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Antes de começar a temporada portista, o entusiasmo que sentia pela composição do plantel – com a aquisição de jogadores de qualidade reconhecida – era proporcional ao nervosismo e desconfiança que tinha sobre a verdadeira capacidade que o plantel e o treinador do FC Porto tinham para dar resposta aos vários desafios que se lhes colocariam, tanto a nível interno como nas competições europeias. Esta desconfiança baseava-se sobretudo na premissa da inexperiência, que tantas vezes é descrita como algo fundamental durante uma época. É por demais evidente, por isso, que apesar da qualidade de reforços como Martins Indi, Casemiro, Oliver, Tello, Adrián Lopez, Brahimi ou Aboubakar, estes atletas teriam de passar por uma fase de compreensão de uma nova realidade. Este é um argumento que naturalmente se coloca também a Lopetegui.

E, afinal de contas, que nova realidade é esta? Bom, a realidade de que falo chama-se campeonato português e, por muita pena minha, tem tido uma cara cada vez mais feia à medida que os anos vão passando. O argumento da crise é o mais utilizado, mas para mim não chega. Quem como eu vê todos os jogos do FC Porto no Dragão e, por consequência, todos os clubes da liga, percebe que o nosso campeonato está cada vez a baixar mais a qualidade. E não é preciso ir muito longe para perceber do que falo: sábado, pior do que o frio assustador no Dragão, só mesmo a exibição do Belenenses. Obviamente que o comum adepto percebe que as diferenças entre grandes e pequenos são enormes. Sempre foram e possivelmente sempre serão. Mas apesar disto, a exibição do Belenenses no Dragão roçou a mediocridade. O primeiro e único remate com perigo da equipa de Lito Vidigal aconteceu apenas aos 90 minutos. Mas que futebol é este? É este o campeonato competitivo que queremos no nosso país?

Mas desengane-se se acha que neste texto vou apenas cingir-me ao Belenenses. Não, não tenho nada contra o clube lisboeta, e apenas o utilizei como exemplo para demonstrar aquilo que a nossa liga tem perdido nos últimos tempos. Tem sobretudo perdido qualidade, porque não é só do Belenenses que poderia falar: podia dar o exemplo de outros jogos no Dragão, como contra o Nacional ou Vitória de Setúbal, em que os adversários apenas pareciam que queriam perder por poucos. E quem fala do Dragão, fala da Luz e de Alvalade, onde este tipo de equipas tem o mesmo comportamento. Como já referi, obviamente não posso esperar que equipas como o Boavista, Belenenses ou Gil Vicente cheguem ao Dragão e joguem no campo todo. Claro que não, porque não têm recursos para isso. Mas a ambição e a qualidade neste tipo de plantéis tem, a meu ver, diminuído. E isso não se pode explicar só pela crise.

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Jackson é a figura de proa de uma equipa que não tem motivos para desistir
Fonte: Página de Facebook do FC Porto

Mas então, afinal de contas, onde entra o FC Porto no meio disto tudo? Bom, é fácil e demonstra-se pela classificação do campeonato. Repare bem, caro leitor, nos resultados da primeira volta que termina no próximo fim-de-semana. Nas 16 jornadas já realizadas, o Benfica perdeu 5 pontos no campeonato, frente a Sp. Braga e Sporting. Quanto ao FC Porto, foram 11 os pontos perdidos, frente a V. Guimarães, Sporting, Benfica, Estoril e Boavista. Aqui reside a diferença entre as equipas: se, em relação ao Benfica, a equipa de Jorge Jesus cumpriu a sua obrigação – ou seja, “despachou” tudo aquilo que não é Braga, V. Guimarães, FC Porto e Sporting –, a equipa de Lopetegui deixou 4 pontos frente a Estoril e Boavista. Essa é a grande diferença entre as duas equipas. Existe, na minha opinião, a ‘leviandade’ de se afirmar que os campeonatos se resolvem na maioria dos casos nos jogos entre os grandes. Não podia estar mais em desacordo com isso. Aliás, se o FC Porto tivesse feito a sua obrigação, neste momento teria pelo menos mais 4 pontos (excluo aqui o empate em Guimarães, num jogo onde o FC Porto foi altamente prejudicado). Com esses 4 pontos, perdidos de forma inacreditável nessas duas partidas, o FC Porto, mesmo não ganhando aos grandes rivais, apenas dependeria de si para ser campeão.

As contas são fáceis de fazer e, no que respeita à nossa liga, a matemática é um exercício básico. Com um fosso tão grande entre os cinco primeiros classificados e todos os outros, não se pode perder pontos em jogos como o da Amoreira ou em casa com o Boavista. Com tanta falta de qualidade na maioria das equipas, uma formação como a do FC Porto, com jogadores tão preponderantes, dar estes brindes à concorrência pode ser fatal. Aliás, se bem se recorda, não foi à toa que, para além de enunciar a falta de experiência dos jogadores portistas, estendi esse argumento a Lopetegui. Se bem se recorda, nesses dois jogos malditos (Estoril e Boavista), o treinador espanhol decidiu rodar meia equipa contra os boavisteiros e mudar de sistema tático no jogo da Amoreira, deixando de fora do onze aquele que para mim tem sido uma das maiores figuras da época, Oliver Torres, em detrimento nessa partida do espanhol Adrián Lopez.

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Na próxima jornada da Liga, o FC Porto desloca-se ao terreno do Penafiel
Fonte: Página de Facebook do FC Porto

Com esses jogos já bem longe no pensamento para a maioria do adepto portista, criou-se a ideia de que os seis pontos de avanço se baseiam única e exclusivamente no desaire contra o Benfica. Para mim, nada de mais errado. Num campeonato como o nosso, com tão grande falta geral de qualidade, é cada vez mais essencial ser forte com os fracos. Contra os fortes, é preciso sobretudo ‘sobreviver’ e se possível, pois claro, ganhar.

Com ainda 18 batalhas até ao fim, espero que treinador e jogadores portistas façam das palavras de Jackson uma ordem geral: não é possível perder mais pontos. A meu ver, o avançado colombiano não poderia estar mais de acordo: é que só com muita distração do nosso principal adversário e nossa também, será possível que a esmagadora maioria das equipas do nosso campeonato tirem pontos aos dois primeiros da liga. O problema é que, para nós, a distância face ao primeiro é de 6 pontos. E tudo porque, em determinados momentos da época, alguém não percebeu que em Portugal muitas das vezes não se pode vestir o fato de gala e é preciso vestir o fato de macaco. Ainda assim, e com 18 batalhas pela frente, só há um caminho: ganhar jogo a jogo sem nunca desistir, porque só desiste quem deixa de lutar. Pelo que tem mostrado esta época, não há razões para que o FC Porto desista.

Foto de capa: Página de Facebook do FC Porto

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