– A aventura em França –

BnR: A tua primeira viagem para jogar fora de Portugal deu-se no verão de 2008, e aterras em Saint-Étienne. Lembras-te como foste parar aos “Les Verts”?

PM: Lembro perfeitamente, tinha acabado a época no Leixões em que me correu mesmo bem, marco golos importantes e a equipa consegue manter-se na Primeira Liga, e tinha mesmo em mente que ia fazer a pré-época no Porto e o que as pessoas que trabalhavam lá diziam era que ia ter uma oportunidade. Depois, num certo dia, estou em casa com o meu pai e ligou-me o senhor Pinheiro, o vice-presidente da formação toda do Porto da equipa B até aos infantis, a informar que tinha uma proposta para ser emprestado ao Saint-Étienne. Acabei por ser emprestado mesmo renovando o contrato, e lá fui ser emigrante pela primeira vez.

BnR: Como foi a adaptação à nova realidade?

PM: A ida para França foi mesmo difícil para mim. Nos primeiros dois, três meses, eu perdi 10kg. Estava sozinho, não falava nada, nem sequer um “Bom dia” ou “Boa tarde” dizia. A comida lá não leva temperos, davam-me um bife sem sal e sem nada, salada sem temperos e eu “Que é isto?”. Comia fruta todos os dias para poder ter força para o treino. Os primeiros tempos foram difíceis, tanto que levo duas malas e ficaram fechadas dentro do quarto. Só abri para tirar dois fatos-treino e andei quase sempre com as mesmas coisas. Depois, recebi a roupa do clube e andava equipado do clube, nem usava a minha roupa. Foi difícil, quando falava com a família por telefone, começava a chorar e tudo, o que é normal, já que estava ali a passar super mal.

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Fonte: Facebook Paulo Machado

BnR: O que te fez ultrapassar esse período menos positivo?

PM: Ao mesmo tempo, vi que não era o momento de desistir, já que me tinham mandado para aqui, vou mostrar o meu valor fora do país, vão dizer que tinha lugar no Porto. Eu tive sempre na mente a ideia de regressar ao Porto, tanto que dizia para mim “Vou rebentar aqui e o Porto até se vai arrepender”. Isso foi mesmo a minha força.

BnR: Mesmo com uma forte concorrência no meio-campo, consegues ser uma aposta firme, jogas 46 partidas e até foste considerado o melhor jovem jogador do campeonato. Essa época foi fundamental para a tua afirmação definitiva no panorama do futebol?

PM: Acho que foi a partir daí, em que estou num clube histórico, e toda a gente começa a dizer “Como é que ele consegue jogar num clube que venceu 10 campeonatos e não joga no Porto?” e já me viam com outros olhos. Deixo de ser o “Paulo Machado, o miúdo” para ser tratado como “Paulo Machado, o jogador”. Lembro-me que nesse ano aquilo correu-me tão bem que o Porto queria que eu voltasse, mas já não quis. As coisas tinham-me corrido bem, sentia-me bem em França, o campeonato era bom para mim e preferia ficar cá.

BnR: Mesmo com o bom ano, acabas por não ficar no Saint-Étienne. O que aconteceu?

PM: Não fiquei, pois houve uns problemas com um diretor do clube, problemas por causa do contrato e não fico lá. O meu objetivo era manter-me no Saint-Étienne, nem queria ir para o Toulouse, adorava o clube, toda a gente gostava de mim e tenho a certeza que se tivesse ficado, acabaria por me tornar um dos capitães de equipa.

BnR: No Toulouse envergas o número 5 nas costas. Que significado tem para ti o “5”? Até aí, só no Leixões é que não usas um número acabado em cinco.

PM: Nas camadas jovens, era sempre o número 6, 8 e houve vezes que fui o 10, mas não dava grande importância a isso. Como na equipa A recebi o número 55 sem sequer escolher, perguntavam se gostava e disse “É bonito ter os dois números iguais”. Como me mostrei ao mundo do Futebol com o 55 no Porto, mentalizei que a partir desse dia para onde quer que fosse ia utilizar o número 55…ou o 5, o 25, ou seja, queria sempre ficar com um número acabado em 5. Acabo por utilizar o 25 no Saint- Étienne, cheguei ao Toulouse, o 5 estava disponível e fiquei logo com ele.

BnR: Isso acabou por ter algum peso no tempo em que por lá estiveste? É que tens três anos bons no Toulouse…

PM: Sim, eu gostava do número, e depois, coincidência ou não, as coisas corriam-me bem.

BnR: Desse tempo todo, qual foi o momento mais alto ao serviço do Toulouse?

PM: Foi jogar na Liga Europa, naquela altura era a Taça UEFA. Eu também troquei um bocado o Saint-Étienne pelo Toulouse, por que eu sabia que eles iam jogar a Taça UEFA, e era algo que ambicionava jogar. Disse “Eu quero mesmo jogar a Taça UEFA, vou ter de ir para o Toulouse, sei que vai ser histórico e único”. Aliás, foi para mim um momento marcante no Toulouse, pois toda a gente esperava para ver o que se ia fazer na Taça UEFA, onde havia muitos clubes que não eram fáceis de vencer.

Fonte: Facebook Paulo Machado

BnR: No geral, acabas por ter quatro épocas de bom nível em território gaulês. Em que aspetos a experiência em França te ajudou a melhorar a tua qualidade de jogo?

PM: Ajudou-me muito, quando eu saio de Portugal praticamente só jogava numa posição, a de número 6. Quando vou para França, começaram-me a meter a 6, à esquerda e à direita, porque tinha um bocado de técnica e era raçudo, o que não era normal para um jogador de meio-campo, tanto que quem tinha um pouco de técnica sobressaía. Eu sobressaí em França por causa disso, devido à minha raça e técnica.

BnR: Conseguias também empurrar a equipa para a frente, levavas a bola…

PM: Sim, levava a bola, transportava-a, coisa que nem todos faziam isso em França. Atualmente, apenas o PSG, Marselha e Lyon é que têm jogadores com essa capacidade, se fores ver as outras equipas não têm um jogador que consiga transportar a bola.

BnR: O tal “box-to-box”, certo?

PM: Sim. Para mim, o futebol de hoje vive muito de um número 8, um “box-to-box” como se costuma dizer, o que vai e vem, recupera bolas, e tem de ter tudo.

BnR: Também tem de ter uns bons pulmões, para aguentar o tempo todo a correr…

PM: Se calhar foi isso que me fez jogar mais em França, pois aguentava sem problemas os 90 minutos sempre a correr e com a mesma intensidade, e acabo por conseguir jogar tanto tempo devido a isso.