me sempre Miguelito porque, desde novo, havia sempre mais que um Miguel em todas as equipas jovens do Rio Ave, que foi onde fiz a minha formação. E como havia sempre um Miguel… Se alguém chamasse pelo “Miguel” olhavam uns oito ou uns dez… E como eu, de todos os “miguéis”, era aquele que era sempre mais franzino então adotaram-me a alcunha de Miguelito.

Bola na Rede: E até mesmo nos seniores essa alcunha ficou… O Miguelito acabou a carreira no Tirsense, em 2016, mas manteve-se ligado ao futebol, numa aérea diferente, agora a trabalhar numa empresa de agenciamento de jogadores. Como é que surgiu esta oportunidade?

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Miguelito: Em 2016, terminei no Tirsense, mas até tinha pensado terminar a carreira antes. Mas, entretanto, surgiu o convite do Tirsense e, no principio, como me pareceu ser um projeto interessante, com outro pessoal aqui da zona, que também tinha feito carreira no futebol profissional, aceitei o desafio. As coisas, porém, acabaram por não correr como todos desejávamos e, a meio dessa época, decidi dar por terminada a minha carreira. E vim trabalhar para a empresa onde estou atualmente – que é a Proeleven – logo no dia seguinte. Como é que surgiu esta oportunidade? Eu fui o terceiro jogador a ser agenciado pela Proeleven e, portanto, já estou ligado a esta empresa há 20 anos. O Carlos [Gonçalves], que é o patrão da Proeleven, abordou o meu irmão [Sérgio Organista] no início da sua carreira, porque queria agenciá-lo, e como o meu irmão gostou da forma como o projeto foi apresentado acabou por aceitar. Eu, um bocado por “arrasto”, acabei também por passar a ter o Carlos Gonçalves como empresário. E depois mantivemos sempre esta relação. Quando comecei a pensar em terminar a carreira, esta possibilidade já estava previamente combinada, pois o Carlos foi-me sempre dizendo que, um dia, gostaria que eu trabalhasse com ele.

 

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Bola na Rede: E nunca pensou numa carreira como treinador? Há muitos ex-colegas, da sua geração, que acabaram por seguir essas pisadas…

Miguelito: Não, não. Sempre pensei no que faria quando acabasse a carreira, mas uma das coisas que sempre soube que não quereria, era ser, precisamente, treinador principal de uma equipa de futebol. Não digo “desta água, não beberei”, mas… não. Talvez até pudesse ser um treinador adjunto, com alguma autonomia – e não como vi, muitas vezes, alguns treinadores adjuntos que não tinham o papel que desejavam. Mas como ao longo da minha carreira o Carlos [Gonçalves] foi-me sempre “alimentando” esta oportunidade… Aliás, de certa forma, como jogador, até já fazia um bocadinho este trabalho. O Carlos ficava com a parte de perceber se o jogador tinha potencial e eu, no balneário, ficava com a parte de perceber como era o jogador ao nível do treino, se era profissional, se trabalhava bem… Já fazíamos esse trabalho em conjunto. De certa forma, a função que agora desempenho já a fazia, inconscientemente, ao longo dos anos. E agora aqui estou.

Bola na Rede: Os jogadores e treinadores têm, normalmente, sonhos por cumprir. Também é possível “alimentar” sonhos nesta área do agenciamento de jogadores? Ter a ambição de alcançar determinado patamar?

Miguelito: Sim, isso é natural. Em todas as carreiras, há metas para cumprir. Eu também tenho as minhas metas, é claro, mas, em primeiro lugar, respeitamos a filosofia da Proeleven – e, neste momento, penso apenas em trabalhar em conjunto com a empresa. Mas é óbvio que todos os profissionais, em qualquer cargo, têm sempre os seus objetivos para cumprir e conquistar.

Bola na Rede: Recuando aos seus tempos de jogador: o Miguelito fez toda a sua formação no Rio Ave e, em 1999, estreia-se pela equipa principal vila-condense. Esse ano, porém, não correu assim tão bem, uma vez que a equipa acabou despromovida à 2.ª divisão. Mas como foi para um jovem de 19 anos estrear-se na equipa principal naquele que era, à altura, o seu clube de sempre? 

Miguelito: Foi o concretizar de um sonho. Era exatamente para isso que tinha trabalhado nas camadas jovens: para, um dia, poder ser jogador profissional. E, nessa época, acabei por concretizar aquilo que era o meu sonho. Na altura, as coisas não eram fáceis, não era fácil chegar a uma equipa principal vindo da formação, em qualquer clube. Por isso, sabia que tinha de trabalhar sempre bem, focado, e ser o mais profissional possível – mesmo que não o fosse, pois, naquele tempo, ao contrário de agora, nenhum jogador da formação tinha contrato profissional. E tinha também de ter humildade. Sabia que ia ser muito difícil, mas, depois de ter conseguido, o “sabor” foi ainda melhor.

Bola na Rede: Pegando exatamente nessa questão, antigamente não havia contratos profissionais para jovens de 16/17 anos, como agora acontece e, naturalmente, havia um fosso ainda maior em relação às equipas seniores. E até era mais raro os treinadores apostarem nos jovens da formação. A descida do Rio Ave acabou por lhe ser favorável, permitindo-lhe uma adaptação ao futebol sénior num patamar menos exigente? Foi positivo jogar na II Liga para que pudesse fazer uma transição mais tranquila?

Miguelito: Podemos ver as coisas dessa forma. Apesar de que no primeiro ano, na 1.ª divisão, quando ainda tinha idade de júnior, já participei em 17 jogos. Fazer esse número de jogos, para um jovem com 18 anos, no escalão principal do futebol português, é bem demonstrativo do que era o meu foco e aquilo que eu já queria. É claro que com a descida de divisão a exigência competitiva diminuiu. E o Rio Ave, que ainda não tinha as condições que hoje tem, perdendo as receitas da 1.ª divisão, ficou sem dinheiro para contratar, e teve mesmo de apostar nos jovens da formação. Portanto, vendo as coisas dessa forma, penso que sim, que a descida foi benéfica para mim.

Bola na Rede: Em 2002/2003, é campeão da 2.ª divisão pelo clube de Vila do Conde… Tem 22 anos, conquista um titulo nacional e sobe à 1.ª divisão. Como se sente o Miguelito nesse momento?

Miguelito: Era um dos meus objetivos quando ingressei na equipa principal do Rio Ave. Participei na despromoção e não queria ir para outro lugar sem antes colocar o clube na divisão que merecia. Portanto, foi com muita satisfação que vivi esse momento, para mais, numa época que foi bastante atípica. Lembro-me perfeitamente que não começámos bem o campeonato, e na transição para a segunda volta estávamos a apenas cinco lugares do último classificado, na cauda da tabela. No último jogo da primeira volta, fomos jogar à Figueira da Foz e levámos 6-1 da Naval. Depois, no primeiro jogo da segunda volta íamos visitar o Alverca que, na altura, estava no 1.º lugar. E foi aí que se deu a reviravolta. Acabámos por empatar 0-0 e, depois, fizemos 14 ou 15 jogos sem conhecer o sabor da derrota. Acabámos por terminar a época em grande, não apenas subindo de divisão, mas também sendo campeões da II Liga.

Bola na Rede: Só em 2005/2006 é que tem a sua primeira experiência fora de Vila do Conde. E logo na Madeira, uma realidade muito diferente. Assina pelo Nacional, treinado por Manuel Machado, com grandes jogadores e que termina o campeonato no 5.º lugar. E o Miguelito faz uma grande época no Nacional – talvez mesmo a melhor da sua carreira. Como é que se adaptou a esta nova realidade e, sobretudo, como é que num contexto tão diferente daquele que conhecia consegue ter um rendimento tão elevado?

Miguelito: De facto, o Nacional – que não teria subido à 1.ª divisão há muito tempo – já nos anos anteriores tinha tido grandes equipas, e lutado sempre pela qualificação para as competições europeias. As coisas correram como correram devido, principalmente, ao que já referi: o foco, o trabalho, a humildade… acho que as coisas se baseiam muito nisso. Eu sabia muito bem onde queria chegar enquanto jogador profissional, e acho que foram esses ingredientes que contribuíram para as boas épocas que fiz. A época no Nacional foi, de facto, uma das minhas melhores, mas tive outras. Mas a essa do Nacional – talvez pela conjugação entre o rendimento individual e o coletivo – é natural que as pessoas deem mais ênfase.

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