Não raras vezes vemos associado o nome do FC Porto à raça, à determinação, ao “contra tudo, contra todos”. E, clubismos à parte, considero que são características que caem bem à equipa atualmente treinada por Sérgio Conceição, não só pelo hoje, mas por todos os episódios que constituem a sua rica e centenária história.

Bom, mas os tempos são outros. No futebol, já não se ganha no grito, não basta correr mais que o adversário, não basta querer vencer.

A evolução da modalidade fez com que se profissionalizasse todas as suas esferas, desde a técnica até à estratégica e planeamento de jogo.

Algo que não mudou assim tanto, todavia, é a importância da componente mental. Os jogadores precisam de sentir que estão a correr por uma causa, que estão a suar por um objetivo, que estão a sacrificar-se por um bem maior.

Anúncio Publicitário

E acabou mesmo por ser este o “pormaior” que atualmente coloca o FC Porto com mão e meia no título. Numa disputa onde nenhum dos dois candidatos pode orgulhar-se de ter apresentado um futebol atraente, vistoso, os dragões vencem as águias na esfera mental do jogo, na raça, como se costuma dizer.

Por um lado, Sérgio Conceição, na minha opinião, tem no aspeto mental/motivacional a sua principal qualidade; por outro lado, na Luz, Bruno Lage teve a incapacidade de gerir mentalmente uma equipa em má fase, o seu pecado capital.

O dez a zero do FC Porto de Conceição ao Benfica de Lage. Não raras vezes vemos associado o nome do FC Porto à raça, à determinação
Bruno Lage não foi capaz de segurar o grupo animicamente como Sérgio Conceição
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Outro aspeto: respaldo. Era notório que, a partir do momento em que o Benfica sai derrotado do Estádio do Dragão e não consegue rapidamente dar a volta por cima, Bruno Lage tinha os seus dias contados. Esse facto, querendo ou não, influencia diretamente o rendimento de toda a equipa: por que motivos dariam a vida por um técnico que, a qualquer momento, abandonaria o cargo? Por que motivos iriam os jogadores acreditar no “projeto Lage” quando era notório que poucos dentro do clube acreditavam?

No FC Porto, um cenário diferente. Apesar da enorme contestação que rodeava Sérgio Conceição, Pinto da Costa nunca o deixou cair, nunca deixou de demonstrar que acreditava nele. Partindo desse princípio, os jogadores do FC Porto interpretam um ciclo negativo como pouco mais que isso, enquanto que os jogadores encarnados veem a descrença no seu técnico aumentar a cada dia.

A partir daí, os deuses do futebol fazem o resto. No jogo do Benfica, a bola vai passar ao lado da baliza adversária, vai bater no poste, o guarda-redes adversário fará exibições de outro mundo. No jogo do FC Porto, com uma exibição que, provavelmente, não superará a das águias, a bola lá encontrará um caminho para as redes adversárias.

E assim se escreveu a história daquele que muito provavelmente será o novo campeão português: com pouca técnica, com pouca beleza, com pouca cabeça, mas com muito suor, com muita entrega, com muito coração.

Artigo revisto por Joana Mendes

Comentários