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Entre 2001 e 2007, o “Ferrari” Maciel espalhou o “terror” no campeonato português, serpenteando pelas defesas adversárias com recurso à sua velocidade estonteante. Hoje em dia, é nas areias da praia de Cabo Frio que partilha a sua magia com os alunos no seu Centro de Treinos de Futevólei. De sorriso rasgado e com um físico invejável para os seus 41 anos, Maciel recordou, de forma descontraída, os anos dourados e os pontos mais altos da sua carreira. O “pai” Mourinho que o levava ou queria levar para todo o lado para onde fosse, incluindo o Chelsea, onde disputaria o lugar com Robben. O porquê de Silas ter sido o melhor jogador com quem jogou, a nega ao SL Benfica, a oposição à naturalização por parte de jogadores estrangeiros, a discussão com o “incompreensível” Vitor Fernandez, a experiência com Jorge Jesus em Leiria, os sucessivos passos atrás na carreira e a possibilidade de regressar aos relvados. Não perca tudo em mais um exclusivo Bola na Rede.
– Início de carreira e chegada a Portugal pela mão de Mourinho-
“A forma dele [José Mourinho] tratar os atletas era muito diferente da dos outros treinadores que eu tinha passado”
Bola na Rede [BnR]: Antes de mais, preferes que te trate por “Ferrari” ou por Maciel?
Maciel [M]: Você é que sabe, está à vontade (risos).
BnR: O que é que o jovem Maciel de 22 anos fez no jogo Volta Redonda contra o Flamengo para convencer José Mourinho a não hesitar em assegurar a sua contratação?
M: (risos) Nesse jogo o Flamengo tinha dois zagueiros excecionais, o Gamarra e o Juan. Eu, juntamente com o Robson, fomos o destaque desse jogo e isso foi fundamental. Eu também tinha acabado de ser o artilheiro da seletiva do campeonato Carioca e acho que o Mourinho já me vinha acompanhando nos outros jogos porque ele era muito detalhista. Acho que ele fez essa escolha por eu ser um jogador extremamente rápido.
BnR: O sonho de fazer vida do futebol surge no Volta Redonda ou ainda antes disso?
M: Surgiu antes, surgiu no Cruzeiro em 1997 em que eu fui para o Expressinho (Equipa B), onde tinha craques como o Dida e o Geovanni (ex-Benfica) ainda como juniores e depois passei pelo Guarani de Divinópolis, Social de São João Del-Rei, Ituano, União São de Araras, Bangu até chegar ao Volta Redonda. No Ituano consegui ser artilheiro da Copa São Paulo onde fiz 8 golos, 5 golos só num jogo em que bati o recorde. Por isso já tinha uma experiência muito grande. Era jovem, mas tinha uma subida de segunda divisão mineira e mesmo com idade de junior eu já vinha jogando profissionalmente.
BnR: Na fase inicial da tua carreira, passas nos testes para assinar pelo Cruzeiro, mas por “motivos políticos” acabas por não ficar. O que aconteceu?
M: Foi um momento difícil! O meu pai tinha-me levado ao José Perrella, que era o presidente do Cruzeiro, passei nos testes e até cheguei a fazer golo logo no dia, mas eu acho que o Alexandre Barroso, que era treinador dos juniores do Cruzeiro não gostou muito de eu estar no Expressinho e não nos Juniores e desceu-me para os juniores. As palavras dele foram que tinham muitos jogadores ali que eram melhores do que eu e que não poderia ficar comigo e a situação financeira do clube não estava boa. Na altura o diretor disse para eu não desistir e acabou me mandando para o Social de São João Del-Rei e num jogo da Taça jogamos contra o Cruzeiro, perdemos 4-3 e eu fiz três golos. Ele me pediu de volta, mas eu disse “Agora não, só pagando”. Depois houve a situação da Taça São Paulo em que o Cruzeiro novamente me queria comprar, ofereceu 800 mil reais. Nessa altura, o Reinaldo Pitta, que era o agente do Ronaldo “Fenómeno” me comprou e eu recebo a chamada do Presidente do Cruzeiro a perguntar o que é eu estava a fazer no Ituano e porque é que eu não estava no Cruzeiro. Nem ele sabia que eu tinha sido mandado embora. Mas sempre ergui a cabeça e continuei buscando o que eu queria, a minha meta era ser jogador de futebol, ajudar os meus pais, juntamente com a minha esposa e os meus filhos.
BnR: O Leiria abre-te as portas para Portugal em 2001/02. Como foi a adaptação ao futebol português?
M: Eu não senti muita diferença. Eu era um jogador rápido, vinha com uma experiência muito grande em termos de jogar em clubes pequenos, de lutar sempre e também tinha o timing de fazer golos. A minha maior adaptação foi taticamente e disciplinarmente porque eu era um jogador muito indisciplinado, dentro e fora do campo, em termos de passar a bola e aprendi muito, tanto com o José Mourinho como com os outros treinadores. Vítor Oliveira, Vítor Pontes, José Gomes, Manuel Cajuda, Mário Reis, Paulo Duarte, Jorge Jesus, entre outros. Foram treinadores que, disciplinarmente, me ajudaram a adaptar mais rápido ao futebol português.

BnR: Na tua época de estreia fazes 10 golos e formas um trio atacante de luxo com Jacques e Derlei. Qual era o segredo por de trás do vosso entendimento?
M: Dentro e fora de campo, todo o grupo era amigo e eu já sabia como eles se movimentavam. Às vezes o Mourinho dizia aos outros jogadores: “pega a bola e joga até a bandeira que ele chega”. E eu já combinava com o Derlei e o Jacques: “Quando eu der o ‘tapa’ e arrancar, um entra para fazer o golo e outro espera na marca do penalty. O Jacques também tinha que fazer golos com a cabeça daquele tamanho (risos).
BnR: Com José Mourinho no comando, o Leiria a meio da época estava no quarto lugar a lutar pelo pódio. Tive a oportunidade de entrevistar o Derlei, que me disse que “Quando Mourinho assumiu a equipa do União de Leiria, ele já conhecia muito bem os jogadores individualmente”. Sentiste que se tratava de um treinador especial?
M: Nós sentíamos que era um treinador diferente. Ele conseguia conversar com os treinadores e expressar aquilo que os jogadores queriam ouvir. Existem treinadores que quando você erra alguma coisa ele grita e o Mourinho “batia e assoprava” ao mesmo tempo. Nós conseguíamos entender o modo que ele queria jogar e ele era especial nessa forma de tratar os atletas. A forma dele tratar os atletas era muito diferente da dos outros treinadores que eu tinha passado. Foi uma pessoa que a gente se apegou muito e os jogadores acabaram-se unindo e fazerem o que ele pedia taticamente. Tanto que os treinamentos dele eram totalmente diferentes. Os treinamentos que hoje andam por aí, já ele fazia em 2000/01 com a escola de Van Gaal e Bobby Robson. Escolheu a dedo grandes atletas de equipas pequenas e fez uma grande equipa.
BnR: Foi nessa primeira época que Mourinho começou a tratar-te por “ciclista”?
M: (risos) Não, até foi antes numa pré-temporada. Ele até avisava os juízes e os bandeirinhas para ficarem atentos comigo porque eu era muito rápido e às vezes eles levantavam a bandeira e eu ainda estava muito atrás (risos). Ele sabia que eu corria bem e nos treinamentos eu me dedicava o máximo porque eu sabia que numa fugida de bola eu conseguiria colocar um companheiro na cara do golo e até decidir o jogo.
BnR: Nesses primeiros três anos que estás em Leiria, cruzas-te com grandes figuras do nosso campeonato: Nuno Valente, Silas, Derlei, Tiago, Hugo Almeida, Helton…
M: Ainda tens o Bilro, o Leão,…
BnR: Se eu os dissesse a todos não saíamos daqui tão cedo (risos). Se só pudesses escolher um, qual escolherias como o melhor jogador que te cruzaste em Leiria?
M: Acho que foi o Silas. Era um jogador espetacular porque todo o jogador como eu que joga na frente, gosta de ter um jogador inteligente no meio-campo. Quando ele pegava a bola ele já sabia os meus movimentos ao tempo. Ele já falava para mim: “Pode ir que eu vou meter a bola, já te estou vendo faz tempo”. Foi um achado que o Mourinho conseguiu ter na equipa e para mim foi um pecado ele não ter ido na época à seleção portuguesa, apesar de na seleção terem muitos craques. Era um jogador que se estava destacando e era fenomenal.
BnR: Fazes três épocas de alto nível em que marcas cerca de 30 golos ao serviço do Leiria, o que corresponde a uma fatia muito grande do total de golos da tua carreira. Consideras que esta primeira passagem pelo Leiria correspondeu aos anos mais dourados da tua carreira profissional?
M: Acho que sim. Foram anos em que eu me motivei muito, eu tinha sonhos de fazer um grande campeonato, talvez um dia vestir a camisa da seleção brasileira. Muitos atletas aí sonham vestir a camisa da seleção portuguesa. Eu sempre me auto-critiquei e critiquei muitos atletas por causa disso porque eu acho que é errado um brasileiro ou de qualquer outra nacionalidade tirar uma vaga de um português e tirar o sonho de uma criança portuguesa. A mesma coisa no Brasil, uma criança brasileira vendo um português jogando na seleção brasileira. E não é pelo jogador ser ruim ou ser bom é mais por questão de carisma. As crianças nascem com sonhos, então se eu tenho potencial para jogar na minha seleção, eu quero jogar na minha seleção. Se eu tenho potencial para jogar na seleção portuguesa, eu sei que também há jogadores portugueses que também têm. Até a própria Federação Portuguesa tem de pensar sobre isso. Na época eu recebi a proposta de naturalizar português e não quis nesse termo. Portugal abriu-me as portas e deu-me tudo e a minha gratidão pelo povo português e pelas pessoas que me apoiaram, mesmo as que não apoiaram, é muito grande. Não seria certo eu vestir a camisa de Portugal tirando o sonho das crianças.
BnR: Há uns tempos li uma entrevista em que o Alan disse que esteve muito perto de assinar pelo FC Porto em 2003/04, mas o Mourinho acabou por escolher-te a ti que conhecia melhor. Mas na altura a tua transferência esteve em risco de cair, não é verdade?
M: Teve muitas complicações. Eu tinha o Benfica, tinha o Estugarda e tinha o Porto e o presidente João Bartolomeu falou para mim que estava tudo acertado com o Benfica, mas eu tinha dado a minha palavra ao Mourinho e para o próprio Presidente Pinto da Costa, juntamente com o meu empresário da época Jorge Baidek. O Mourinho me ligou e perguntou como é que estava e eu falei “Estou pronto!”. Antes de ele ter saído do Leiria ele falou que me ia levar para lá. Complicou um pouco porque o Bartolomeu não queria vender, não queria deixar eu sair, só se fosse por mais dinheiro ou até com mais jogadores envolvidos, queria o Hugo Almeida, o Tiago, acho que o César Peixoto e o Serginho. Ele queira três ou quatro jogadores mais o valor da negociação e eu até fiquei meio chateado e fiquei um tempo sem treinar, mas da minha parte não deveria ter acontecido. Quando ficamos maduros, sabemos que fizemos coisas erradas. Na verdade, eu devia ter sido profissional, continuar a treinar e ter deixado eles resolver a situação. Talvez se eu tivesse tido a minha mentalidade de hoje, estaria jogando até hoje aí, numa segunda ou terceira divisão, quem sabe. Eu fiquei esse tempo sem jogar, retornei ao Leiria e voltei a jogar, o Mourinho ligou-me a pedir para eu ter calma e para jogar que ia dar tudo certo. Voltei a jogar bem, mesmo com esses problemas todos quando eu entrava dentro de campo eu esquecia tudo, tudo deu certo e eu acabei indo para o FC Porto.
– A famosa medalha da Champions e a possibilidade de ter ido para o Chelsea –
“Aqui é Porto. Aqui tem de ganhar”.
BnR: Chegas ao FC Porto a meio da época de 2003/04 e integras um plantel que tinha vencido a Taça UEFA, lutava para ser campeão nacional e já começava a traçar uma caminhada gloriosa rumo à conquista da Champions. Sentiste pressão em integrar esse plantel de craques ou sentias que estavas pronto e que tinhas qualidade suficiente para integrar a equipa?
M: [Maciel abana a cabeça relembrando a qualidade da equipa] É verdade… Eu já vinha reparado no FC Porto jogando há muito tempo, a questão era em qual lugar é que o Mourinho me ia encaixar porque o plantel era tão bom. Tinha muitos craques e o meu “negócio” era rebentar nos treinos e nos jogos. No jogo da estreia tive a felicidade de jogar muito bem, estava muito bem a nível físico e mental, então isso ajudou muito na minha estreia frente ao Paços de Ferreira. O próprio Presidente Pinto da Costa também me elogiou e isso me motivou, a partir daí caminhei para jogar já com a confiança do Mourinho. Eu também já conhecia muita gente. Conhecia o Deco, o Derlei, o Nuno Valente, o Tiago e também já tinha jogado contra os outros jogadores e eles já sabiam da minha qualidade, sabiam que não podiam “piscar” quando jogavam contra mim. A única coisa que me pediram, até o Jorge Costa me pediu, foi “Faz a mesma coisa que você fazia lá”.
BnR: O facto de chegares a meio da época condicionou a tua integração ou, os jogadores mais experientes como Vítor Baía e Jorge Costa, ajudaram na mesma à tua adaptação e conseguiram transmitir a famosa mística?
M: Ajudaram muito. Fui bem recebido pelo Vítor Baía, Jorge Costa, o próprio Costinha, o Maniche também gostava muito dos brasileiros, Sérgio Conceição, Pedro Emanuel, o Nuno Espírito Santo. Eu tinha um carisma muito grande e as pessoas gostavam de mim rápido. Conversavam comigo diariamente sobre como é que eu me estava sentindo no clube e falavam que “Aqui é Porto. Aqui tem de ganhar”. Sempre me passaram isso, em todos os jogos e todos os treinos: treina como joga e joga mais ainda do que treina. Comecei a adaptar-me a isso e comecei a jogar sabendo que qualquer falha que eu tivesse tinha logo outro atrás de mim para tentar pegar meu lugar, em termos de qualidade tinha muitos jogadores bons.
BnR: Satisfaz-me aqui a curiosidade. O Derlei em entrevista disse-me que “o melhor craque com quem eu joguei na minha vida, o cara que era um Maradona e um Zidane era o Deco”. Tu que também privaste com ele, sentias que era um jogador acima dos restantes?
M: O Deco era um jogador fantástico e podia esperar que ele resolvesse em qualquer instante. Ele sabia esconder bem a bola quando caía no pé dele e era uma pessoa fenomenal. Lembro de um jogo que jogamos contra o Boavista e o Mourinho “pegou muito no meu pé” e o Deco chegou em mim e disse “Você está correndo e movimentando o jogo todo, está criando espaço para a gente jogar, não se preocupe que a gente vai jogar e ganhar”. Era um jogador que para além de jogar, conseguia controlar a emoção dos outros atletas. A confiança nele era tão grande que quando a bola não passava nos seus pés, o jogo parecia que era outro.
BnR: Ainda para mais tu que gostavas de jogar com jogadores inteligentes no meio-campo, era difícil pedir melhor do que o Deco.
M: (risos) Com certeza. Eu costumo dizer que o Deco e o Silas tinham essa mentalidade e inteligência parecidas. A gente podia-se movimentar que eles já estavam vendo faz tempo. Só precisávamos de fazer a movimentação que já sabíamos que a bola ia chegar. Era fácil jogar com os dois. O Deco era comparado entre os fenómenos do futebol como o Zidane, entre outros.
BnR: Acabas por não poder disputar a Champions porque já tinhas jogado na Taça UEFA pela União de Leiria nessa temporada. Apesar de Pinto da Costa ter-te dado na mesma uma medalha, sentiste alguma mágoa por não poder contribuir para um dos momentos mais marcantes da história do clube?
M: Eu fiquei feliz porque na final eu estava lá, junto com o grupo, dentro do vestiário, comemorando dentro do campo. Foi uma felicidade muito grande, sinto que fiz parte e que ajudei do meu jeito. Lembro que estava no vestiário eu e o Bruno Moraes e fiquei feliz com a homenagem do presidente. Quando somos um grupo não importa quem está jogando ou quem está fora, o importante é a união da equipa e todos ganharam juntos e fizeram parte, desde o varredor do banheiro ao que jogou e ao que não jogou, por isso é que foi tão vitoriosa a conquista.

BnR: Na tua época de estreia fazes 21 jogos e assinalas 3 golos. Que momentos guardas dessa primeira época no FC Porto?
M: Vivi momentos muito importantes e quando entrava dentro de campo a torcida gritava “Ferrari”, como você falou. Teve uma época em que a torcida em todos os jogos falava que eu é que ia decidir e que ia fazer golo. Era um apoio muito importante e uma coisa maravilhosa na minha vida.
BnR: Sentias-te acarinhado ou eram muito exigentes contigo e com o resto do plantel?
M: Eu me sentia abraçado por eles. Eles eram muito exigentes porque eles queriam ver o clube ganhar, não gostam de ver o FC Porto perder. É uma torcida que ama o clube com todo o coração e quando vêm atletas que conseguem render mais, eles puxam pelo atleta até o atleta dar o seu último suor e isso era muito importante para mim.
BnR: Quando José Mourinho sai para Inglaterra, chegou-se a falar da tua possível ida com ele. Quão perto estiveste de ir para o Chelsea?
M: Quando ele foi para o Chelsea ele me ligou no momento em que o FC Porto falou do meu empréstimo para o Vitória de Guimarães. Ele me ligou, falou que tinha lá o Robben, que eu era um dos melhores atletas que ele tinha treinado, que eu tinha as características do Robben e que estava precisando de um atacante. Com certeza que eu iria, mas os jogadores brasileiros tinham que passar pela seleção brasileira ou ter jogado no campeonato inglês. E eu não essa passagem em nenhum dos dois (risos). Acabou não dando certo, mas fiquei feliz em ele se ter lembrado de mim para me tentar contratar.
BnR: Com sorte até te tinha levado para o Real Madrid, ele levava-te para todo o lado. (risos)
M: (risos) Eu vou-te falar. Quando eu fui aí na morte do pai dele, quase chorei com o que ele falou para mim. Ele falou “Veio aqui jogar bola? Quer jogar bola de novo? Posso te levar para o Manchester United”. E eu falei “Deve estar a gozar comigo, está de sacanagem”. Até o Rui Faria disse “Vais jogar, estás fininho e magrinho ainda”. Aí eu falei “Deixa para lá, já parei há muito tempo” (risos). A gente fica feliz, era um momento triste, mas a gente fica feliz.
– A discussão com Vitor Fernandez e a intransigência do FC Porto na sua saída –
“Vitor Fernandez queria se desfazer dos atletas que o Mourinho trouxe”
BnR: No ano seguinte, o FC Porto vive um ano muito instável no pós-Mourinho e acabas por fazer apenas dois jogos com Victor Fernandez e Del Neri. Qual destes dois treinadores prejudicaram mais a tua segunda e última época no FC Porto?
M: O Victor Fernandez foi quem me prejudicou mais. Eu tive uma discussão muito grande com ele. Eu acho que fui o único jogador que teve a discussão mais forte com ele. Comigo parecia que era perseguição. Lembro que teve um jogo amistoso contra a equipa B do Porto, eu fiz um golo de meia bicicleta, até o Pinto da Costa estava assistindo e eu gritei na cara do treinador “Joguei e vou jogar. Se você não me quiser colocar o problema é seu porque eu vou continuar aqui treinando para o resto da vida”. No outro jogo da Taça ele me colocou contra o Vitória de Guimarães e ele “puxava o saco” para o lado do Quaresma e do Postiga. Não sei se era pelo facto de ser o mesmo empresário e o meu empresário era diferente, só sei que comigo ele não queria mais nada. Houve um treino em que saiu a convocatória e eu não fui convocado e o Vítor Baía e o Jorge Costa me pediram calma. Eu falei “Eu sou homem, eu sei o que eu fiz no campeonato passado, eu sei o que eu fiz no União de Leiria, eu sei da minha qualidade, ele trouxe o Quaresma tudo bem a gente pode disputar a posição, ele pode trazer outro atleta também não tem problema, mas eu não acho bem o que ele está fazendo comigo”. Ele nem olhava na minha cara, ele estava no FC Porto com os jogadores que tinham ganho tudo, o que parecia para muitos jogadores como eu e o Benni Mccarthy, era que ele queria se desfazer dos atletas que o Mourinho trouxe. Talvez tenha mandado o Jorge Costa e o Vítor Baía porque eles já estavam há muitos anos no clube. Eu fui lá na sala dele, chamei alguém para traduzir e perguntei para ele: “Você tem algum problema comigo? Se tiver me fala que eu vou embora, não tem problema. Eu estou aqui no FC Porto para jogar e para contribuir. Eu sei que não tenho o direito de chegar a você e pedir para você me pôr a jogar, mas pelo menos tem que me dar alguma satisfação”. Mas ele não falava nada, completamente nada. Era um treinador que tinha uma cultura completamente diferente do que eu te falei antes, de quando cheguei a Portugal em relação aos treinadores portugueses. Pelo menos os treinadores portugueses, quando me tiravam e me colocavam tinham coragem para dizer “Maciel, hoje você está mal. Hoje não foi um bom dia. Vai ficar de fora porque não jogou bem, então busque novamente a sua vaga que você vai jogar”. E ele [Victor Fernandez] não teve a coragem de falar e isso me dececionou muito. Eu comecei a perder a vontade de jogar mais.
BnR: Acabava por faltar motivação…
M: Faltava motivação, eu não treinava bem e não corria. O pior disso tudo é que eu não tinha ninguém perto para conversar comigo. Acho que a única pessoa que conversou uma ou duas vezes comigo foi o Antero Henriques, mas eu já tinha falado para ele “Isto aqui é mesmo jogada de empresário, você sabe disso. Eu sei que tem muitos jogadores aqui de um empresário só, meu empresário é outro e ele não me vai colocar a jogar”. Ele falou para eu ter calma, o próprio Secretário disse para eu ter calma. Mas eu falei “Não tenho mais paciência para isso porque de onde eu saí, eu busquei tudo que eu tenho hoje com o meu suor e o meu talento”. A partir do momento em que eu o vejo me deixando de lado, eu não ia ficar ganhando dinheiro “roubando”, por isso era melhor eu ir para outro clube, para jogar e ser visto, porque o jogador que não é visto não vale a pena ficar no clube.
BnR: Algo de muito estranho teve de acontecer para que uma equipa que no ano anterior vence a Champions no ano seguinte acaba por nem ser campeã nacional…
M: Uma coisa que eu vi que não me entrou muito bem na cabeça foi quando o Deco foi para o Barcelona, o Carlos Alberto era o craque da equipa e tinha tudo para assumir o meio-campo, ele tirou o Carlos Alberto do nada e colocou o Diego. Não tenho nada contra o Diego, mas o Carlos Alberto naquela época estava jogando muito mais e estava muito bem adaptado ao futebol português. Até o próprio Luís Fabiano. Como é que você vai comparar o Luís Fabiano com o Benni Mccarthy, que era um ídolo do clube e o deixa sair para trazer o Luís Fabiano que, com todo o respeito a ele que é meu amigo, jogou 30 jogos e fez um golo? Como é que ele o conseguiu manter 30 jogos, ele faz um golo e não dá oportunidade para os outros? Mas seguiu a vida. No momento em que o Jesualdo chegou eu já estava saindo, o próprio Jesualdo falou comigo e disse “Eu queria que você ficasse, mas a diretoria já me falou que você já está indo embora. Você era uma peça que eu queria aqui no clube”. Para você ver a diferença do treinador português. Eu fiquei muito feliz pelo respeito e pela atitude dele.
BnR: Aquando da tua saída, tiveste perto de assinar pelo SC Braga e pelo Vitória de Guimarães, mas o FC Porto mostrou-se intransigente. Achas que a tua saída do clube foi mal gerida?
M: Primeiro teve o União de Leiria novamente, mas eu não queria voltar. Depois teve o Braga e o Vitória de Guimarães. Na proposta do Vitória de Guimarães estava tudo acertado. Eram três a quatro anos de contrato, eu aceitei a proposta, na altura até se falou nos jornais que eu não aceitei, era mentira, eu aceitei a proposta, era um salário bom e eu falei para as pessoas que eu queria jogar. O treinador era o Cajuda, um treinador que me conhecia bem, que depois me perguntou “Você não quis vir para cá?”, mas eu disse “Nada disso professor, eu sempre quis ir para aí”. Surgiu a oportunidade de ir para o SC Braga, o Salvador até já tinha falado comigo desde os tempos do FC Porto com o Mourinho e que um dia queria que eu jogasse no SC Braga. Como o FC Porto não aceitou a proposta do Vitória de Guimarães, eu acabei aceitando a proposta do SC Braga. Tive lá por empréstimo com opção de compra, mas o FC Porto acabou por não me vender. Não entendi o porquê de não terem aceitado a opção de compra, até que eles acabaram me liberando para o União de Leiria.
– Sucessivos passos atrás e a vontade de ter terminado carreira em Leiria –
“Eu não dei dois passos para a frente, dei vinte passos para trás”
BnR: O regresso ao Brasil, por empréstimo ao Atlético Paranaense, era algo que estavas a precisar para organizar as ideias ou foi a melhor solução naquele momento?
M: Não foi uma boa solução. Foi uma porta que abriu e que eu entrei e não correu bem. Não pelo Atlético Paranaense, mas sim por voltar ao Brasil, por dar um passo atrás. Pensei que ia dar um passo atrás e que ia dar dois passos para a frente, mas acabei só dando passos atrás. No Atlético Paranaense fui campeão Paranaense, fui vice-campeão da Libertadores, mas não adiantou muito no meu futebol, só no currículo. Até hoje a minha esposa fala comigo que não foi uma boa escolha ter voltado. É arrependimento que não volta atrás. Tinha proposta do Flamengo na época, Atlético Paranaense, Corinthians também, mas acabei escolhendo o Atlético Paranaense e depois voltei do empréstimo para o FC Porto.
BnR: No teu segundo empréstimo, regressas a uma casa que já conhecias bem, o União de Leiria, em que tens a oportunidade de te cruzares com outro grande treinador português: Jorge Jesus. Como é que foi ser treinado por JJ?
M: (risos) Ele tinha um apelido que ele não gosta de ser chamado: cavalo branco. Com aquele cabelão (risos). Para mim foi um grande treinador, taticamente é um treinador espetacular e conseguia colocar os jogadores para a tática que ele quer, tanto no ataque como na defesa e fazia isso como ninguém. Eu costumo dizer que isto que ele está a fazer no Flamengo ele já fazia no União de Leiria. Eu já falei com ele aqui, ele até falou para eu o ir visitar, mas acabei por não visitar até porque eu fiquei meio com vergonha porque ele acabou sendo campeão de tudo e de repente você chega lá e ele pensa ainda pensa “Está vindo aqui, agora que eu ganhei tudo”, então eu prefiro ficar mais na minha. Foi um treinador que marcou muito a minha carreira. Eu joguei 34 jogos com ele, era um treinador que tinha uma confiança muito grande em mim e me respeitava muito. Até no jogo do União de Leiria contra o FC Porto em que eu fiquei de fora ele conversou comigo porque ele queira que eu jogasse e bateu de frente com o Presidente e com todo o mundo para eu jogar, mas na hora do jogo o próprio João Bartolomeu entrou dentro do vestiário e pediu para eu não jogar. Não sei se você ia chegar a essa polémica ainda…
BnR: Sim, já lá vamos.
M: Então, o Jesus era um treinador em que, por exemplo, a gente ia jogar amanhã de tarde ou à noite, de manhã no dia de jogo a gente treinava. Ele não gostava de tomar golos de cabeça, ainda hoje ele não gosta. Nós assimilamos muito bem as ideias dele e fizemos uma época ótima. Todos os treinadores eu falo que foram os meus pais no futebol porque me trataram super bem, todos os que eu passei aí em Portugal, sem exceção…
BnR: Até o Vítor Fernandez? (risos)
M: Não, esse aí não (risos). Até o Del Neri, que não sabia falar português, gostava mais de mim do que ele. Como é que é possível? Não fale desse nome, está proibido (risos).
BnR: Consegues apontar alguma semelhança no método de trabalho entre JJ e Mourinho?
M: Não são muitas. Mas em termos táticos são parecidos. Acho que aqui no Brasil ainda não entenderam o jogo do Jesus, eu como joguei com ele já entendi. Joga com dois extremos, com o ponta de lança voltando até ao volante para marcar, basicamente quase todos os treinadores portugueses faziam isso aí, só que não tinham jogadores que conseguiam fazer o que eles pediam. Em termos de ensinar taticamente e de conseguir entrar na mente do atleta para praticar um bom futebol, Jesus e Mourinho acabam por ser parecidos.
BnR: Voltando ao jogo polémico falado em cima. Naquela altura em que estavas emprestado pelo FC Porto ao Leiria, esse episódio foi muito falado. “Maciel quer jogar frente aos dragões’”, mas na altura acabaste por não ser utilizado. O que te recordas desse episódio?
M: Sabes o que aconteceu naquele jogo? Foi o seguinte. Eles falaram que eu ia jogar, depois falaram que eu não ia mais. No dia do treino eu falei com Jorge Jesus “Eu vou jogar Mister”. E ele “Então treina normal que você vai jogar”. Depois o Ibson, o Diego, o Alan e o Jorginho chegaram a falar comigo na escada do vestiário do Leiria e me disseram que o Co Adriaanse fez um treino em que a equipa de reserva colocou o equipamento do União de Leiria com colete branco, e ele colocou o Jorginho ou o Alan fazendo de Maciel contra a equipa titular do FC Porto. Disseram-me que a equipa de reserva ganhou 4-3 e o Jorginho, que fez de mim, fez três ou quatro golos, e então o treinador falou “O Maciel não vai jogar porque se ele jogar como o Jorginho nós estamos “mortos””. E eu falei com o Diego “O que é que isso tem a ver comigo? (risos) Ele falou que não tinha medo que eu jogasse e de repente fala para eu não jogar?”. Falaram para mim que foram ordens e nós como empregados temos que aceitar a atitude do clube. Mas fiquei chateado. Talvez nós não ganharíamos porque um jogador só não faz a diferença, mas eu estava num bom ritmo e eles precisavam de mim. Foi difícil para mim entender, mas depois eu entendi apesar de ter deixado um bocado de rancor nos dirigentes do FC Porto porque eu não obedeci e acabaram por ficar muito chateados.
BnR: Em Braga voltas a ter números interessantes, disputas a Taça UEFA e ficam no quarto lugar. Tivemos aqui o Quim em entrevista que nos disse “Acredito que, mais ano, menos ano, o Braga será campeão nacional”. Face à tua experiência em Braga, concordas com esta frase?
M: Naquele momento, se tivesse mantido a mesma equipa e contratando algumas peças, com certeza eles iam lutar pelo título. Nós não sabemos e no futebol acontece muita coisa. Agora o SC Braga é um dos grandes clubes aí, investe muito e escolhe jogadores detalhados.
BnR: Antes de deixares Portugal, tens uma última passagem por Leiria. Foram três passagens pelo U.Leiria em fases distintas da tua carreira. É um clube que tem um lugar especial no teu coração?
M: Eu acho que sou o segundo maior goleador de todos os tempos do clube, acho que o Derlei deve ter três golos a mais do que eu e não sei se alguém já passou. Quando eu fui aí até falei que era um clube onde eu gostava de terminar carreira, mas não me deram oportunidade. Guardo sempre a cidade, os torcedores e o clube. Eu quando cheguei ao clube, o clube ainda não tinha aquele estádio todo, as bancadas ainda eram de madeira. Marcou-me muito porque foi uma porta que abriu para eu entrar em Portugal e lutei por esse clube, dei o meu máximo juntamente com a equipa. Só saía quando estava lesionado e mesmo assim ainda queria jogar (risos).

Fonte: O Blog do David
BnR: Viste o clube crescer e cresceste com o clube.
M: Isso mesmo. Os outros jogadores foram saindo e deixaram eu, o Silas e outros lá para trás. Tínhamos grandes jogadores o Luís Vouzela, o Leão, Zezinho, Tozé…
BnR: É pena o que aconteceu ao clube…
M: Se eu tivesse dinheiro comprava o clube (risos)
BnR: Depois de sete anos em Portugal, fazes as malas para o Xanthi. Porque é que ir para a Grécia foi um “erro fatal”?
M: Quando uma pessoa não tem um doutor ou alguém para nos orientar, as pessoas fazem coisas que nem imagina. Nessa época veio uma equipa do Chipre, veio essa equipa da Grécia e tinha também o Nacional da Madeira que estava interessado em mim. Acho que fiz uma escolha de “olho fechado”. Fiz uma escolha má e com essa escolha eu não dei dois passos para a frente, dei vinte passos para trás. Acabou não dando certo e acabei não entendendo a língua. Eu estava muito bem fisicamente na pré-temporada e tinha um treinador grego muito experiente que dizia ao tradutor que gostava muito de mim, mas ele acabou saindo do clube nos dois primeiros jogos e acabe jogando poucos jogos. Rescindi o contrato e vim embora para o Brasil, que foi um dos maiores erros da minha vida. Vim para cá e acabei por jogar só em clubes pequenos, com promessas do empresário Maurício Narciso que foi dos piores empresários que eu tive na minha carreira. Tinha deixado o Baidek e o Baidek nunca me deixou faltar nada, sempre me ajudou, o erro foi meu. Se eu tivesse continuado com ele, talvez eu tivesse ficado aí até hoje. Quando o Maurício Narciso tentou cuidar da minha carreira, acabou cuidando mal. Prometeu-me outros clubes grandes aqui no Brasil e me colocou em clubes de menor expressão.
– Vida atual e a possibilidade de regressar aos relvados –
“Acho que o futebol português caiu muito de qualidade em termos de clubes grandes”
BnR: A tua vontade era de terminar a carreira em Portugal?
M: A minha vontade era essa. Agora tenho sonhos maiores de ver os meus filhos jogarem. Tenho um filho português e outro grego.
BnR: Alinhas em nove clubes diferentes entre 2008 e 2015, com alguns momentos altos e muitos momentos baixos. Nesse período, perdeste o encanto pelo futebol?
M: Comecei a perder quando o meu agente me colocou na cidade onde estou hoje, Cabo Frio. É uma cidade maravilhosa, cidade linda, mas quando ele me colocou no clube e eu vi as condições, comecei a desanimar com o futebol. Vi que não era aquilo que eu queria. Parecia que eu estava retrocedendo, voltando atrás desde o começo antes de ir para Portugal, a tentar buscar tudo de novo. Não tinha como buscar tudo de novo. Talvez se eu tivesse num clube de maior expressão aqui no Brasil, com certeza eu buscaria tudo mais rápido e mas fácil. Foi difícil, foi complicado chegar ao Cabofriense a meio do campeonato, com promessas desse empresário que me acabou deixando na mão e “meteu o pé”. Desanimei mais ainda. É assim mesmo, no futebol acontece dessas coisas.

Fonte: Guarany de Sobral
BnR: Se pudesses voltar atrás terias feito algo diferente?
M: A única coisa diferente que eu faria era ter permanecido a jogar em Portugal. Como eu consegui ser um dos melhores extremos no campeonato português. Na minha época eu acho que era mais difícil do que hoje. Na minha época estava surgindo Cristiano Ronaldo, Nani, Quaresma, Drulovic, João Pinto, grandes craques. Fui escolhido dois anos seguidos como melhor extremo, uma pelo FC Porto e outra pelo União de Leiria, ganhei até um prémio do golo mais bonito do campeonato. Sentia que fazia parte da história, na verdade eu fiz parte da história, pelo menos da história do Leiria. Talvez nisso teria voltado atrás para estar em Portugal.
BnR: Há dois anos atrás ainda mantinhas o sonho de voltar a jogar futebol. Agora com 41 anos ainda sentes que tens as condições físicas necessárias ou já pousaste as botas definitivamente?
M: Eu tenho uma condição física que muitos falam que é condição física de jogador de 25 anos. Recebi uma proposta de um clube de 3.ª divisão que vai disputar o Campeonato Carioca, o Araruama. Eu até aceitei a proposta, juntamente com o meu filho mais velho, mas com essa questão da pandemia acabou não acontecendo. Mas o treinador falou que conta comigo. Talvez eu volte jogando futebol, condições eu tenho de certeza. Talvez não tenha as mesmas condições de dez, quinze anos atrás, mas consigo ajudar o clube e o presidente que me fez esse pedido. Talvez eu voltarei sim. Eu tenho um Centro de treinamento de Futevólei e todos se perguntam como é que eu consigo jogar dez a doze partidas por dia mantendo o mesmo ritmo. Nunca deixei de ter vontade de treinar. Uma vez o Secretário mandou mensagem para mim “Você não fica velho? Não engorda?”. Receber elogios de alguém que já jogou no Real Madrid e no FC Porto é sensacional.
BnR: Sei que tens curso de treinador e que gostavas de um dia começar como adjunto numa equipa e ganhar experiência. Para quando podemos esperar o Maciel como treinador adjunto?
M: Eu tenho a carteira profissional de treinador de futebol. Vamos ver se aparece oportunidade, mas com esse centre de treinamento de futevólei eu estou mais preocupado em dar aula para os meus alunos. Se houver oportunidade no futebol, com certeza que eu vou passar o que aprendi com os melhores. Quando tiver oportunidade de pegar num clube, vou utilizar os melhores e vou fazer aquilo que os treinadores honestos fizeram comigo. Você coloca os melhores a jogar, não importa se o empresário dele é A ou B, porque um dia, esses mesmos melhores vão falar bem de você e vão perceber que você os ajudou honestamente e não por interesse algum.
BnR: Hoje em dia ainda tens algum contacto com Mourinho?
M: Hoje em dia não tenho muito. Eu também fico muito na minha, não fico procurando o contacto deles. Até com o Derlei é difícil que é um grande amigo meu, já faz um tempo que eu não falo com ele. Até com o Carlos Alberto que mora aqui no Rio, também não tenho muito contacto e também era uma pessoa que ficava na minha casa e eu ficava na dele. Eu fico mais na minha com a minha esposa e com os meus filhos, mas vai chegar uma hora que eu vou ter que aparecer. Vou ter que parar de passar despercebido.
BnR: Continuas a acompanhar o campeonato em Portugal?
M: Mais ou menos. Não me dá muita vontade de assistir. Acho que o futebol português caiu muito de qualidade em termos de clubes grandes. Vejo hoje em dia um FC Porto perdendo com um clube pequeno, sem tirar mérito aos clubes pequenos. Quando você via um FC Porto jogar com um clube pequeno, você já sabia que eram três pontos, principalmente em casa. Agora você vê clubes pequenos indo na casa do FC Porto, SL Benfica e Sporting CP, até do próprio SC Braga, que ganham aos grandes e que é o mesmo que ganhar a um clube pequeno. É uma mística que não pode acabar, acho que os clubes grandes têm de olhar melhor para as suas contratações porque muitas vezes os atletas que estão em clubes pequenos fazem melhor do que aqueles que vieram de clubes grandes. Tirar o exemplo de Mourinho e Cajuda.
BnR: Surpreendeu-te o sucesso de JJ no Brasil?
M: Não, não me surpreendeu a questão de ele pôr o Flamengo a jogar. Já sabia que era um excelente técnico e se os jogadores compreendessem o que ele queria dentro e fora de campo, com certeza que ele ia ter sucesso. Até mandei mensagem para ele antes de ele ter tido todas essas conquistas que dizia “Mister, se os jogadores fizeram tudo o que você pedir e se conseguir fazer com que os jogadores brasileiros, que são preguiçosos, corram e respeitem sua tática, com certeza tudo o que você pedir para eles vai dar certo”. E ele conseguiu entrar na mente deles e colocá-los a jogar.
Bate-Bola
BnR: Se não tivesses sido futebolista o que terias sido?
M: Futebolista na mesma (risos). Talvez seria médico, para salvar vidas.
BnR: Um grande amigo que guardas do futebol?
M: Derlei.
BnR: Leiria ou FC Porto?
M: Leiria.
BnR: Melhor golo que marcaste?
M: Foi um golo de bicicleta pelo União de Leiria que foi escolhido como melhor golo do campeonato contra o Moreirense.
BnR: Mourinho ou Jorge Jesus?
M: Mourinho.
BnR: Melhor guarda-redes com quem dividiste o balneário?
M: Costinha.
BnR: Melhor defesa?
M: Renato.
BnR: Melhor médio?
M: Maniche e Deco.
BnR: Melhor companheiro de ataque?
M: Derlei.
BnR: Melhor jogador com quem jogaste?
M: Silas.













