Anterior1 de 6Próximo

Entre 2001 e 2007, o “Ferrari” Maciel espalhou o “terror” no campeonato português, serpenteando pelas defesas adversárias com recurso à sua velocidade estonteante. Hoje em dia, é nas areias da praia de Cabo Frio que partilha a sua magia com os alunos no seu Centro de Treinos de Futevólei. De sorriso rasgado e com um físico invejável para os seus 41 anos, Maciel recordou, de forma descontraída, os anos dourados e os pontos mais altos da sua carreira. O “pai” Mourinho que o levava ou queria levar para todo o lado para onde fosse, incluindo o Chelsea, onde disputaria o lugar com Robben. O porquê de Silas ter sido o melhor jogador com quem jogou, a nega ao SL Benfica, a oposição à naturalização por parte de jogadores estrangeiros, a discussão com o “incompreensível” Vitor Fernandez, a experiência com Jorge Jesus em Leiria, os sucessivos passos atrás na carreira e a possibilidade de regressar aos relvados. Não perca tudo em mais um exclusivo Bola na Rede.

– Início de carreira e chegada a Portugal pela mão de Mourinho-

“A forma dele [José Mourinho] tratar os atletas era muito diferente da dos outros treinadores que eu tinha passado”

Bola na Rede [BnR]: Antes de mais, preferes que te trate por “Ferrari” ou por Maciel?

Maciel [M]: Você é que sabe, está à vontade (risos).

Anúncio Publicitário

BnR: O que é que o jovem Maciel de 22 anos fez no jogo Volta Redonda contra o Flamengo para convencer José Mourinho a não hesitar em assegurar a sua contratação?

M: (risos) Nesse jogo o Flamengo tinha dois zagueiros excecionais, o Gamarra e o Juan. Eu, juntamente com o Robson, fomos o destaque desse jogo e isso foi fundamental. Eu também tinha acabado de ser o artilheiro da seletiva do campeonato Carioca e acho que o Mourinho já me vinha acompanhando nos outros jogos porque ele era muito detalhista. Acho que ele fez essa escolha por eu ser um jogador extremamente rápido.

BnR: O sonho de fazer vida do futebol surge no Volta Redonda ou ainda antes disso?

M: Surgiu antes, surgiu no Cruzeiro em 1997 em que eu fui para o Expressinho (Equipa B), onde tinha craques como o Dida e o Geovanni (ex-Benfica) ainda como juniores e depois passei pelo Guarani de Divinópolis, Social de São João Del-Rei, Ituano, União São de Araras, Bangu até chegar ao Volta Redonda. No Ituano consegui ser artilheiro da Copa São Paulo onde fiz 8 golos, 5 golos só num jogo em que bati o recorde. Por isso já tinha uma experiência muito grande. Era jovem, mas tinha uma subida de segunda divisão mineira e mesmo com idade de junior eu já vinha jogando profissionalmente.

BnR: Na fase inicial da tua carreira, passas nos testes para assinar pelo Cruzeiro, mas por “motivos políticos” acabas por não ficar. O que aconteceu?

M: Foi um momento difícil! O meu pai tinha-me levado ao José Perrella, que era o presidente do Cruzeiro, passei nos testes e até cheguei a fazer golo logo no dia, mas eu acho que o Alexandre Barroso, que era treinador dos juniores do Cruzeiro não gostou muito de eu estar no Expressinho e não nos Juniores e desceu-me para os juniores. As palavras dele foram que tinham muitos jogadores ali que eram melhores do que eu e que não poderia ficar comigo e a situação financeira do clube não estava boa. Na altura o diretor disse para eu não desistir e acabou me mandando para o Social de São João Del-Rei e num jogo da Taça jogamos contra o Cruzeiro, perdemos 4-3 e eu fiz três golos. Ele me pediu de volta, mas eu disse “Agora não, só pagando”. Depois houve a situação da Taça São Paulo em que o Cruzeiro novamente me queria comprar, ofereceu 800 mil reais. Nessa altura, o Reinaldo Pitta, que era o agente do Ronaldo “Fenómeno” me comprou e eu recebo a chamada do Presidente do Cruzeiro a perguntar o que é eu estava a fazer no Ituano e porque é que eu não estava no Cruzeiro. Nem ele sabia que eu tinha sido mandado embora. Mas sempre ergui a cabeça e continuei buscando o que eu queria, a minha meta era ser jogador de futebol, ajudar os meus pais, juntamente com a minha esposa e os meus filhos.

BnR: O Leiria abre-te as portas para Portugal em 2001/02. Como foi a adaptação ao futebol português?

M: Eu não senti muita diferença. Eu era um jogador rápido, vinha com uma experiência muito grande em termos de jogar em clubes pequenos, de lutar sempre e também tinha o timing de fazer golos. A minha maior adaptação foi taticamente e disciplinarmente porque eu era um jogador muito indisciplinado, dentro e fora do campo, em termos de passar a bola e aprendi muito, tanto com o José Mourinho como com os outros treinadores. Vítor Oliveira, Vítor Pontes, José Gomes, Manuel Cajuda, Mário Reis, Paulo Duarte, Jorge Jesus, entre outros. Foram treinadores que, disciplinarmente, me ajudaram a adaptar mais rápido ao futebol português.

Fonte: Futebol Distrital de Leiria

BnR: Na tua época de estreia fazes 10 golos e formas um trio atacante de luxo com Jacques e Derlei. Qual era o segredo por de trás do vosso entendimento?

M: Dentro e fora de campo, todo o grupo era amigo e eu já sabia como eles se movimentavam. Às vezes o Mourinho dizia aos outros jogadores: “pega a bola e joga até a bandeira que ele chega”. E eu já combinava com o Derlei e o Jacques: “Quando eu der o ‘tapa’ e arrancar, um entra para fazer o golo e outro espera na marca do penalty. O Jacques também tinha que fazer golos com a cabeça daquele tamanho (risos).

BnR: Com José Mourinho no comando, o Leiria a meio da época estava no quarto lugar a lutar pelo pódio. Tive a oportunidade de entrevistar o Derlei, que me disse que “Quando Mourinho assumiu a equipa do União de Leiria, ele já conhecia muito bem os jogadores individualmente”. Sentiste que se tratava de um treinador especial?

M: Nós sentíamos que era um treinador diferente. Ele conseguia conversar com os treinadores e expressar aquilo que os jogadores queriam ouvir. Existem treinadores que quando você erra alguma coisa ele grita e o Mourinho “batia e assoprava” ao mesmo tempo. Nós conseguíamos entender o modo que ele queria jogar e ele era especial nessa forma de tratar os atletas. A forma dele tratar os atletas era muito diferente da dos outros treinadores que eu tinha passado. Foi uma pessoa que a gente se apegou muito e os jogadores acabaram-se unindo e fazerem o que ele pedia taticamente. Tanto que os treinamentos dele eram totalmente diferentes. Os treinamentos que hoje andam por aí, já ele fazia em 2000/01 com a escola de Van Gaal e Bobby Robson. Escolheu a dedo grandes atletas de equipas pequenas e fez uma grande equipa.

BnR: Foi nessa primeira época que Mourinho começou a tratar-te por “ciclista”?

M: (risos) Não, até foi antes numa pré-temporada. Ele até avisava os juízes e os bandeirinhas para ficarem atentos comigo porque eu era muito rápido e às vezes eles levantavam a bandeira e eu ainda estava muito atrás (risos). Ele sabia que eu corria bem e nos treinamentos eu me dedicava o máximo porque eu sabia que numa fugida de bola eu conseguiria colocar um companheiro na cara do golo e até decidir o jogo.

BnR: Nesses primeiros três anos que estás em Leiria, cruzas-te com grandes figuras do nosso campeonato: Nuno Valente, Silas, Derlei, Tiago, Hugo Almeida, Helton…

M: Ainda tens o Bilro, o Leão,…

BnR: Se eu os dissesse a todos não saíamos daqui tão cedo (risos). Se só pudesses escolher um, qual escolherias como o melhor jogador que te cruzaste em Leiria?

M: Acho que foi o Silas. Era um jogador espetacular porque todo o jogador como eu que joga na frente, gosta de ter um jogador inteligente no meio-campo. Quando ele pegava a bola ele já sabia os meus movimentos ao tempo. Ele já falava para mim: “Pode ir que eu vou meter a bola, já te estou vendo faz tempo”. Foi um achado que o Mourinho conseguiu ter na equipa e para mim foi um pecado ele não ter ido na época à seleção portuguesa, apesar de na seleção terem muitos craques. Era um jogador que se estava destacando e era fenomenal.

BnR: Fazes três épocas de alto nível em que marcas cerca de 30 golos ao serviço do Leiria, o que corresponde a uma fatia muito grande do total de golos da tua carreira. Consideras que esta primeira passagem pelo Leiria correspondeu aos anos mais dourados da tua carreira profissional?

M: Acho que sim. Foram anos em que eu me motivei muito, eu tinha sonhos de fazer um grande campeonato, talvez um dia vestir a camisa da seleção brasileira. Muitos atletas aí sonham vestir a camisa da seleção portuguesa. Eu sempre me auto-critiquei e critiquei muitos atletas por causa disso porque eu acho que é errado um brasileiro ou de qualquer outra nacionalidade tirar uma vaga de um português e tirar o sonho de uma criança portuguesa. A mesma coisa no Brasil, uma criança brasileira vendo um português jogando na seleção brasileira. E não é pelo jogador ser ruim ou ser bom é mais por questão de carisma. As crianças nascem com sonhos, então se eu tenho potencial para jogar na minha seleção, eu quero jogar na minha seleção. Se eu tenho potencial para jogar na seleção portuguesa, eu sei que também há jogadores portugueses que também têm. Até a própria Federação Portuguesa tem de pensar sobre isso. Na época eu recebi a proposta de naturalizar português e não quis nesse termo. Portugal abriu-me as portas e deu-me tudo e a minha gratidão pelo povo português e pelas pessoas que me apoiaram, mesmo as que não apoiaram, é muito grande. Não seria certo eu vestir a camisa de Portugal tirando o sonho das crianças.

BnR: Há uns tempos li uma entrevista em que o Alan disse que esteve muito perto de assinar pelo FC Porto em 2003/04, mas o Mourinho acabou por escolher-te a ti que conhecia melhor. Mas na altura a tua transferência esteve em risco de cair, não é verdade?

M: Teve muitas complicações. Eu tinha o Benfica, tinha o Estugarda e tinha o Porto e o presidente João Bartolomeu falou para mim que estava tudo acertado com o Benfica, mas eu tinha dado a minha palavra ao Mourinho e para o próprio Presidente Pinto da Costa, juntamente com o meu empresário da época Jorge Baidek. O Mourinho me ligou e perguntou como é que estava e eu falei “Estou pronto!”. Antes de ele ter saído do Leiria ele falou que me ia levar para lá. Complicou um pouco porque o Bartolomeu não queria vender, não queria deixar eu sair, só se fosse por mais dinheiro ou até com mais jogadores envolvidos, queria o Hugo Almeida, o Tiago, acho que o César Peixoto e o Serginho. Ele queira três ou quatro jogadores mais o valor da negociação e eu até fiquei meio chateado e fiquei um tempo sem treinar, mas da minha parte não deveria ter acontecido. Quando ficamos maduros, sabemos que fizemos coisas erradas. Na verdade, eu devia ter sido profissional, continuar a treinar e ter deixado eles resolver a situação. Talvez se eu tivesse tido a minha mentalidade de hoje, estaria jogando até hoje aí, numa segunda ou terceira divisão, quem sabe. Eu fiquei esse tempo sem jogar, retornei ao Leiria e voltei a jogar, o Mourinho ligou-me a pedir para eu ter calma e para jogar que ia dar tudo certo. Voltei a jogar bem, mesmo com esses problemas todos quando eu entrava dentro de campo eu esquecia tudo, tudo deu certo e eu acabei indo para o FC Porto.

Anterior1 de 6Próximo

Comentários

Artigo anteriorGP Estíria: Bem-vindo de volta às vitórias, Lewis Hamilton
Próximo artigoOs 5 jogadores que admiro no FC Porto
O Nélson é estudante de Ciências da Comunicação. Jogou futebol de formação e chegou até a ter uma breve passagem pelos quadros do grande Futebol Clube do Porto. Foi através das longas palestras do seu pai sobre como posicionar-se dentro de campo que se interessou pela parte técnica e tática do desporto rei. Numa fase da sua vida, sonhou ser treinador de futebol e, apesar de ainda ter esse bichinho presente, a verdade é que não arriscou e preferiu focar-se no seu curso. Partilhando o gosto pelo futebol com o da escrita, tem agora a oportunidade de conciliar ambas as paixões e tentar alcançar o seu sonho de trabalhar profissionalmente como Jornalista Desportivo.                                                                                                                                                 O Nélson escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.