O jogo desta segunda-feira contra o Moreirense FC fez lembrar um daqueles à moda antiga, que nos primeiros dez minutos já se adivinhava uma goleada azul e branca, só não se sabia se era para cinco ou para seis. Por muito que a equipa já fosse campeã e estivesse a jogar sob um clima de festa, tornando o cenário mais descontraído, a segunda parte foi talvez a melhor dos dragões esta temporada. A equipa trocou a bola de forma coerente, quebrando facilmente as linhas do Moreirense FC, saindo frequentemente com perigo na transição enquanto todos pareciam motivados para dar mais.

Presenciaram-se momentos de magia, como o passe magistral de Luís Diaz, num golo soberbo, em que a bola em 40 segundos passa por nove jogadores, com apenas 15 passes até chegar a Tiquinho Soares. Verificou-se a criatividade de Otávio e a importância que teve e tem no modelo de Conceição, mas presenciou-se um dos momentos mais caricatos, no bom sentido, no Estádio do Dragão: o golo de livre de Marega. Até o próprio sabe o quão improvável aquilo foi, devido às limitações técnicas, e até porque é raro vê-lo a atirar fora de área. O que é certo é que ficou marcado para a história.

Por falar em história, um dos principais momentos que simboliza o campeonato é na festa dos jogadores no relvado, quando se sentaram nas cadeiras do estádio e representaram o papel de adepto, ao som de “Perra”. Para o portista é um orgulho enorme ver uma equipa unida desta forma, sem esquecer a importância do 12.º jogador. O FC Porto foi campeão nacional precisamente por essa união, claramente visível dentro do balneário.

Repare-se que quando a situação estava em apuros, Sérgio Conceição foi o primeiro a acusar o plantel de falta de união e vontade, no momento em que pôs o lugar à disposição. Desde o encontro contra o Benfica no Estádio do Dragão, a história reverteu-se e os azuis e brancos rapidamente conseguiram recuperar os sete pontos de atraso e chegar ao primeiro lugar do campeonato. Podiam não ser as melhores exibições possíveis, mas as mudanças eram visíveis, os resultados favoráveis e notava-se a equipa toda a bordo no mesmo barco, a remar apenas para uma direção. Para o 29.

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Durante a paragem do futebol, houve um fator que poderá ter sido crucial para a conquista do título e pouco foi abordado. Trata-se do “FC Porto em Casa”, um direto transmitido nas redes sociais do clube, orientado por Miguel Marques Monteiro e Rui Cerqueira, jornalistas do Porto Canal. Essas transmissões traziam de volta uma série de craques que passaram pelo clube, que de certa forma, podem ter um papel fundamental naquilo que é a passagem dos valores do FC Porto para os atuais atletas. Isto porque alguns desses atletas chegaram a participar e certamente muitos deles acompanharam os programas.

O momento em que se sentiu a equipa mais focada no objetivo foi na pós-retoma, mesmo com dois desaires nos primeiros três encontros, que podiam ter enviado o Benfica novamente para a liderança. Contudo, os encarnados passaram por uma série de jogos sem vencer e os dragões aproveitaram para alargarem a vantagem pontual. Os azuis e brancos acumulam de momento seis vitórias seguidas desde o tal empate na Vila das Aves, com destaque para uma evolução gigantesca na qualidade de jogo. Desde o retorno do futebol, o conjunto de Sérgio Conceição sofreu apenas quatro golos em nove jogos e marcou 23. Manteve também a baliza inviolável por seis vezes nessas partidas e não sofreu qualquer golo em casa.

O FC Porto é um justo campeão da liga portuguesa e destacou-se a léguas do maior rival por se demonstrar a equipa mais consistente e, de um modo geral, a equipa que ao longo do tempo, corrigiu ou escondeu melhor os seus erros. A barreira defensiva dos portistas foi exímia durante a maior parte da temporada e a equipa foi-se tornando cada vez mais prática e eficiente dentro de campo, ao ponto de nestes últimos encontros as jogadas de perigo saírem com uma naturalidade tremenda.

Além desse fator, o coletivo evidenciou-se e foi a chave para a conquista do troféu. Sérgio Conceição sempre deu a entender que não havia intocáveis, todos tinham de dar o litro durante os treinos e durante os 90 minutos e a felicidade dos jogadores era evidente. Quando o grupo está unido é mais forte e as relações entre os jogadores parecem muito positivas, de acordo com a maneira como festejam os golos, como interagem uns com os outros e principalmente por se esforçarem de igual modo, mesmo que sejam menos vezes opção do treinador.

Os números falam por si e o melhor marcador do FC Porto no campeonato é a resposta. Geralmente, há um ou dois jogadores que se destacam dos outros e apresentam números bem superiores a nível de golos aos que o elenco portista apresentou este ano. Até há bem pouco tempo, o melhor marcador da equipa no campeonato era Alex Telles e agora é Marega com “apenas” doze golos apontados, à frente dos onze do lateral brasileiro. De seguida, vem Tiquinho Soares com dez e Zé Luís com sete. Em 73 golos marcados, estão aqui concentrados 40 golos, logo ainda há mais 33 distribuídos pelo resto da equipa. Em todas as competições, Tiquinho, Marega e Alex Telles estão presentes no topo, mas destaque para Luís Diaz, pois contribuiu, e de que maneira, ao longo da época, sendo o segundo melhor marcador do plantel em todas as provas.

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão