Publicidade

E agora?

Bernardo Lobo Xavier · 6 min

E agora?
Foto: FC Porto

Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google

fc porto cabeçalho

Três épocas, 1 título e 4 treinadores. Foram três épocas de fracasso, de treinadores mal escolhidos e de plantéis mal construídos. Porventura, os erros terão começado um par de anos antes do colapso como, aliás, é normal em todos os setores de atividade.

A direção do Futebol Clube do Porto partia, à entrada para a nova época, para mais uma época de tudo ou nada. Incumbia-lhe escolher um novo treinador e reformular um plantel com carências evidentes. Mais uma vez, muita responsabilidade nos ombros de Jorge Nuno Pinto da Costa e dos seus pares. Pedia-se critério, ponderação e aposta na competência acima de qualquer outro valor. Pedem-se títulos.

No que toca à equipa técnica não se exigia portismo, não se exigiam provas dadas, não se exigia arte no que toca à comunicação, muito menos habilidades artísticas no que concerne ao desenho. A única coisa que todos os portistas exigiam era, como já mencionado, competência e alguém cuja ideia de jogo se compadecesse com a dimensão Porto.

O que se prometeu, nas palavras do Sr. Presidente, foi uma equipa a jogar à Porto. Mas o que é, afinal, uma equipa e um jogador à porto? Temos andado a ouvir falar sobre estes conceitos numa base quase diária e, por vezes, fico com a sensação de que se tem uma ideia errada, ou melhor, incompleta sobre este tipo de terminologia. Jogar à Porto engloba o querer, a raça, o esforço, a dedicação, a agressividade, a supremacia do emblema carregado ao peito sobre o nome estampado nas costas e muitas outras características de jogo relacionadas com a tal mística. Mas não pode ser só. Porque se jogar à Porto é apenas isso, então não é mais do que jogar à Paços de Ferreira, Arouca ou Chaves, com todo e o maior respeito que estas instituições me merecem.

Fala-se muito de de garra e de querer mas o jogar à FC Porto tem que aliar todas estas nuances a uma qualidade de jogo ao nível do clube que é, ou que provou ser ao longo das últimas dezenas de anos. Para além de correr mais do que o adversário, o Porto tem que jogar mais do que os seus oponentes, tem que ter dinâmicas defensivas e ofensivas que lhe permitam sobrepor-se a qualquer adversário que defronte, pelo menos no contexto nacional (ou no contexto europeu quando os adversários são o Leicester, o Copenhaga e o Brugge). Ao Porto exige-se que jogue como a equipa grande que é, que sufoque a equipa contrária e que reduza, efetivamente, o campo a 65 metros, parafraseando Nuno Espírito Santo.

No que toca ao líder, a aposta da SAD portista recaiu sobre Nuno Espírito Santo, portista de gema, um homem da casa. Mas terá a SAD feito uma análise detalhada sobre o treinador antes de o escolher ou utilizou o portismo como critério único e fundamental? Assim à vista desarmada, e utilizando evidência empírica, parece-me que a segunda hipótese se aproxima mais da realidade.

Pinto da Costa apostou em Nuno Espírito Santo Fonte: FC Porto
Pinto da Costa apostou em Nuno Espírito Santo
Fonte: FC Porto

Atenção, eu não considero Nuno um treinador incompetente, longe disso. O que se passa é que a ideia de jogo do treinador do FC Porto está muito longe daquilo que se pretende e exige nas bancadas do Dragão (talvez já não tanto na tribuna). Desde que iniciou a sua carreira como homem de banco, depois de ter pendurado as luvas e de uma experiência como adjunto de Jesualdo Ferreira, Nuno tem montado insistentemente as suas equipas (Rio Ave e Valência) com base em princípios de jogo de equipa pequena, uma defesa sólida e jogo direto à procura da profundidade, aproveitando a velocidade dos seus avançados (exatamente como se tem visto no jogo do FC Porto e como se observou na partida de ontem).

Quem o contratou tinha o dever de saber as ideias que o novo técnico iria incutir no clube (quero acreditar que foi por desconhecimento). Nuno não enganou ninguém. Esta é a matriz de jogo em que acredita e a que tem implementado no clube. Mas a um clube grande exige-se mais. Exige-se posse, velocidade na circulação, jogo interior que potencie o jogo exterior, agressividade no ataque à baliza adversária e, acima de tudo, uma reação incisiva à perda de bola sempre na tentativa de a recuperar o mais perto possível da baliza adversária. O meio-campo deve ser a “sala de máquinas” da equipa e não um par de jogadores que passam um jogo a ver a bola passar-lhes por cima.

Uma ideia de jogo de nada serve sem os seus intérpretes, os jogadores. E a reestruturação do plantel trazia outro tipo de desafios à tão proclamada estrutura do FC Porto. Os jogadores chegavam à janela de transferências desvalorizados no que ao mercado diz respeito e a saúde financeira do clube não era nem é a melhor, sendo que, no entanto, quem tem a disponibilidade para pagar 6M e 6,5M por Depoitre e Boly respetivamente, jamais se poderá esconder atrás de questões de ordem financeira. O plantel do FC Porto época 2016/2017 é, ao contrário do que se vai dizendo um pouco por toda a opinião pública e publicada, um plantel muito interessante e com várias soluções. Lembro que jogadores como Rúben Neves, André André, Corona ou Brahimi têm sido presença assídua ao lado de Nuno no banco.

Ora uma equipa que se dá ao luxo de ter tanta qualidade sentada no banco de suplentes (pode discutir-se se deviam estar no banco ou no 11 titular) tem, imperativamente, que produzir mais e melhor. Ainda assim, há algumas carências. Faltam, na minha opinião, um lateral (Maxi e Layun apresentam  deficiências gritantes a defender), um central (Felipe e Marcano têm-se apresentado a um nível elevado mas faltam alternativas válidas) e um goleador (André Silva, está visto, não chega para todas as encomendas). De três necessidades apresentadas, foram, como referido no princípio do parágrafo, gastos 12,5M a tentar colmatar as duas últimas, sendo que a responsabilidade no fracasso da contratação de Depoitre já foi, vergonhosamente na minha opinião, despachada para o treinador. “Jamais contratarei um jogador que não conheça como fiz com o senhor Lopetegui”, dizia Pinto da Costa há uns meses atrás. “Não conhecia o jogador, foi contratado a pedido de Nuno”, afirmava a mesma pessoa após a contratação do belga. Haja coerência. Como diria o Dr. Pimenta Machado, antigo presidente do Vitória Sport Clube, no futebol o que hoje é verdade amanhã é mentira.

Laurent Depoitre tarda em convencer os adeptos dos azuis e brancos Fonte: FC Porto
Laurent Depoitre tarda em convencer os adeptos dos azuis e brancos
Fonte: FC Porto

Para além da vertente técnico-tática, sinto que dar relevo a um tema que vai, muito provavelmente, ferir susceptibilidades. O FC Porto tem perdido o poder e o respeito das mais altas instâncias do nosso futebol. Ao contrário do que sucedia anteriormente, os árbitros já não têm medo de errar contra o Porto e, na dúvida, a decisão começa a ser sempre desfavorável. É, por vezes, um assunto tabu mas, no futebol português, é um fator de extrema importância para a conquista de títulos e nessa corrida, o Benfica também vai na frente destacado e, por muito que custe aos portistas, o Sporting também já está num patamar bastante superior.

Todos estes temas devem merecer, e com carácter de urgência, uma profunda reflexão por parte da SAD.

Ora, aqui chegados verificamos que o FC Porto já foi eliminado da Taça de Portugal, a terceira prova mais importante da temporada mas que, se tivermos em conta a hipótese de chegar aos tão desejados títulos, sobe na hierarquia para o segundo posto, no Campeonato o fosso para o Benfica está em 5 pontos, sendo que os encarnados já vieram jogar ao Dragão, e na Liga dos Campeões, apesar de o apuramento para os oitavo-de-final estar à distância de uma vitória caseira frente ao Leicester de Inglaterra, a campanha tem sido bastante abaixo das expectativas. Mas o mais preocupante é mesmo a qualidade (ou a falta dela) de jogo da equipa. Não está a ser uma época, de todo, positiva.

E agora? Perguntarão os portistas. Agora, apesar de tudo, não é a altura de apontar dedos ou de procurar responsáveis, muito menos de pensar numa possível alteração de equipa técnica. No final da época far-se-ão as contas e os portistas terão o direito e o dever de responsabilizarem quem entenderem. Ao dia de hoje ainda há muito para ganhar e (esperemos que não) muito a perder por isso, é hora de a nação portista se unir em torno da equipa, apoiar jogadores técnicos e dirigentes e catapultar o Porto para o tão desejado título de campeão nacional. Permitam-me utilizar um chavão: Contra tudo e contra todos. No final fazem-se as contas e apuram-se os heróis ou os réus.

Foto de capa: FC Porto

Bernardo Lobo Xavier

Redação Bola na Rede · ver artigos