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Balanço final

Bernardo Lobo Xavier · 7 min

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E assim termina mais uma temporada no Reino do Dragão. Fecham-se as cortinas da primeira liga. Mais uma época atribulada e sem títulos e mais uma vez ficou adiada a tão desejada festa na Avenida dos Aliados.

Ao longo do ano desportivo fui apontando erros e carências tanto do corpo técnico como da estrutura e, claro, dos jogadores. Não obstante, fui sempre pedindo apoio dos adeptos e tranquilidade para a equipa, pedindo que se esperasse pelo terminus do campeonato para que se pudesse, então, obter uma avaliação e uma retrospetiva mais lúcidas de tudo o que se foi passando. Não tendo sido um apoiante do treinador escolhido, já que não lhe reconhecia competências técnicas para um clube com a dimensão do FC Porto, fui, no entanto, um membro da oposição à chicotada psicológica nos momentos de maior desconfiança. Pedi estabilidade, tranquilidade e apoio e nada disso faltou à equipa. Chega a hora de fazer o balanço.

O FC Porto versão 2016/2017 falhou em toda a linha. Há que dizê-lo; não há como fugir a esta realidade. Entrou em quatro competições, não ganhou nenhuma, e, não tendo feito uma campanha brilhante, longe disso, apenas cumpriu os objetivos mínimos na Liga dos Campeões (caiu nos oitavos-de-final frente à finalista Juventus).

Fonte: FC Porto
Fonte: FC Porto

Ora, vejamos, na Taça de Portugal foi afastado pelo Desportivo de Chaves, uma boa equipa do nosso futebol, na terceira eliminatória. É verdade; em Novembro o FC Porto já estava afastado da segunda prova mais importante em Portugal e os adeptos tinham aí a primeira certeza da época, a de que não iriam ao Jamor. Os Dragões foram eliminados na marcação de grandes penalidades e podem queixar-se de erros grosseiros de arbitragem que prejudicaram, e muito, a sua equipa. No entanto, não conseguir marcar um único golo ao Chaves em 120 minutos de futebol é preocupante e não há erro de arbitragem que escamoteie esse facto.

Na Taça da Liga, a prova que todos querem mas que ninguém quer, passe o paradoxo: o FC Porto foi eliminado logo na fase de grupos, num grupo onde estavam inseridos, pasme-se, o Moreirense, o Feirense e o Belenenses. Dois pontos e 4.º e último lugar do respetivo grupo foi tudo o que o Porto foi capaz de fazer em dois jogos em casa e um fora. Manifestamente pouco. Embaraçoso, até. No entanto, lá se arranjou maneira de colocar o ónus da culpa nos árbitros.

Apesar de dois fracassos precoces, o FC Porto começou, em meados de Dezembro, a dar cartas na Liga NOS e encetou uma recuperação quase milagrosa que permitiu um encurtar de distâncias para o rival Benfica de sete pontos para um ponto. Os adeptos estavam felizes e esperançados e esqueciam os fracassos nas provas a eliminar. Foi, de facto, uma recuperação muito meritória, mais à custa da união e da coesão da equipa do que propriamente do bom futebol, mas começava a haver uma maior identificação da massa adepta com aquilo que a equipa ia produzindo dentro das quatro linhas. Contudo, o filme dos últimos três anos voltou a repetir-se. Nos momentos chave, na hora de passar para a frente, a equipa falhou. O clube claudicou. Numa reta final penosa, o FC Porto obteve uma derrota, cinco empates e apenas três vitórias nos derradeiros nove jogos. Exige-se muito mais a um candidato ao título, e a falta de fibra de campeão e de estofo são, para mim, o que de mais preocupante se retira deste Tetracampeonato do SL Benfica. Mais um falhanço. Ainda assim, as armas foram de novo apontadas à arbitragem.

Tenho, ao longo do artigo, desvalorizado de sobremaneira a arbitragem. Para não correr o risco de ser mal interpretado faço já uma primeira declaração de interesse. Este foi o Campeonato de que tenho memória em que vi o FC Porto ser mais prejudicado por decisões dos juízes das partidas. Isso tem, obviamente, uma enorme relevância nas contas finais e, não existindo o contra factual, nunca saberemos o que sucederia se tal não tivesse ocorrido. O facto de desvalorizar estes acontecimentos advém, então, da ideia que tenho de que, apesar de tudo, o FC Porto teve o título nas mãos e deixou-o escapar por entre os dedos por culpa própria. Não apresentou futebol de campeão durante grande parte do ano e, quando surgiram as oportunidades de se assumir como principal candidato e líder, falhou em toda a linha. E toda a gente no clube é responsável por isto. Jogadores, treinadores e dirigentes. Considero que os adeptos têm parte da culpa do que se passou na receção ao Vitória de Setúbal (pós empate do Benfica na Mata Real), como já aqui havia escrito, mas ilibo-os de qualquer responsabilidade na época do FC Porto porque foram exemplares no apoio à equipa e se uniram em torno do clube como há muito não se via.

Fonte: FC Porto
Fonte: FC Porto

Assim, enormes desafios se colocam a uma SAD que vai esvaziando cada vez mais o capital de confiança junto dos sócios. Uma SAD que, pese embora tudo o que de bom produziu no clube e que o conduziu a anos e anos de glória, tem, num passado mais recente, acumulado sucessivos erros na sua gestão. A escolha de treinadores e jogadores, tal como a gestão financeira, têm sido bastante prejudiciais para o FC Porto e são motivo de enorme preocupação da minha parte.

A estrutura diretiva do FC Porto é, então, para mim, a principal responsável pelo fracasso do clube, como foi, também, a obreira das páginas mais douradas da sua história. Os resultados financeiros estão no vermelho e o fair-play financeiro da UEFA começa a apertar o clube como nunca antes visto. A escolha de Nuno, como a escolha de Lopetegui há dois anos, é, no mínimo, duvidosa e arriscada. O planeamento tardio da temporada, as contratações e as comissões são outro foco da minha inquietação.

Nuno Espírito Santo surge em segundo na lista de réus. Este não tem culpa, é certo, de ter sido o eleito para o cargo mas, tendo sido, exigia-se mais do que apenas portismo. Construiu um processo defensivo sólido mas fracassou no movimento atacante. Insistiu até demasiado tarde na temporada no vício do jogo direto e protegeu cedo demais nos jogos algumas vantagens mínimas que acabaram em empates. Parece-me um bom condutor de homens mas esteve errático na comunicação para o exterior. Já tive a oportunidade de referir que Nuno é um treinador competente mas não estava, ou não está, ainda, preparado para clubes desta dimensão. A sua ideia de jogo é demasiado rudimentar e receosa e a quantidade de empates, muitos dos quais a zero, que o FC Porto obteve esta temporada é exemplo primordial disso mesmo. Não tem, para mim, condições para continuar a ser treinador do FC Porto. Esta opinião vai muito para além da avaliação da competência, prendendo-se com uma análise do contexto atual do clube, não me parecendo que tenha a confiança e a tolerância dos adeptos, facto que pode ser nefasto ao primeiro mau resultado que venha a obter no princípio da próxima época.

Como quem joga são os jogadores, a estes também tem de ser assacada alguma responsabilidade. O plantel tinha algumas carências evidentes mas era composto por um conjunto de 16 ou 17 jogadores, número que, dado o desenrolar dos acontecimentos (com eliminações precoces nas provas nacionais e com alguns tropeções do Benfica), deveria ter sido mais do que suficiente para chegar ao tão ambicionado título nacional. Houve, é certo, entrega total de todos os jogadores mas nem sempre a competência e, principalmente, o discernimento estiveram presentes. Portanto, também os jogadores têm de ser responsabilizados pelos insucessos do clube.

Fonte: FC Porto
Fonte: FC Porto

Há muito a fazer. A SAD terá de construir um plantel, no mínimo, igualmente competitivo e terá de o fazer desanuviando as contas. Vender caro e comprar barato será uma obrigatoriedade e a massa salarial terá forçosamente de baixar. Jogadores como Casillas e Maxi deverão ter de procurar outras paragens e é fundamental que grande parte dos mais de 30 emprestados deixem o clube de forma definitiva. Um novo treinador terá de ser escolhido e os adeptos dificilmente aceitarão outra aposta de risco. Regressos de emprestados como Ricardo Pereira ou Rafa poderão ser soluções interessantes mas os desafios que serão impostos aos dirigentes para que seja possível recolocar o FC Porto no trilho das vitórias serão colossais e exigirão o máximo rigor e a máxima competência. A próxima época será, muito provavelmente, o maior desafio da presidência de Jorge Nuno Pinto da Costa, que terá de jogar em dois tabuleiros críticos: o do regresso às vitórias e o da sobrevivência e da sustentabilidade financeira da SAD e do clube. Mãos à obra.

Foto de Capa: FC Porto

 

Bernardo Lobo Xavier

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