eternamocidade

Ao longo das últimas semanas, tenho escrito não raras vezes no Bola na Rede que só acreditava num FC Porto vencedor se treinador e equipa começassem a perceber aquilo que era o campeonato e o futebol português. Disse-o logo após a primeira derrota nos Barreiros, num desaire que parecia ter levado a equipa para um abismo que acabou por não se confirmar, em virtude da derrota, no dia seguinte, do Benfica em Paços de Ferreira.

Mesmo com a distância pontual inalterada, fui alertando para os perigos que corria o clube ao ter construído um plantel destes: com jogadores com inegável qualidade mas com tremenda falta de “nervo”, era por demais evidente que, no caso de não haver uma solução divina a partir do banco, jogos como os que aconteceram nos Barreiros acabariam por acontecer com maior ou menor frequência. Enquanto espetador e analista do futebol português, há certas coisas que se revelam repetitivas com o passar dos anos. Deixando aqui de parte hipocrisias demagógicas, não é preciso ser-se muito inteligente para se perceber que desde há muito tempo que a qualidade da maior parte das equipas em Portugal diminuiu.

Em termos concretos, isto leva a que, sobretudo nos jogos fora de casa, as equipas grandes se vejam obrigadas a praticar em muitas ocasiões um estilo de jogo de que não gostam, onde por vezes um pontapé para a frente ou uma paragem simulada são premissas essenciais para que o ritmo de um jogo se parta. Outra das evidências que todos os que são minimamente inteligentes percebem é que há adversários que jogam mais contra umas equipas do que contra outras. Como não sou hipócrita, sei que este é um argumento que pode soar a demagógico mas que, para mim, é por demais evidente. Sejamos claros: há alguém que acha que o Sporting de Braga joga da mesma forma no Axa contra o Benfica ou contra o FC Porto? Há alguém que acha que, nos Barreiros, o Marítimo joga da mesma forma contra o Benfica e contra o FC Porto?

Bom, as perguntas deixadas em cima são apenas tópicos pelos quais se podem explicar muitos jogos do nosso campeonato e muitas batalhas que por vezes se revelam essenciais para a decisão de uma competição, seja campeonato, Taça de Portugal ou Taça da Liga. Tal como já disse em diversas ocasiões, creio que, ao ser construído um plantel como o que a estrutura portista construiu, nenhum destes pensamentos esteve na cabeça de quem manda no futebol portista. Objetivamente falando: há alguém que julgue que um treinador espanhol chega a Portugal e percebe, na abordagem a uma deslocação como os Barreiros, que é preciso colocar uma equipa “diferente”, que utilize mais intensidade e utilize armas não tão bonitas para o espetador mas mais pragmáticas para o resultado final? Há alguém que julgue que jogadores como Casemiro, Oliver, Brahimi ou Tello percebem que, numa partida como a de hoje, não é possível ser “macio” no jogo porque o adversário simplesmente vai colocar tudo em campo, disputando cada bola como se fosse a última das suas vidas?

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Infelizmente, e tal como fui explicando ao longo das minhas crónicas no Bola na Rede, creio que ninguém na estrutura portista explicou isso a Lopetegui no início da temporada. Com muita pena minha, ver Rui Barros sentado junto ao treinador espanhol é quase apenas uma gota num oceano completamente desprovido de qualquer tipo de referências. No campo, Helton (que raramente tem sido utilizado) e Maicon são os únicos sinais que remetem os adeptos para um espírito que pautou a história do FC Porto nos últimos 30 anos. Infelizmente, hoje nada disso existe ao olhar para o plantel portista. Nestes espaços de opinião, fui escrevendo que construir um plantel como o que temos esta época acarretava riscos. Fui criticado, e grande parte dos adeptos não entenderam como poderia eu associar uma quebra de rendimento no campeonato a uma participação na Liga dos Campeões. Com um plantel e um treinador como estes, creio que esse era um resultado mais ou menos expectável. Quando se traz um técnico das seleções jovens de Espanha – e que se quer mostrar ao país de onde saiu para tentar uma carreira numa equipa – e se contratam (ou se recebem emprestados) jogadores que fazem do FC Porto um mero clube de passagem para voos mais altos, do que é que a estrutura do FC Porto estava à espera? Estava à espera de algo diferente disto?

O FC Porto perdeu a oportunidade para estar na final com o Benfica Fonte: FC Porto
Quaresma foi titular na derrota desta quinta-feira
Fonte: FC Porto

As questões que deixo são muitas e levantam muitas questões e razões para o fracasso que tem sido a época portista. E sim, digo fracasso porque ficar sem as duas taças internas e estar dependente de um 0-2 na Luz para chegar à liderança do campeonato é para mim sinal suficiente e ilustrativo do desespero que a época do FC Porto tem sido. Aliás, considerar razoável que os portistas vencerão alguma coisa este ano é apenas uma utopia, que pode sair de um final de campeonato de sonho – e que tem de passar por uma vitória gorda na Luz – ou de uma prestação na Liga dos Campeões completamente contra todas as probabilidades.

Se bem se recorda, caro leitor, várias foram as vezes em que disse que, se o FC Porto não estava na liderança do campeonato, não era em virtude da derrota em casa frente ao Benfica. Aliás, esse desaire, num jogo de “tripla”, nunca me pareceu desculpa suficiente para se justificar o atraso pontual no campeonato português. Para mim, empates contra Boavista, Estoril, V. Guimarães e até Nacional, sem esquecer a derrota nos Barreiros, eram muito mais responsáveis pelo segundo lugar no campeonato. Em todos esses casos, e tal como aconteceu no jogo de hoje, mais uma vez se percebeu que Lopetegui e a equipa do FC Porto não estão preparados para jogar no nosso país e sobretudo contra algumas equipas.

O jogo de hoje foi apenas mais um exemplo disso: com sete titulares de fora (Fabiano, Danilo, A. Sandro, Herrera, Brahimi, Tello e Jackson Martinez), Lopetegui decidiu colocar no caldeirão dos Barreiros um onze alternativo em busca da final da Taça da Liga. Do lado maritimista, Ivo Vieira não inventou e decidiu lançar em campo o seu melhor onze. Sem permitir grandes espaços a um meio campo do FC Porto claramente sem o seu principal motor (Herrera), a equipa da casa esteve por cima nos primeiros 15 minutos de jogo, obrigando o FC Porto a recuar o bloco, deixando Aboubakar muito longe dos restantes setores da equipa.

A partir dos 20-25 minutos, os portistas começaram a subir linhas e mostraram capacidade para reagir. Depois de um remate com perigo de Hernâni, os azuis e brancos chegaram mesmo à vantagem após um forte remate de Evandro na sequência de um pontapé de canto. Ao contrário do que se poderia esperar, o que é facto é que o golo portista não trouxe estabilidade aos dragões e instabilidade aos madeirenses, bem pelo contrário. A reação maritimista foi excelente e, primeiro numa grande penalidade bem aproveitada por Bruno Gallo e depois um golo de cabeça de Marega (erro tremendo e infantil de marcação portista), fizeram uma reviravolta que tinha tanto de inesperada como de justa, tendo em conta a forte resposta dada pelos comandados de Ivo Vieira nos últimos 10 minutos do primeiro tempo.

No segundo tempo, acabou por não se verificar a reação portista que tanto se esperava. O intervalo não foi bom conselheiro para os portistas, e a segunda parte acabou por ser praticamente um passeio para a equipa da casa, tendo em conta o equilíbrio tático com que sempre parou as tentativas de construção de jogo ofensivo portistas. Mesmo com as entradas de Tello, Brahimi e Gonçalo Paciência, o FC Porto raramente se aproximou com perigo da baliza do guarda redes Salin, que praticamente, tal como Helton, não fez uma única intervenção de relevo ao longo da partida. A forma como o Marítimo fechou os espaços nas faixas e na zona interior foi notável, pelo que as mudanças e as invenções táticas feitas por Lopetegui ao longo do segundo tempo revelaram-se infrutíferas.

Com um rigor tático de assinalar e uma solidariedade incrível entre os setores, o Marítimo acaba por chegar com justiça e merecer o acesso à final da Taça da Liga, onde irá defrontar o Benfica no próximo dia 25 de abril, no Estádio Cidade de Coimbra. Para o FC Porto, resta mais uma desilusão por, à terceira tentativa, continuar a não conseguir vencer na Madeira. Para mim, o jogo de hoje foi apenas mais um exemplo demonstrativo daquilo que é o plantel desta época: com qualidade inegável mas com uma imaturidade e inexperiência que dificilmente permitirão ganhar alguma coisa. É pena é que, em 10 meses de temporada, ainda ninguém da direção se tenha lembrado de dizer que não pode vestir a melhor roupa apenas na Liga dos Campeões. Num clube como o FC Porto, acho incrível como ainda ninguém explicou àquele treinador e àqueles jogadores que a técnica da força é por vezes mais importante que a força da técnica. Agora já vão tarde para perceber. É que a inteligência também se vê nisto e infelizmente isso é coisa que tem faltado no reino do dragão. O que se calhar explica tudo.

A Figura:

Estratégia do Marítimo – Mesmo em desvantagem, a equipa de Ivo Vieira nunca se desmontou taticamente. Com um meio campo liderado por Danilo Pereira, os madeirenses conseguiram retirar sempre os espaços a um FC Porto que ficou invariavelmente sem ideias à medida que o jogo ia passando.

O Fora-de-Jogo:

Julen Lopetegui – O treinador do FC Porto deu esta noite mais um tiro no pé. Ao cair-se no exagero, o maior risco por que um homem passa é o de cair no ridículo. A alegoria poderia ser transposta para a história de Lopetegui e dos árbitros. Ouvir o treinador espanhol dizer que não é grande penalidade o lance de Ricardo é uma heresia que nem o maior fanático poderá acreditar. Se calhar é altura para se deixar do latim e de desculpas baratas e de perceber que para se ganhar em Portugal não basta ter os melhores artistas, é preciso adaptar-se aos diferentes espetáculos. Infelizmente, Lopetegui ainda não sabe do que falo e por isso é que provavelmente o FC Porto vai ficar a zero esta temporada relativamente a títulos.

Foto de Capa: Facebook Oficial do Club Sport Marítimo

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