Ainda ouço aquelas vozes… as vozes daqueles que nos rebaixavam, daqueles que desdenhavam de nós, daqueles que já não contavam connosco. Hoje, são meros murmúrios, distantes e débeis, abafados por todo um Mar Azul.

Porém, nem sempre foi assim. Não, porque um dragão não esquece. Um dragão não esquece as sentenças de morte que nos delinearam após a eliminatória frente ao FK Krasnodar. Um dragão não esquece as exorbitantes goleadas que eram projetadas quando viajámos pela primeira vez até à capital. Um dragão não esquece as vozes que nos tiravam das contas quando caíamos.

E caímos. A verdade é que caímos. Em Barcelos, na Madeira, no Jamor, em Roterdão, em Glasgow. Era difícil levantar a cabeça, era difícil acordar de manhã e sentir que um passo atrás havia sido dado na luta pelo nosso objetivo. Pesava cada vez mais percorrer quilómetros e quilómetros, sob frio, vento e chuva, deixar família e amigos para trás só para te ver jogar, só para estar lá por e para ti.

Mas a realidade é que acabávamos sempre por lá estar. E, assim, voltámos a erguer-nos, juntos. Regressámos às vitórias, quebrámos enguiços que já duravam há anos, vencemos em Alvalade pela primeira vez na década e não vacilámos em Moreira de Cónegos, algo que não acontecia desde 2015.

Estávamos fortes, voltámos a acreditar, voltámos a fazer os outros acreditarem que era possível. Teriam de contar connosco! Eram só quatro os pontos que nos separavam do topo da tabela e, ao virar da esquina, o dérbi da segunda circular. Algo nos fazia ter a certeza de que aí, em Alvalade, eles iriam escorregar. No Dragão, frente ao SC Braga, só tínhamos de fazer o nosso trabalho e… voltámos a falhar. Não só aí, como também, poucos dias depois, na final da Taça da Liga, frente ao mesmo SC Braga.

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Lugar de técnico colocado à disposição, falta de união, de sucesso desportivo, de ideias… o que haveríamos nós de pensar? Que tudo estava perdido? Admito, essa ideia passou pelas nossas mentes durante aquela cinzenta quinzena de janeiro. Levantar a cabeça era uma tarefa cada vez mais trabalhosa, aliás, cada vez mais injustificada, aparentemente.

No entanto, há coisas que só quem vive este clube, esta cidade, este símbolo sentirá algum dia. Descrever? Impossível. Não há palavras que consigam descrever o sentimento que nos correu pelas veias quando pisámos o terreno em nossa casa naquela noite de 8 de fevereiro. Estávamos a sete pontos do primeiro lugar, mas nós sentíamos lá bem no fundo que ali, diante do nós, estava a chave do título.

No Dragão, começou a traçar-se o caminho do 29.º título
Fonte: Diogo Cardoso/Bola na Rede

“Era o xeque-mate” diziam uns, “era o fim do FC Porto de Sérgio Conceição” diziam outros. Nós, nada dizíamos. Mas sentíamos. Sentíamos que ali não seria o fim, mas sim o início, o início da nossa redenção.

E assim foi. Vencemos, provámos pela segunda vez que éramos melhores, provámos novamente que não merecíamos estar na segunda colocação, que não merecíamos todos os rótulos que nos colocavam. Provámos que teriam de contar connosco!

E, uma vez mais, começaram a temer-nos. E, uma vez mais, fizeram de tudo para deitar-nos abaixo. Pelo menos, era nisso que acreditavam quando insultavam da forma mais baixa possível um dos nossos. Na verdade, apenas deixavam-nos mais fortes, mais unidos, mais certos de que, no final, seríamos felizes.

Até ao momento em que algo foi capaz de fazer aquilo que os maus resultados não foram: separar-nos. A cada fim de semana que passava, a vontade de estar a teu lado apenas crescia e tínhamos a certeza que esse sentimento te alimentaria, te daria o empurrão final.

Recomeçámos com o pé esquerdo, mas já estávamos demasiado longe para simplesmente deixar de acreditar. Compreendíamos que este era tanto nosso desejo como vosso, e, se vocês acreditavam, porque deixaríamos nós de acreditar?

E, assim, golo após golo, jornada após jornada, o nosso trilho continuou a ser desenhado sobre o nosso suor, sangue e lágrimas.

Até que, enfim, ela estava nas nossas mãos. Sim, nas nossas! A taça, a taça que nos escapou por entre os dedos na temporada passada, desta vez não escaparia. Não escaparia ao nosso símbolo, às nossas cores, à nossa nação.

Um dragão não esquece… aquelas vozes, sim, aquelas vozes agora são pouco mais que murmúrios, abafados pela nossa voz, pelo nosso grito, pelo grito de um campeão!

Artigo revisto por Diogo Teixeira

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