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Há uns tempos escrevi um texto sobre Hector Herrera, no qual falava do “paradigma” do jogador mexicano. Hoje escrevo sobre o Porto, mas baseado naquilo que foi esse mesmo meu texto: tal como Herrera joga a um nível de classe mundial na prova rainha da Europa, também o clube da Invicta o faz. Já a nível interno, nem o jogador azteca é o mesmo, nem o Porto consegue espelhar a qualidade que demonstra nos palcos da Champions.

Que temos o plantel (plantel, não equipa, note-se) mais forte de Portugal não existem dúvidas, e quem as tiver é porque de futebol pouco ou nada percebe. Então por que é que nos galvanizamos a nível externo e, num nível “mais baixo”, como é o campeonato português, somos uma equipa que se parece com aquele velhinho relógio de cuco, que às vezes funciona e sai da portinhola e outras fica “em casa” e deixa as horas passar…?

Muito tenho ouvido dizer que o Futebol Clube do Porto só passou porque calhou num grupo risível, fácil e até “patético”. Pois bem, relembro que, a priori, o grupo dos dragões era bem mais equilibrado do que, por exemplo, o das águias: Porto, a incógnita da super equipa em construção; Shakhtar Donetsk, um poderoso multimilionário europeu que nos tem habituado a algumas surpresas; Athletic Bilbao, equipa que, por mérito próprio, ganhou o estatuto de “não perder” em casa; e BATE, o outsider que complicou as contas aos espanhóis. Em condições normais, teríamos um Porto a vencer os três jogos caseiros e tentando pontuar na Bielorrússia e Ucrânia. Por sua vez, os espanhóis contavam fazer nove pontos em casa e tentar aninhar mais qualquer coisa fora. Por último, teríamos uma sempre “chata” equipa ucraniana a ir buscar pontinhos onde quer que lhe deixassem.

Tudo saiu ao contrário, a começar pela estratégia do Athletic: abriram o livro europeu com um empate em casa frente ao Shakhtar, seguido de dois desaires, na Bielorrússia e em Portugal (o primeiro não estava, de todo, nas contas da equipa basca). E foi esta a equação que falhou no grupo H: a desilusão que foram os espanhóis face à grande qualidade do seu plantel. Posto isto, espero que as pessoas deixem de tentar tapar com um pouquinho de areia o grande buraco que foi a qualidade demonstrada pelos comandados de Lopetegui nesta brilhante caminhada europeia, que culminou com o recorde de pontos e golos dos dragões numa fase de grupos da prova milionária (recorde-se que, actualmente, tem mesmo o melhor registo atacante – 15 golos – e está entre as três melhores defesas, com apenas três tentos encaixados).

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Equipa escalonada por Lopetegui na deslocação a Borisov
Fonte: fcportovideos.blogspot.com
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Voltando ao primeiro parágrafo do meu texto, relembro o nome de Héctor Herrera: melhor em campo ontem na Bielorrússia, com um fantástico golo e duas assistências, uma delas de génio. Não é este Herrera que vejo a actuar internamente, tal como não vejo a consistência deste Porto. Parece que por vezes quer, por vezes não quer… Não tenho dúvidas de que se jogarmos cá dentro como jogamos lá fora arrumaremos a questão do campeonato o quanto antes (como o Benfica fez o ano passado, pela forma como jogava e encantava) e poderemos concentrar-nos em fazer uma “gracinha” na Europa. Lembram-se do Porto de José Mourinho? Também começou de forma turbulenta, passou a fase de grupos da Champions e depois… foi jogando, jogo a jogo.

Não quero com isto dizer que o Porto é candidato ao título da Champions ou o único candidato ao título em Portugal, de todo! Na prova milionária somos uns outsiders dentro do lote de 10/12 tubarões, que são, a priori, favoritos; em Portugal, a par do Benfica, somos os (eternos) candidatos – ainda não consigo ver um Sporting com a consistência necessária para andar lá em cima a lutar pelo grande galardão do futebol nacional.

De certa forma, esta passagem imaculada aos oitavos-de-final da Champions veio calar certas bocas que diziam que Lopetegui “não é treinador”, que “com aquela equipa até eu ganhava” ou até mesmo “o espanhol e a sua armada não chegam a Dezembro”. A essas pessoas só posso dizer o que vaticinei de início, depois de o conhecer: Lopetegui é a pessoa certa para o cargo e só sairá no dia em que acabar o contrato ou alguém “bater” a cláusula de rescisão do mesmo. Tem capacidade, qualidade e acima de tudo ideias claras daquilo que é o futebol que pretende ver praticado. Talvez só lhe falte um pouco de experiência de “equipa grande”, que certamente ganhará no grande clube que comanda.

Esperemos, agora e sem compromissos europeus de maior importância, que os pupilos do nosso timoneiro se concentrem a 100% no campeonato, aproveitando a instabilidade vivida pelo seu rival da Luz a nível da passagem aos oitavos da prova milionária e possam tirar partido de qualquer deslize no cimo da tabela (com todo o respeito pelo Vitória de Guimarães, clube que estimo muito por questões familiares, não considero o clube da Cidade Berço sequer um “pseudo-candidato”).

Vamos lá, Porto!

Foto de capa: Página de Facebook do FC Porto

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