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Sofia Jesus é jogadora de Futsal. Atualmente ao serviço do SL Benfica, a atleta aceitou o convite do Bola na Rede para falar sobre a sua carreira até aos dias de hoje, explica como tem conseguido intercalar a modalidade com o mestrado e, ainda, dá a sua opinião acerca do estado do Futsal feminino português.
-Carreira como Jogadora-
Bola na Rede (BnR): Há quantos anos é que estás ligada ao Futsal?
Sofia Jesus (SJ): Comecei a jogar futsal quando tinha seis anos, por isso há 15 anos.
BnR: Como surgiu a paixão por este desporto?
SJ: Os meus pais sempre me incentivaram a fazer desporto. Comecei pelo Ballet e já pratiquei Ténis, Basquetebol, Badminton, Canoagem, Voleibol, Surf, entre muitas outras coisas mas estava sempre a brincar com bolas de futebol. Quando entrei no primeiro ano existiam várias atividades extracurriculares na minha escola, e uma delas era o Futsal. Aí comecei a jogar, a entrar em competições e a ganhar um gosto enorme por esta modalidade. O Futsal foi o desporto que nunca mais larguei.
BnR: Qual era o/a teu/tua ídolo/a quando começaste a dar os primeiros passos no Futsal? E porquê?
SJ: Quando comecei a jogar não via assim muito Futsal e só conhecia o Ricardinho. Gostava imenso de o ver jogar, mas o meu maior ídolo sempre foi o Cristiano Ronaldo como atleta.
BnR: Como caraterizas o teu estilo de jogo, tendo em conta a posição em que jogas?
SJ: Considero-me uma jogadora inteligente que pensa bastante o jogo e sinto que tenho uma boa leitura de jogo em campo.
BnR: O teu primeiro clube foi o Futsal Oeiras. Lembras-te do primeiro dia em que foste treinar a este clube? E quem foi a pessoa responsável pela tua ingressão na equipa da linha de Cascais?
SJ: Para quem não sabe, o Futsal de Oeiras era o futsal que existia como atividade extracurricular da minha escola. Começou por ser o Clube Futsal da Medrosa e, entretanto, essas atividades acabaram na escola e fundaram o Futsal de Oeiras. Os responsáveis por esta primeira equipa do Futsal de Oeiras e pela minha ingressão no clube foram o Jorge Boiça e o Marco Relvas, os meus primeiros treinadores.

Fonte: Arquivo pessoal da entrevistada
BnR: O teu primeiro jogo de competição foi certamente disputado ao serviço do Futsal Oeiras. Recordas-te onde decorreu essa partida? E qual foi o resultado final?
SJ: Lembro-me que existiam uns torneios de Futsal entre escolas, quando ainda o clube se chamava Futsal da Medrosa, não me recordo dos resultados exatos, mas sei que na altura fui considerada a melhor jogadora de um dos torneios e ainda guardo a medalha com muito carinho.
BnR: Tiveste durante seis anos no Futsal Oeiras, onde tiveste de jogar com rapazes. Durante esse tempo, sofreste algum tipo de discriminação por pertencer a uma equipa só de atletas do sexo masculino? Se sim, como superaste esses episódios menos positivos no teu percurso no Futsal?
SJ: Felizmente nunca senti nenhum tipo de discriminação. Nunca fui a única rapariga no clube, e sempre senti que os rapazes até achavam piada existirem raparigas a jogar bem na sua equipa.
BnR: Depois seguiu-se o Quinta dos Lombos. De que forma a passagem por este clube te ajudou a ser a jogadora que és atualmente?
SJ: Quando entrei para a Quinta dos Lombos, tinha 12 anos e fui logo para as Juniores, onde a média de idades era de 18 anos. Lembro-me que tivemos logo um torneio na Suécia, e não estava nada habituada ao ambiente no feminino. Ajudou-me a crescer imenso tanto quanto pessoa como atleta. Foi nos Lombos que comecei a perceber que o Futsal era mais do que chutar umas bolas.

Fonte: Arquivo pessoal da entrevistada
BnR: No Lombos, chegaste a ser capitã de equipa e passas ainda dos escalões de formação para as séniores. Quais foram as maiores dificuldades sentidas por ti na transição dos escalões?
SJ: Sem dúvida que a exigência foi a minha maior dificuldade. Os Lombos sempre tiveram grandes equipas e era uma grande responsabilidade subir de escalão. Felizmente consegui adaptar-me bem à realidade das Seniores.
BnR: Após três épocas no Lombos, vais jogar para o Sporting CP. Foi fácil para ti ambientares-te ao facto de representar um clube com uma enorme importância no panorama do desporto nacional como o Sporting? Lidaste bem com a pressão de “ter vencer todos os jogos”?
SJ: Na minha opinião, não foi difícil porque nos Lombos a exigência também era grande, embora no Sporting existirem muitas pessoas atentas aos nossos resultados. A margem de erro era menor, o que me ajudou a ser mais exigente comigo mesma.
BnR: Durante a passagem pelo Sporting, tanto jogavas nas seniores como nas juniores. Foi uma altura difícil para ti conseguir manter a boa forma física devido à elevada carga horária de treinos ou era algo que fazias sem qualquer problema?
SJ: Há sempre alturas da época em que a carga sentida no corpo é maior, mas não sinto que tenha sido um problema para mim. Às vezes, depois de treinar a semana toda, jogar ao Sábado e ao Domingo era cansativo sim, mas nunca foi algo que me tenha limitado fisicamente.

Fonte: Arquivo pessoal da entrevistada
BnR: Em 2018/2019, assinas pelo SL Benfica, outro “peso pesado” do Futsal português. O que motivou a juntares-te à equipa encarnada?
SJ: O Benfica é o meu clube de coração e, quando recebi a proposta, pensei logo que podia crescer muito ao ir para lá. Existem muitas jogadoras experientes no Benfica o que me incentivou a mudar de equipa. Senti que era um clube que me podia ajudar a progredir a tornar-me numa melhor jogadora.
BnR: Durante a época de estreia, ficaste imenso tempo sem jogar devido a uma lesão grave. Custou-te não poder ajudar as tuas colegas durante esse período difícil? E sentes que ter ultrapassado esse duro revés te deu forças para ser uma jogadora mentalmente mais forte?
SJ: Foi sem dúvida um dos momentos mais difíceis que tive. Fiquei mesmo muito em baixo quando recebi o resultado do exame ao joelho, porque estava selecionada para ir representar Portugal ao Mundial Universitário – a Seleção conquistou a medalha de bronze nessa prova – e porque tinha acabado de mudar de clube. Muita gente me apoiou nessa altura e agradeço a todos, porque eles sabem quem são. Logo após a operação disse para mim “Bora lá, tu consegues!” e desde aí nunca mais parei de trabalhar para recuperar da lesão. Obviamente tornou-me mais forte psicologicamente e a encarar de outra maneira as lesões e o cuidado com o nosso corpo. De realçar que tive um acompanhamento incrível e isso deixou-me muito motivada para recuperar bem e voltar a jogar.
BnR: És uma das atletas que faz parte do plantel que conquistou o inédito tricampeonato. Qual é a sensação de pertencer a uma equipa que tem vindo a cimentar a sua posição como força dominadora do Futsal feminino? Isso traz maiores responsabilidades a ti e às tuas colegas?
SJ: É de facto uma grande responsabilidade. Todas queremos e ambicionamos o mesmo. Não perder há tantos jogos ainda torna tudo mais difícil e tão exigente. Queremos ser as melhores e não tomamos nada por garantido. Todas as semanas trabalhamos muito para conseguirmos chegar aos nossos objetivos.

Fonte: SL Benfica
BnR: E quais são as expetativas a nível pessoal e coletivo para a época que está em decurso? O objetivo é conquistar novamente todas as competições onde o Benfica está inserido?
SJ: Pessoalmente, este ano acrescentei bastante trabalho de ginásio e sinto que me tem ajudado imenso. Depois da lesão que tive, comecei a dar muito mais valor a esta parte do treino que chega a ser tão importante quanto a componente de campo. A nível coletivo, o Benfica entra em todas as competições para ganhar. Queremos voltar a conquistar todas as competições em que estamos inseridas, sendo que trabalhamos e vamos fazer por isso.
BnR: Sei que já foste convocada para a Seleção Distrital de Lisboa. Em que ano ocorreu essa chamada? Foi importante para a tua evolução como atleta?
SJ: Foi muito importante, porque senti que o meu trabalho foi reconhecido. A primeira vez que fui convocada foi em 2013, e na altura tinha 14 anos ou 15 anos. Devido à chamada à Seleção Distrital, sinto que foi nesse momento que comecei a levar o Futsal mais a sério.
BnR: E em relação à Seleção Nacional, foste convocada para as sub-21, mas ainda não tiveste a oportunidade de representar a seleção A. Acreditas que isso poderá acontecer num futuro próximo? Se sim, gostarias de representar o nosso país numa prova de elevada importância como um Europeu?
SJ: Um dos meus sonhos é ser chamada à seleção A, e claro que é sempre um orgulho representar o nosso país. Se lá irei? Não sei, mas obviamente seria um sonho concretizado. Todas as jogadoras ambicionam chegar ao mais alto nível e claramente que isso inclui a seleção nacional.
BnR: Certamente, já jogaste e partilhaste o balneário com inúmeras jogadoras. Qual foi a que te mais marcou?
SJ: Várias jogadoras me marcaram. Das que conheço há mais anos foi a Naty, que acompanha o meu percurso desde os Lombos, e é uma jogadora e pessoa incrível. O ano passado tive a oportunidade de conhecer melhor a Inês Fernandes (capitã de equipa do Benfica), que é uma atleta excecional e sinto que há muito a aprender com ela.
BnR: E em relação a treinadores, qual é a tua escolha e porquê?
SJ: Todos os treinadores que tive no Futsal de Oeiras (Jorge Boiça, Carlos Boiça, Marco Relvas, Mário Relvas e Ricardo Almeida) que são como uma família para mim. Ainda hoje lá vou bastantes vezes e tenho imenso orgulho em ver o crescimento daquele clube. Desde que estou no feminino, um dos treinadores que sempre me acompanhou e sempre me apoiou foi o Francisco Ribeiro.

Fonte: Arquivo pessoal da entrevistada
BnR: Tens alguma história engraçada ou caricata que possas partilhar com os nossos leitores?
SJ: Das histórias mais engraçadas que me lembro, foi uma vez num jogo nos Lombos, em que fiquei presa num corredor de acesso à casa de banho do balneário e tiveram de adiar a partida por uns minutos até vir alguém para arrombar a porta. Na altura, fiquei um pouco stressada com a situação mas agora que me recordo disso, dá para rir imenso com isso.
-Percurso Académico-
BnR: Além do Futsal, estás a fazer mestrado integrado em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores com especialização na área de Energias e Controlo. Em que momento é que descobriste que era esta a vertente de Engenharia na qual pretendias prosseguir os teus estudos académicos?
SJ: Nunca soube bem a área que ia escolher para prosseguir estudos na faculdade, mas sempre gostei muito de Matemática e Física, daí ter escolhido este curso. Outra razão para esta escolha foi o facto de ser um curso com bastante saída profissional.

Fonte: Arquivo pessoal da entrevistada
BnR: Tendo a perfeita noção de que um Mestrado exige muito tempo de estudo, como consegues conciliar o Futsal com o Mestrado?
SJ: Às vezes, admito que é muito difícil, mas sinto que há tempo para tudo. Se formos organizados e gerirmos bem o tempo conseguimos conciliar as duas coisas. Às vezes os amigos e a família ficam para segundo plano, mas eles percebem perfeitamente e apoiam-me sempre.
BnR: De forma a haver uma boa permutação entre os estudos e o desporto, que conselhos e/ou dicas podes dar a outras pessoas que estejam numa situação idêntica à tua?
SJ: O melhor conselho que posso dar é para nunca deixarem o desporto por causa dos estudos. Pessoalmente, penso que uma boa gestão do tempo é o essencial. E sabe muito bem ir treinar depois de um dia de estudo intensivo.
-Opinião acerca do Futsal Feminino Português-
BnR: Na tua opinião, o que falta ao nosso campeonato de Futsal feminino para estar ao nível dos melhores da Europa e do Mundo?
SJ: Na minha opinião, acho que falta apostar nos clubes e nas jogadoras. É preciso mais apoios. Temos de apostar nas nossas jogadoras para que elas não queiram ir jogar para fora. Temos imensa qualidade no nosso país, e é uma pena não conseguirmos apostar no que é nosso.
BnR: A maior competição continental de clubes, a UEFA Futsal Champions League, foi reformulada recentemente para o Futsal masculino. És de opinião de que a UEFA deveria criar uma idêntica para o feminino, de forma divulgar a modalidade e assim surgirem mais equipas?
SJ: Sem dúvida que sim. Uma competição desse nível iria trazer uma maior competitividade a nível nacional e um maior nome ao futsal feminino português. Além de que jogar contra equipas fora do nosso país ajuda as jogadoras a evoluir as capacidades técnicas e táticas.
BnR: No ano passado, decorreu o primeiro Europeu de sempre de Futsal feminino. Sentes que a criação desta competição deu outro tipo de motivação extra para melhorar o Futsal feminino em Portugal?
SJ: A criação desta competição trouxe uma maior visibilidade ao Futsal feminino, e isso é sempre positivo. A motivação por parte das atletas sempre existiu e penso que daí provém a criação desta competição por parte da UEFA.

Fonte: Arquivo pessoal da entrevistada
BnR: Achas que esse mesmo Europeu, organizado por Portugal, foi importante para as atletas mais novas sonharem em um dia no futuro atingir esse patamar de excelência?
SJ: Cada vez existem mais jogadoras de futsal e mais escalões de formação nos clubes. As jogadoras mais novas ao perceberem o crescimento que o Futsal feminino está a ter sentem-se mais motivadas para praticar a modalidade e, quem sabe, para atingir esse tal patamar claro, o que é extremamente positivo para o nosso país.
BnR: Numa altura em que se fala sistematicamente na igualdade de géneros, têm-se assistido a um crescimento de atletas femininas no Futsal. Como tens assistido a este fenómeno recente no nosso país?
SJ: Estou numa equipa onde temos a Melhor Guarda-Redes do Mundo (Ana Catarina Pereira) e a terceira Melhor Jogadora do Mundo (Fifó), ou seja, tenho assistido bem de perto ao crescimento das atletas, e é um orgulho ver que cada vez mais há pessoas a assistirem aos nossos jogos (Futsal feminino em geral) e com ídolos no feminino. Creio que é excelente para o contínuo desenvolvimento da modalidade aparecerem mais raparigas com vontade de jogar Futsal federado, pois isso pode ser um passo importante para aumentar a competitividade do nosso campeonato no futuro.
Foto de Capa: Arquivo pessoal da entrevistada
Revisto por: Jorge Neves









