-Chegar, ver e vencer: Da conquista do campeonato à campanha épica na Taça UEFA –

“Aquela final foi a realização de tudo aquilo que se tinha proposto durante toda a temporada”

BnR: No fim dessa época, tu e Nuno Valente são os eleitos de Mourinho para seguir viagem de Leiria para o Porto. Como foi ter sido escolhido a dedo por Mourinho e que características é que achas que ele via em ti que podiam encaixar tão bem naquele FC Porto?

D: Eu acho que era mesmo a liberdade. Na União de Leiria eu jogava pelo lado esquerdo e ele deu-me liberdade de jogar por aquele setor sem ter aquela obrigação de acompanhar o lateral até à última linha. Ele só me dizia: “Olha, tens de controlar o defesa lateral porque ele não pode sobrecarregar o Nuno Valente”. Eu sempre gostei de jogar assim, de chegar na área, mais do que jogar fixo na área e ele potencializou isso. Na equipa do Leiria nós tínhamos o Silas, que jogava como 10 e era outro craque, fosse com a perna direita ou esquerda, com uma visão de jogo fantástica e fazia com que eu, o Jacques e o Maciel recebêssemos as bolas em condições de finalização. O Mourinho conseguiu-me mostrar que essa forma de jogar para mim era a mais indicada.

BnR: Chegas com 27 anos ao Porto. Achas que essa foi a idade certa ou sentes que podias ter dado um salto para um grande mais novo?

D: Tratando-se de carreira em si, eu acredito que cheguei no momento certo. Três anos no União de Leiria foram uma base essencial para mim para chegar e me assumir no FC Porto de vez. Mas também acredito que se tivesse chegado uns dois anos mais cedo ao FC Porto, teria potencializado bastante as minhas características e também teria ajudado um pouco mais o FC Porto.

Anúncio Publicitário

BnR: Quando chegas àquele balneário, o FC Porto não vencia o campeonato há três épocas. Apesar disso, sentias que se tratava de um balneário de campeões?

D: Sim, com certeza. Até porque a maioria eram jogadores consagrados com muitos títulos no currículo. Basicamente metade do plantel chegou naquela época e a outra metade permaneceu. Essa metade que permaneceu era de jogadores que tinham sido pentacampeões. Eram jogadores que estavam acostumados com títulos, com a pressão e tinham uma coisa que sempre houve no FC Porto: a mística.

BnR: Jogadores como Vítor Baía, Jorge Costa, Paulo Santos, foram determinantes para transmitir essa famosa mística e ensinar-te o que é ser um jogador à Porto?

D: Sem dúvida. Eu sempre fui um atleta que tive como característica essa determinação e garra. E isso no FC Porto se evidencia. Logo que nós chegamos, a forma como eles receberam todos os atletas foi incrível. Desde o princípio foi criada uma família ali. A forma como o treinador conduziu essas situações também é importante, porque o Mourinho deu-lhes a liberdade de moldar o plantel dentro do balneário também.

BnR: Já sei que te conseguiste escapar da praxe dos jogadores mais antigos, mas recordas-te de algum episódio engraçado no balneário?

D: Eu e o Nuno Valente tivemos a felicidade de escapar ao batismo e acabaram outros atletas sofrendo as consequências (risos). Temos muitas histórias de balneário engraçadas. Por exemplo, nesse primeiro ano, o Cândido Costa era um jogador jovem e ele era um dos jogadores mais caricatos que existiam. Ele brincava muito com o treinador, brincava com a gente e ele falava: “Oh eu hoje vou jogar”. Só que passando um pouco, ele olhava quando se começavam a distribuir os coletes, via que não jogava e falava: “Ui, caiu” (risos). Tudo sem maldade, na brincadeira mesmo.

BnR: Estreias-te logo no primeiro jogo contra o Belenenses, mas empatam no Dragão. Acabas por fazer o lugar do Deco e chegas a dizer “pude perceber a diferença entre Deco e Derlei”. Qual era essa diferença? Deco estava acima de todos os outros a nível de qualidade?

D: Isso aí é inegável, não existe dúvidas. Eu acho que o único jogador daquela equipa que poderia fazer de Deco ali era o Alenitchev, que a nível técnico era um jogador esplêndido, inteligentíssimo e acostumado a jogar naquela posição. Mas o Deco, naquela altura, tecnicamente, já era o jogador mais preparado para comandar aquela equipa.

BnR: Nessa época Mourinho cumpre a promessa do ano anterior e o FC Porto é campeão de forma convincente e muito superior aos seus adversários. Dessa campanha no campeonato, qual é o primeiro jogo que te vem à cabeça?

D: Tem o último jogo contra o Santa Clara. Na verdade, o que aconteceu na primeira época foi uma sucessão evolutiva, a equipa foi evoluindo e ganhando força conforme os jogos, por causa dos treinamentos. Dentro de campo nos jogos, a equipa conseguia colocar em prática aquilo que era predeterminado durante a semana. Chegou um período, passado uns quatro meses de trabalho, que nós já sabíamos o que ia ser o treinamento das duas próximas semanas conhecendo os adversários que tínhamos pela frente. Psicologicamente, esse tipo de coisa faz com que você sinta que faz parte da cabeça do treinador e passa a entender como pensa o treinador.

BnR: Paralelamente à excelente campanha no campeonato, o FC Porto soma e segue na Taça UEFA. Foi difícil fazer essa gestão do esforço físico entre o campeonato, as taças internas e a Taça UEFA ou achas que Mourinho tinha o plantel certo para fazer essa gestão?

D: Não acho que foi difícil, até porque ele tinha um conhecimento muito grande de todos os jogadores, das suas qualidades técnicas e das suas capacidades para jogar determinado jogo. Havia jogos em que nós, por exemplo, tínhamos o Mário Silva que era defesa esquerdo e jogava o Ricardo Costa quando o Nuno Valente estava lesionado, mesmo com o Mário Silva bem fisicamente. O Mourinho tinha o controlo do plantel e ele explicava a todos nós o porquê das mudanças.

BnR: Na altura, nas primeiras quatro rondas vocês fazem vinte golos, dos quais cinco foram teus. Lá na frente, Mourinho alternava facilmente do 4-3-3 para o 4-4-2, fazendo várias combinações contigo, Jankauskas, Postiga, Capucho e Clayton. Sentias que vocês no ataque funcionavam como uma máquina bem oleada e com um entendimento perfeito?

D: Sim, nós conhecíamos muito bem as características individuais de cada um. Nós treinávamos muitas vezes com jogadores diferentes. Por exemplo, treinava eu, Capucho e Postiga, muitas vezes era eu, o Clayton e o Jankauskas ou eu, o Clayton e o Cândido Costa. Nós tínhamos muitas combinações durante os treinamentos e os jogadores vão se conhecendo. A equipa tinha um padrão de jogo pré-determinado e existia liberdade para os jogadores criarem dentro de campo no último terço do campo e com a qualidade técnica que partia do Maniche, do Deco e dali para a frente era muito mais fácil jogar.

BnR: Nos quartos de final sofreram a vossa primeira derrota em casa frente ao Panathinaikos, uma equipa cheia de qualidade, com jogadores que um ano mais tarde viriam a vencer o Euro 2004: Nikipolidis que teve um a noite inspirada, Seitaridis e Karagounis, que mais tarde viriam a ser teus colegas de equipa, entre outros. Como é que se explica a reviravolta na Grécia, num ambiente tão hostil, com aqueles adeptos fervorosos e num estádio onde eles nunca tinham perdido?

D: Na primeira partida nós tivemos algumas falhas técnicas, principalmente na finalização. Eles defenderam muito bem e fizeram um golo num contra-ataque. O que aconteceu no primeiro jogo deu-nos a confiança para vencermos lá. Quando fomos jogar lá, passaram tudo para nós, “eles nunca perderam aqui” e o estádio parecia mais uma prisão porque na parte de cima do estádio tinha arame farpado. Esse tipo de coisas também motiva. Na altura, acho que até foi o Mourinho que disse: “Os tabus são para ser quebrados. Eles nunca perderam? Então vai ser hoje”. Era o tipo de coisa que essa equipa tinha. Mas esse foi um dos grandes jogos. Eles jogavam muito e eles ao ganharem o primeiro jogo pensaram: “Vamos para cima deles e vamos ‘matá-los’.” Nós a meio da primeira parte fizemos o 1-0 e isso também os colocou no lugar deles.

BnR: E como é que tiveste forças para fazer aquela arrancada aos 103 minutos?

D: Eu me lembro que no prolongamento, o Mourinho mudou o sistema de jogo de 4-3-3 para 4-4-2 e eu passei a jogar mais entre as linhas da defesa. Depois tínhamos o Deco que tinha um grande conhecimento a meu respeito e quando ele recebe a bola, eu parti para dar uma opção para ele no ataque. Na hora que eu saio para correr entre o Seitaridis e o defesa central, o Deco mete a bola justamente nesse espaço e o Seitaridis só vê a bola sair e sai para me acompanhar correndo, só que o pensamento dele está só para observar os meus movimentos e com isso a bola bateu nas costas dele e eu como estava de lado para o lance consegui ver a trajetória da bola, ganhei a bola, entrei na grande área e consegui marcar o segundo golo. Mais tarde quando joguei com ele falei: “Você me consagrou naquele dia porque se a bola não bate nas suas costas, ficava mais difícil”. Depois é como você frisou, eles acabaram por jogar com Portugal no Euro 2004 e basicamente foi a base da equipa do FC Porto contra a base da equipa do Panathinaikos. A final do Euro 2004 foi o que aconteceu no Estádio das Antas. Portugal em cima da Grécia, nós também em cima deles, basicamente foi igual.

BnR: Naquela altura vocês pareciam uma equipa invencível e a vitória frente à Lazio por 4-1 é prova disso. Quando vencem de forma tão categórica a Lazio de Simeone, Claudio Lopez, Fernando Couto, sentiram que tinham tudo para ganhar o troféu?

D: A Lazio tinha grandes jogadores da seleção Argentina, Simeone e Claudio Lopez, tinham ainda Mihajlovic e o próprio Peruzzi. A equipa da Lazio era uma das grandes seleções do Mundo e das equipas que estavam na meia-final, para mim era a favorita. Nós fomos jogar de igual para igual, frente ao Fernando Couto e Mihajlovic na defesa. Eu me lembro que até o Jorge Costa me falou: “Cuidado com o Fernando Couto, que ele não brinca” (risos). Ele tinha essa raça e dureza que cultivou no FC Porto, mas a dupla de defesas também tinha muita técnica. O Postiga até comentava: “Hoje vou apanhar como uma criança” (risos). Mas em nenhum momento, nem o Fernando Couto, nem o Mihajlovic foram desleais. Nenhum jogador da Lazio fez algo fora do normal. Acho que dessa campanha esse foi o jogo quase perfeito que fizemos.

BnR: Na última sexta fez 17 anos desde a final épica de Sevilha, digna de filme. Cinco golos, num jogo sem Postiga e Jankauskas, em que tu e o Larsson fazem dois golos e são os melhores marcadores da prova. O Jorge Costa sai lesionado e o Nuno Valente acaba expulso. Como é que te sentiste quando marcaste o terceiro golo e deixaste Mourinho e Pinto da Costa a chorar e trazes a primeira Taça UEFA para a sala de troféus do FC Porto?

D: Quando se fala desses momentos, do próprio Mourinho emocionado e do próprio Presidente, que esperou desde 1987 para viver uma conquista europeia novamente, o que me vem à memória é: “Nós conseguimos!”. Naquela equipa não existia nenhum jogador que tinha um tratamento diferente ou que se preservava. Todos se davam da mesma forma e aquela final foi a realização de tudo aquilo que se tinha proposto durante toda a temporada. Toda a dedicação e o sacrifício enquanto grupo ela estava a ser evidenciada ali.

Artigo anteriorBnR TV com João Alves: «O CD Cova da Piedade foi condenado e não se pode defender»
Próximo artigoRegresso a Casa: Benfiquistas de todo o mundo, uni-vos!
O Nélson é estudante de Ciências da Comunicação. Jogou futebol de formação e chegou até a ter uma breve passagem pelos quadros do grande Futebol Clube do Porto. Foi através das longas palestras do seu pai sobre como posicionar-se dentro de campo que se interessou pela parte técnica e tática do desporto rei. Numa fase da sua vida, sonhou ser treinador de futebol e, apesar de ainda ter esse bichinho presente, a verdade é que não arriscou e preferiu focar-se no seu curso. Partilhando o gosto pelo futebol com o da escrita, tem agora a oportunidade de conciliar ambas as paixões e tentar alcançar o seu sonho de trabalhar profissionalmente como Jornalista Desportivo.                                                                                                                                                 O Nélson escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.