No final do último jogo a contar para o campeonato, Sérgio Conceição responsabilizou, em parte, os jovens da formação pela fraca exibição da equipa na primeira parte e consequente empate contra o Boavista FC.

Mas então, o que é que aconteceu durante a primeira parte desse jogo para que o treinador tenha falado dos jovens da formação como parte do problema, mas não dos outros jogadores com mais estatuto no plantel? Primeiro, foco-me nos jovens.

É claro e óbvio para todos que João Mário e Fábio Vieira não fizeram uns 45 minutos bem conseguidos, aí concordo com Sérgio Conceição. João Mário é um extremo-direito, no máximo um lateral/ala-direito. No encontro contra o Boavista jogou na esquerda. E não só jogou no lado que não é o dele, como ficou como o único responsável para garantir a largura desse lado. Se tivesse atrás dele um lateral capaz de fazer movimentações ofensivas para atrair também a pressão dos defesas boavisteiro, acredito que João Mário teria tido mais influência.

O sistema usado, com Sarr mais recuado para garantir mais alguma segurança defensiva, que eu até nem desgosto, funciona quando é Luis Díaz o extremo-esquerdo. Mas o colombiano tem uma capacidade de 1×1 muito acima da média, capacidade essa que Sérgio Conceição não pode exigir de João Mário. É certo que o jovem não fez um bom jogo, mas pouco teve a ver com a “atitude”, como o treinador mencionou. Aliás, se há algum aspeto que não podemos apontar a João Mário, é precisamente o da atitude. É extremamente forçado, corre durante todos os minutos que joga. Mas não é tão talentoso como Díaz, tão simples quanto isso. E este não tem a capacidade de jogar como extremo-esquerdo a garantir toda a largura nesse flanco.

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O caso de Fábio Vieira é bastante diferente. O médio tem todo o talento do mundo, principalmente no seu pé esquerdo. Mas a verdade é que não tem “pegado de estaca” na onze inicial de Sérgio Conceição. E há várias razões para tal, a meu ver. Primeiro, o sistema não é o mais propício para o jovem. Tendo em conta que, na grande maioria dos jogos, o conjunto azul e branco alinha com dois avançados puros, a única posição que Fábio Vieira pode ocupar, pelo menos neste momento, é a de Corona/Otávio. Certamente não é a de extremo a jogar mais perto da linha, e também não é num duplo pivô no meio campo.

Fábio Vieira tem que jogar perto da área contrária. Tem uma capacidade de aplicar o passe final ao nível dos melhores jogadores do plantel, uma boa movimentação para entrar na área, e um remate muito competente, quer em força ou em jeito. Ou como um número 10 assumido, ou a partir da direita com muita liberdade para se juntar ao meio, Fábio Vieira tem mostrado ao longo da sua jovem carreira uma qualidade muito assinalável.

Já enumerei as posições onde acho que o jovem pode brilhar, mas onde é que este pode ser exposto? A jogar num meio-campo a dois, com um jogador com características de box-to-box ao seu lado. Fábio Vieira não é um médio para receber em zonas recuadas do relvado. Tem capacidade de passe? Sim, mas não é por isso que deve participar ativamente na primeira fase de construção. No jogo contra o Boavista, foram várias as vezes que este era o médio mais recuado quando a equipa tinha bola, para conseguir uma melhor circulação da posse de bola, dizia Sérgio Conceição na conferência de imprensa.

Mas este nem sequer é um bom plano a nível ofensivo para o FC Porto, na minha opinião. Fábio Vieira não tem uma capacidade por aí além de fazer o tipo de circulação de bola que é pedida naquela zona do relvado. Não sabe (ainda, pelo menos) congelar o ritmo de jogo quando é preciso, não percebe ainda da melhor maneira quando arriscar e quando não o fazer.

E se este posicionamento de Fábio Vieira no relvado já não é algo positivo para a equipa a nível ofensivo, então é óbvio que também não o será a defender. Não podemos pedir a um jogador algo que este não é capaz de fazer, e não podemos pedir a jogador para ser algo que não é. E também é óbvio para todos que Fábio Vieira não será o melhor jogador da equipa na transição e processo defensivo. E esse facto não tem que estar ligado a problemas de atitude por parte do jogador. Não tudo está ligado à atitude dos jogadores, e parece-me até que esse é o último dos problemas do FC Porto desde a chegada de Sérgio Conceição, já que o líder portista faz questão de incutir esse princípio na equipa.

Mas continua muitas vezes a ser essa a justificação do treinador para não apostar seriamente nos jovens da formação. “Não têm atitude, não têm intensidade”, ouve-se tantas vezes. O problema raramente está ligado com questões táticas da inclusão de x jovem na equipa. Penso que a exigência deve ser igual e não maior para os jovens do que para os atletas mais consagrados. O treinador portista talvez pudesse ter chamado, como exemplo, jogadores como Sérgio Oliveira ou Marega, que também fizeram 45 minutos muito abaixo da média.

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