Faz sentido começar pela mensagem, na íntegra, das jogadoras de futebol em Portugal:

“Lutei anos para fazer o que mais amo, para jogar futebol. Contra a discriminação, contra o preconceito, lutei para chegar onde estou. É devastador e vergonhoso, em pleno séc. XXI, ter de lutar CONTRA a criação do TETO SALARIAL no FUTEBOL FEMININO em PORTUGAL”.

Pois é. O futebol português conheceu, recentemente, mais um triste episódio de uma série com temporadas a mais para quem gosta do jogo e da equidade. A Federação Portuguesa de Futebol decidiu implementar um limite salarial de 550 mil euros aos planteis de futebol feminino. Este limite consiste no corte abrupto ao investimento dos clubes nos seus planteis, o que significa, no imediato, um desinvestimento na vertente feminina do futebol.

Estamos no século XXI. Numa altura em que muito se fala de racismo e discriminação, eis que a Federação Portuguesa de Futebol surge com uma medida que visa acabar com a qualidade crescente que se verificava no futebol feminino em Portugal. A Federação justificou a medida com os efeitos da COVID-19 (algo que parece agora ser usado como desculpa para as péssimas decisões tomadas) e com o propósito de promover maior igualdade entre as diferentes equipas.

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Ora, isto nivela realmente os campeonatos. Nivela por baixo. A qualidade, essa, não parece interessar em nada a uma Federação que segue sem rumo e se rege por uma política de show off: receber uma final a oito de Liga dos Campeões é mais importante do que realizar uma “final a oito” entre os clubes do Campeonato de Portugal.  A Federação está cheia de incoerências e de defeitos estruturais, e a forma como o assunto do futebol amador, o futebol de formação e o futebol feminino está a ser tratado revela toda a junção de esforços por parte da Federação para que só alguns assuntos sejam trazidos a público e outros caiam no esquecimento.

Contudo, apesar dessas tentativas, as pessoas que mais protagonismo devem ter no futebol falaram. As jogadoras uniram-se e criaram um movimento na rede social Instagram. O Movimento Futebol Sem Género visa expor a atitude discriminatória que a Federação Portuguesa de Futebol teve com as futebolistas, desde as internacionais até às jovens que sonham um dia poderem ser profissionais de futebol em Portugal. O Futebol Sem Género já chegou a meios conceituados de comunicação social em Espanha e tem sido debatido um pouco por toda a Europa, embora em Portugal a forma de informar e dar destaque a este tipo de problemáticas seja ínfima. Nada mais seria de esperar num país onde o conceito de cultura desportiva é substituído pela clubite.

Para além da legalidade desta medida ser altamente duvidosa, o que mais choca é o ato moral da mesma. Parece inacreditável que, em pleno século XXI, com toda uma história por trás, que deveria ensinar as pessoas a zelarem pela igualdade de género, estejamos perante situações destas no nosso país. É impensável que 140 jogadoras (as que assinaram a carta entregue à justiça) procurem uma certa emancipação. É triste, revoltante e angustiante que nenhum canal de televisão tenha tido a decência de fazer uma investigação e que nenhum meio de comunicação social tenha tido a coragem de fazer uma manchete com este tema.

Era louvável que os próprios jogadores de futebol masculino se associassem a esta causa e demonstrassem a sua indignação, e era fundamental que os próprios clubes assumissem uma posição forte nesta luta desigual contra algo completamente ilógico e infundado.

A atitude do Sindicato de Jogadores, repudiando a revolta feminina e apoiando a Federação, é de quem tem mais a perder do que a ganhar ao juntar-se a causas justas. É irrevogável que um sindicato existe para proteger a sua classe (neste caso, os jogadores), mas este Sindicato em particular parece existir mais para defender e difundir as ações da Federação Portuguesa de Futebol. Limitar o crescimento dos clubes não profissionais e impedir os clubes profissionais de contratarem boas jogadoras estrangeiras é o mesmo do que matar aos poucos um campeonato que estava em crescimento puro. Algo com reflexo imediato nas seleções, das mais jovens até à seleção A, onde a melhoria competitiva e qualitativa são por demais evidentes. É elementar que o primeiro passo para colher frutos de algo no futuro é o investimento. Desinvestir em algo que demorou muitos anos a ter resultados é um ato de incompetência e de desrespeito para quem tanto dá pela modalidade.

O caminho é afinal mais longo do que imaginávamos. Porque não há nada mais complicado e demorado do que alterar mentalidades tão macabramente enraizadas na nossa sociedade e no nosso desporto.

Artigo revisto por Mariana Plácido