Bola na Rede: Quem é que partia mais vasos lá em casa, tu ou o teu irmão [Júnior Moraes]?

Bruno Moraes: É uma boa pergunta (risos). Na verdade, acho que era a minha irmã (risos). O meu pai diz que ela é melhor jogadora do que eu e do que o meu irmão. Na altura o futebol feminino não era como os dias de hoje, ela não se sentia bem nesse ambiente e resolveu não seguir carreira.

Bola na Rede: Uma família de futebolistas…

Bruno Moraes: É isso, uma família de futebolistas. Isso veio do meu pai, apesar da família dele não ser futebolista ele se tornou jogador de futebol profissional e passou esse ADN para os três filhos.

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Bola na Rede: Eram muito competitivos?

Bruno Moraes: Sim eramos muito competitivos, passávamos grande parte do dia a jogar futebol. Naquela época tínhamos oportunidade de jogar em vários tipos de terreno e pisos. Tanto jogávamos na relva, como na rua, lugares encharcados de água, terrenos com muita oscilação, às vezes em campos sintéticos, na areia, numa série de terrenos que nos forçava a adaptar e isso é um ganho muito grande para qualquer jogador.

Bola na Rede: Como é que foi crescer nas ruas da cidade de Santos?

Bruno Moraes: Eu sou um privilegiado, posso dizer isso. Santos é uma cidade litorânea, tem praia muito perto e foi muito bom crescer lá. Para além de praia, naquela época, os clubes eram sociais que tinham por norma uma equipa de futsal e a competição era muito cerrada. Montavam boas equipas e o futsal em Santos era muito forte. A maioria dos clubes tinha pavilhões e alguns deles tinham campos com enorme qualidade da relva. Proporcionou muitos jogos, muita brincadeira, eu passava a minha semana no clube. Tive uma infância ao ar livre e isso foi muito bom.

Bola na Rede: Falaste há pouco do teu pai, Aluísio Guerreiro, ele que é um ex-jogador. De que forma é que ele influenciou a tua ida para o futebol?

Bruno Moraes: O meu pai foi a minha referência. Como eu sou o filho do meio, eu ainda o apanhei um pouco no final da carreia e já nesse final ele me levava para o treino e para ver alguns jogos. Isso tudo foi-me cativando e despertando interesse, até que chegou uma determinada altura que tive que decidir por mim mesmo se queira continuar no futebol ou não e acho que decidi bem. Era o meu sonho, era o que eu queria fazer. O meu pai só me mostrou o caminho e me deu as orientações que eu precisava.

Fonte: Instagram Bruno Moraes

Bola na Rede: Como é que te destacaste no meio de tantos miúdos nas captações e garantiste a tua oportunidade de representar o Santos?

Bruno Moraes: Eu vou falar um pouco do meu pai porque eu assim consigo explicar melhor o que ele me transmitiu. O meu pai teve uma infância difícil e tudo o que ele conquistou foi à base de muita luta. Como eu falei, os pais deles não tinham muitas condições, teve uma infância pobre e ele conseguiu se tornar um jogador no Rio de Janeiro que é o sonho de milhões de jogadores. Ele conseguiu se tornar jogador profissional e teve destaque em vários clubes do Brasil. Tudo o que ele aprendeu nessa passagem, tudo que adquiriu de conhecimento e o que aprendeu com a vida, ele me passou e eu acho que quando se tem assim uma referência e quando se tem alguém que já traçou um caminho, fica mais fácil se você absorver as ideias. Foi isso que ele me passou, não só a parte técnica de como fazer golos e cabecear a bola, mas mais importante, ele me incutiu que nada na vida vem fácil se não formos atrás. Se você levar a vida fácil ela depois vai-se tornar difícil, foi esse o tipo de coisa que aprendi com ele. Quando cheguei no Santos, fui num autocarro com mais de 30 meninos e tive pouco tempo para me mostrar, mas tive sorte e quando a bola chegava mostrava um pouco do meu futebol e fui aceite no Santos. Como me comecei a destacar no Santos, tive convites para ir para vários clubes na Europa, fui convocado para a seleção brasileira, o que é muito difícil e o Santos já não tinha um jogador da formação convocado há muito tempo.

Bola na Rede: Lembras-te do teu jogo de estreia com a camisola do Santos?

Bruno Moraes: Lembro-me. Foi muito bom, numa partida contra o Flamengo. Estávamos a ganhar por 3-0 e a torcida começou a pedir a minha entrada. Eu que cresci na cidade, sempre tive o sonho de jogar no Santos, assistia aos jogos quando era pequeno o meu pai me levava sempre a ver e para mim foi muito boa essa estreia. Entrei no jogo, fiz uma boa jogada mesmo sem ter muito tempo para mostrar, mas já deu para perder aquele “friozinho” na barriga na estreia. Tenho pena de não ter jogado mais no Santos, era a minha equipa do coração, mas a vida profissional é diferente daquilo que se sonha.

Bola na Rede: Fizeste parte de uma geração de luxo da equipa do “Peixe” ao lado de jogadores como Diego e Robinho, conquistando no primeiro ano de sénior o título de campeão brasileiro. Apesar de não teres sido uma aposta regular, certamente que deve ter sido uma época memorável.

Bruno Moraes: Tínhamos um grupo bom onde se misturavam jovens jogadores com jogadores experientes. O Santos estava numa busca de 19 anos sem títulos e a maioria da equipa era formada com jogadores da formação. Foi algo que deu certo, não era o planejamento do Santos nesse ano, eles iam contratar outros jogadores, mas as contratações não deram certo e o treinador optou por ir com os jogadores que tinha e foi feliz nesse sentido.

Bola na Rede: Ainda antes dessa conquista, representaste as cores da canarinha na Sudamericano Sub 17 e no Mundial sub 17, sendo que nesta competição, apontaste um golo na fase de grupos frente à Croácia. Para ti, foi a concretização de um sonho vestires e marcares um golo ao serviço do teu país?

Bruno Moraes: Eu sempre fui muito ambicioso, nunca coloquei limites na minha carreira. Nas conversas com o meu pai eu nunca me deslumbrei muito com aquilo que eu tinha conquistado, eu já olhava para o próximo desafio e qual o próximo objetivo a conquistar. As coisas foram acontecendo naturalmente. Eu nem imaginava jogar na seleção do Brasil, eu gostava de jogar, queria ter um futuro bom, queria ser um jogador profissional de qualidade, aplicar tudo o que aprendi na formação e mostrar o meu futebol. Depois claro, queria ter uma melhor condição financeira, proporcionar um padrão de vida melhor e as coisas foram acontecendo por consequência. A seleção do Brasil trazia sempre uma grande multidão nos jogos, quando íamos jogar fora em torneios nós eramos sempre reconhecidos e as pessoas queiram tirar fotos, autógrafos e estar sempre perto dos jogadores. Era uma instituição muito grande, as pessoas associam muito o futebol ao Brasil. Fiquei muito feliz em ir para a seleção brasileira, mas já pensava no próximo desafio. Na altura o objetivo era jogar na equipa principal do Santos, mas eu e o Santos não nos entendemos para renovar contrato e durante esse capítulo apareceu o FC Porto que foi a minha primeira casa na Europa.

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O Nélson é estudante de Ciências da Comunicação. Jogou futebol de formação e chegou até a ter uma breve passagem pelos quadros do grande Futebol Clube do Porto. Foi através das longas palestras do seu pai sobre como posicionar-se dentro de campo que se interessou pela parte técnica e tática do desporto rei. Numa fase da sua vida, sonhou ser treinador de futebol e, apesar de ainda ter esse bichinho presente, a verdade é que não arriscou e preferiu focar-se no seu curso. Partilhando o gosto pelo futebol com o da escrita, tem agora a oportunidade de conciliar ambas as paixões e tentar alcançar o seu sonho de trabalhar profissionalmente como Jornalista Desportivo.                                                                                                                                                 O Nélson escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.