«Golo ao Benfica foi um presente na minha carreira» – Entrevista BnR com Bruno Moraes

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Bola na Rede: Infelizmente, é impossível desassociar o nome Bruno Moraes das lesões. Como é que um jogador se consegue reerguer ao fim de tantas lesões?

Bruno Moraes: “Ressurgir das cinzas” é talvez das melhores qualidades que eu tenho. Talvez tenha deixado algumas coisas atrapalharem a minha carreira, podia não ser nada de especial, mas hoje eu teria alguns cuidados se tivesse nova oportunidade, teria mais cuidado na alimentação e na parte física. Eu sempre tive essa capacidade de me reerguer e depois das quedas que eu tive isso é muito difícil. Por exemplo, depois das lesões que eu tive ainda faço uma época no Trofense já no final da minha carreira com 18 golos no CNS, que é um campeonato difícil. É fruto do meu trabalho e da minha crença. Eu sempre acreditei muito em Deus e mesmo a minha mãe tenta passar mensagens de fé para nós acreditarmos sempre e não desistir. Sem dúvida que a parte familiar e a minha esposa sempre me apoiaram com as lesões e nunca deixaram de apoiar. Sou um privilegiado por ter essas pessoas por perto e acho que esse é o segredo: acreditar, ter fé e estar rodeado de pessoas que agregam valor para nós.

Bola na Rede: No teu caso, afetou-te mais a condição física ou psicológica?

Bruno Moraes: Uma coisa acaba por estar associada à outra, o psicológico é que manda no corpo. Eu tive que superar muita dor, tem dias em que ainda sinto dor por causa do meu joelho e mesmo o meu final de carreira foi muito na base da adaptação devido às lesões que tive. Acho que o psicológico é fundamental para que o corpo, mesmo com algumas limitações, consiga desempenhar a função que pretendemos.

Bola na Rede: Costuma ouvir-se muitas vezes quando os jogadores se lesionam: “Vou voltar ainda mais forte”. Isso é algo que acontece ou é uma tentativa de auto-motivação do jogador para não se deixar ir abaixo?

Bruno Moraes: De facto, acho que acontece. Fisicamente depende muito da lesão que estamos a falar, mas com certeza que a nível psicológico um jogador se torna mais forte. Ele já conhece o corpo dele e vai ter muito mais cuidado na parte física, na alimentação e no descanso. Então isso vai proporcionar para ele um melhor descanso e não ter mais lesões a partir disso seria o culminar de uma aprendizagem importante para o resto da vida do atleta.

Bola na Rede: Já te passou alguma vez pela cabeça pensares até onde poderia ter ido o Bruno Moraes que despontou no Santos com apenas 17 anos e que apareceu no FC Porto com 19 anos, se não fossem as lesões?

Bruno Moraes: Penso, penso sim. Penso até onde poderia ter chegado, mas também penso que não posso fazer mais nada. O passado eu não controlo, mas eu posso controlar o futuro e controlo o futuro fazendo o melhor no presente. Quero estar a trabalhar nem que seja 24 horas a ter os cuidados para que tudo corra bem no futuro. Eu já estou a preparar o futuro, nunca esperei ser treinador, mas fiz o 1º nível em 2012, em novembro comecei a treinar uma equipa e estou a treinar os sub16 do Canidelo e estou a gostar muito.

Bola na Rede: Já vou chegar a esse teu novo desafio na carreira. Para encerrar o capítulo das lesões, que conselho darias para os jogadores que possam estar a passar por um período longo de paragem ou que possa vir a passar no futuro?

Bruno Moraes: Sobretudo é a aprendizagem. É a prevenção e aprender que de alguma forma a lesão não veio por acaso e pensarem que a lesão já chegou, não há mais nada a fazer sem ser a fisioterapia e recuperar. Dali para a frente o atleta tem de pensar o que pode fazer dali para a frente para não ter mais a lesão, quais os cuidados que pode ter e onde pode melhorar para prevenir a lesão.

Bola na Rede: Ao fim de sete anos em Portugal, tens uma breve passagem no campeonato romeno ao serviço do Gloria Bistrita. O que é que aprendeste nessa experiência na Roménia?

Bruno Moraes: A experiência na Roménia foi através do meu irmão, o meu irmão jogava nessa equipa. Eu não tinha qualquer pretensão de ir para a Roménia, mas fiquei aqui um pouco sem mercado por causa das lesões. Tive proposta do Portimonense, mas financeiramente não era muito atrativa. Na altura eles estavam se reerguendo, a começar um novo projeto, mas apareceu essa proposta da Roménia que financeiramente era mais lucrativa e ainda para mais tinha essa oportunidade de jogar com o meu irmão e fazer história junto com ele. Era uma experiência diferente, de crescermos juntos e jogar profissionalmente lado a lado na Europa, poderia até remeter para a nossa infância e resolvi ir para lá. Apanhei lá muito frio, apanhei um campeonato diferente não tão conhecido, fui para uma cidade pequena, passei lá cinco meses, mas depois quis voltar para Portugal e jogar aqui de novo.

Bola na Rede: Regressas ainda nessa mesma época à Liga Portuguesa para representar o Naval e o Leiria, voltas a ter uma experiência no estrangeiro na Liga Húngara ao serviço do Újpest FC e regressas novamente a Portugal para assumir a titularidade no Gil Vicente. No entanto, uma vez mais, uma lesão grave trava o teu sonho de completar uma época sem problemas físicos. Com 29 anos, na altura, sentiste que aquela era a derradeira hipótese para te destacares na Liga Portuguesa?

Bruno Moraes: Sim, acho que sim. Andei sempre nesse vaivém de altos e baixos, procurava estabilidade e o Gil Vicente era um clube que me poderia proporcionar isso e tinha tudo para ser uma época muito boa desportivamente, mesmo a nível pessoal também poderia ser uma época de crescimento. Infelizmente, mais uma vez tive uma lesão grave. Íamos para o oitavo jogo da época, estávamos muito bem no 4º lugar do campeonato, fizemos grandes jogos, ganhamos ao Braga, na Luz estivemos a ganhar até a minuto 90’, tínhamos o João de Deus como treinador que hoje em dia é o adjunto do Jorge Jesus, tínhamos um plantel misto com jogadores experientes como o César Peixoto e o Danielson e jogadores mais jovens despontando. Só que infelizmente eu tive essa lesão que prejudicou um pouco o Gil Vicente e na segunda metade do campeonato “caiu por tabela” e no final do campeonato estavam quase a lutar para não descer.

Nélson Mota
Nélson Motahttp://www.bolanarede.pt
O Nélson é estudante de Ciências da Comunicação. Jogou futebol de formação e chegou até a ter uma breve passagem pelos quadros do Futebol Clube do Porto. Foi através das longas palestras do seu pai sobre como posicionar-se dentro de campo que se interessou pela parte técnica e tática do desporto rei. Numa fase da sua vida, sonhou ser treinador de futebol e, apesar de ainda ter esse bichinho presente, a verdade é que não arriscou e preferiu focar-se no seu curso. Partilhando o gosto pelo futebol com o da escrita, tem agora a oportunidade de conciliar ambas as paixões e tentar alcançar o seu sonho de trabalhar profissionalmente como Jornalista Desportivo.

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