Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google
Sou portista. O que me levou a tornar-me portista foram as vitórias. Não posso fazer um exercício de hipocrisia e afirmar que, como muitas vezes ouço dizer, me tornei adepto do FC Porto por quaisquer valores ou princípios que pudesse ver incutidos no clube. Tenho que ter a humildade de reconhecer que foram as conquistas o elemento diferenciador para que eu me tornasse um apaixonado pelo clube da minha cidade.
Para as pessoas da minha geração era fácil escolher ser portista. Representava a felicidade e comodidade de ganhar quase sempre. E para uma criança não há nada mais importante do que ser do clube que ganha. As influências familiares apontavam para a Académica de Coimbra e (com menos intensidade) para o Sporting CP mas cedo me afastei desses sopros porque, volto a dizer, a única coisa que me interessava era ganhar. Foi quase que uma racionalidade irracional que me fez optar por ser Dragão.
A minha aproximação ao clube não é, portanto, um conto de fadas ou uma história digna de um bestseller. No entanto, com o avançar da idade e a crescente consciencialização de que o futebol é muito mais do que ganhar ou perder, fui-me começando a identificar com os tais valores que outrora apenas ignorara. Foi como apaixonar-me outra vez, foi como, finalmente, encontrar a justificação aflorada para ser portista.

Fonte: FC Porto
Era, de facto, um clube diferente. Percebi então porque ganhava mais vezes. O olhar de jogadores como Jorge Costa ou Bruno Alves, a genialidade de jogadores como Deco ou Hulk, mas acima de tudo, a atitude e rigor de todas as pessoas envolvidas no dia-a-dia do clube fizeram-me perceber, então, o porquê de o FC Porto ser um clube talhado para vitórias e, como tal, o porquê de ser portista.
Mais tarde ainda, quando comecei a entender de forma mais consistente o fenómeno do futebol, os meandros da modalidade e a forma como as altas instituições reguladoras desempenham um papel decisivo no sucesso ou insucesso de uma equipa, foi quando definitivamente reconheci toda a competência de um clube e de uma estrutura que havia ganho tanto respeito como receio junto dos lugares decisores do nosso futebol e que, fruto de um trabalho exemplar, o FC Porto era um clube intocável. Assim se constrói um campeão.
Foto de Capa: FC Porto
Por esta altura o leitor deve estar ainda confuso questionando-se onde quero chegar com tão apaixonado mas controverso preâmbulo. Vou passar, então, à explicação.
Na últimas 4 jornadas da Liga NOS, o FC Porto apenas saiu vencedor numa delas. Em 4 partidas, os azuis e brancos apenas foram capazes de vencer o Belenenses em casa. O que tinham os outros três jogos em comum? O seu carácter decisivo.
Ora vejamos, primeiro o FC Porto recebeu o Vitória de Setúbal no seu reduto com uma oportunidade de ouro de assumir a liderança e cedeu à pressão. No jogo seguinte deslocou-se ao Estádio da Luz com nova oportunidade de subir ao topo da classificação e voltou a falhar redondamente, podendo, até, dar-se por satisfeito por ter conseguido sair de Lisboa com um ponto.

Fonte. FC Porto
Por fim, deslocou-se a Braga para voltar a colocar pressão num líder que no próximo fim-de-semana vai jogar em Alvalade e voltou sucumbir. Em todos estes jogos foi notória a ansiedade e nervosismo, por outras palavras, aquilo que já aqui apelidei de fibra de campeão. O expoente máximo desta falta de estofo aconteceu no último jogo, no qual, a precisar de ganhar, o FC Porto desperdiçou os últimos 5 minutos do tempo regulamentar em confusões junto ao seu próprio banco. Isto seria impensável no passado. Era uma vez um campeão?
O FC Porto, desde há muito tempo, tem vindo a ter plantéis mais caros que os rivais e isso diferenciava-o e permitia-lhe uma enorme vantagem competitiva. Nos últimos anos o preço elevado dos plantéis mantém-se mas a vantagem competitiva esfumou-se. O FC Porto paga mais por plantéis menos competitivos do que o seu rival. Algo está mal e algo tem que ser alterado porque os insucessos somam-se e as contas estão na corda bamba. Era uma vez um campeão?
Foto de Capa: FC Porto
Esvaziado o lado emocional e psicológico onde o FC Porto tem vindo a falhar sucessivamente, passo agora a explicar a abordagem que fiz às tais “altas instituições reguladoras”. Idos vão os tempos em que os árbitros demonstravam respeito pelo clube. E quando falo em respeito não tenho qualquer tipo de constrangimento em substitui-lo por receio.
Antes não havia a coragem de prejudicar o FC Porto de forma tão sistemática. Antes os árbitros pensavam três vezes antes de prejudicar o Porto. Aos mais surpreendidos por me verem escrever isto, não confundam estas palavras com corrupção ou pagamentos em troca de benefícios, não é nada disso que se trata. Trata-se de poder e proximidade com o mesmo.
Eu não concordo que seja este o modus operandi do futebol e lamento que assim seja, mas não posso ser ingénuo ao ponto de acreditar que este desporto apenas se joga dentro das 4 linhas. O que se passou é que o FC Porto, muito por culpa própria e dos seus dirigentes, perdeu essa força no nosso futebol e foi substituído pelo SL Benfica.
Não há que ter receio em dizer as coisas como elas são. Hoje o Benfica é o “dono disto tudo”. E é por isso que Hugo Miguel não teve dúvidas em apontar para a marca dos 11 metros em Braga por mão de Óliver e que Jorge Sousa, no derby entre Benfica e Sporting, teve as mesmas certezas ao não o fazer no “bitoque” de Pizzi.
Atenção, não estou a dizer que foram más decisões, não estou a fazer esse tipo de julgamentos agora. Apenas a espelhar dois momentos que são sintomáticos. A quantidade de grandes penalidades que ficaram por assinalar a favor do FC Porto esta temporada é outro exemplo do novo paradigma.
É por esta nova ordem instalada no futebol português, esta nova lógica de poder, que, na semana passada, Luisão e Samaris passaram incólumes por um jogo que mais parecia pugilato e, no sábado, Brahimi foi prontamente expulso por palavras dirigidas ao árbitro. Mas alguém acredita que Hugo Miguel teria a coragem de fazer o mesmo a um jogador do Benfica? Ou a um jogador do FC Porto há meia dúzia de anos atrás? O futebol português mudou, as dinâmicas de poder mudaram e o FC Porto só se pode queixar de si próprio. Era uma vez um campeão?

Fonte: FC Porto
Por fim, abordar um tema quente dos últimos dias. Antes de mais, dizer que é lamentável e vergonhoso a alusão por parte da claque do FC Porto à Chapecoense e ao Benfica no tal cântico que já se tornou viral.
Ressalvar que repudio veemente esse tipo de cânticos como de qualquer outro cântico insultuoso que os Super Dragões tenham vindo a entoar ao longo dos anos. Agora, é surpresa para alguém que a imprensa portuguesa tenha aproveitado tudo isto para denegrir e atacar sem dó nem piedade o clube? O FC Porto sempre teve, pelo menos desde que me lembro, uma imprensa mais do que hostil.
Sempre existiram, em Portugal, dois pesos e duas medidas no trato dado pelos media ao FC Porto e aos clubes de Lisboa. Esse facto sempre foi um dos combustíveis mais eficazes do nosso clube. Desde que me lembro que essas manobras de diversão eram aproveitadas pelo clube para se superar, para revitalizar o balneário, para animar as hostes.
Então porque estamos todos indignados por a imprensa dar maior cobertura a estes cânticos em ralação aos cânticos dos adeptos benfiquistas sobre o trágico acidente do Verylight 96? Toda a vida foi assim mas também já passou o tempo em que uma estrutura e um clube altamente profissionalizados faziam uso desse desrespeito para se agigantarem. Pela quarta vez: Era uma vez um campeão?
Antes de ser acusado de “deitar a toalha ao chão”, terminar dizendo que acredito cegamente no título e acreditarei sempre enquanto for possível mas escrevi este artigo emocionado para deixar a ressalva de que, aconteça o que acontecer, seja o FC Porto campeão ou não, há muito trabalho pela frente, é imperativo reformular e reestruturar o clube e promover uma alteração de mentalidades. Eu acredito.
Foto de Capa: FC Porto












