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“Tenho a certeza de que vamos ser campeões nacionais para o ano. Tenho a certeza absoluta.” Foi com estas palavras que, no dia 23 de janeiro de 2002, José Mário dos Santos Mourinho Félix se apresentou como treinador do FC Porto. Provindo da União Desportiva de Leiria, clube no qual havia alcançado um histórico 5º lugar na Liga Portuguesa, Mourinho impressionou desde o primeiro momento pela sua determinação e autoconfiança, confundida por alguns com arrogância.
Depois de uma anterior passagem bem sucedida, embora relativamente breve devido a conflitos com a Direção, por um clube dito “grande” (o SL Benfica), foi no FC Porto que José Mourinho teve a rampa de lançamento para uma carreira que ficará para sempre marcada na história do futebol. Para a cidade invicta o setubalense levou jogadores da sua confiança (como Derlei e Nuno Valente), outros de clubes secundários da Liga Portuguesa (como Paulo Ferreira), e outros ainda que haviam sido dispensados dos planteis que integravam (como Maniche). O grupo de futebolistas ao dispor parecia algo limitado na sua qualidade individual, mas rapidamente José Mourinho tratou de provar que tal julgamento não correspondia à realidade.
Desde cedo deu para perceber que o modelo de jogo definido por José Mourinho estava num patamar qualitativo totalmente diferente de todos aqueles que existiam, na época, em Portugal. O FC Porto tinha uma organização coletiva próxima da perfeição em todos os momentos do jogo. As zonas de pressão asfixiantes marcavam o momento defensivo da equipa e, ofensivamente, esta tanto conseguia ser letal em transição (pela sistematização dos processos) como em organização (pela qualidade na posse de bola). O FC Porto de Mourinho tinha “fome de bola”, guardava-a durante tanto tempo quanto possível e, quando não a tinha, procurava a sua rápida recuperação. Eram essas as ideias do seu treinador, e essas ideias eram inalteráveis, mesmo que o adversário fosse o Manchester United FC ou que o FC Porto se visse reduzido a 10 jogadores. A somar à qualidade coletiva, a qualidade individual (sobretudo ao nível da tomada de decisão) desde cedo deu mostras de ser muita mais do que aquela que parecia existir a priori: à exceção de Costinha, todos os futebolistas do meio-campo do FC Porto eram prodígios ao nível técnico e da compreensão do jogo.

Fonte: Daily Mail
É curioso que, atualmente, José Mourinho seja um resultadista, um treinador que adapta as suas equipas aos contextos e aos adversários procurando explorar mais as suas fraquezas do que as forças da sua equipa. Na época em que treinava o FC Porto, Mourinho afirmava taxativamente que o essencial é que a sua equipa mantivesse sempre a mesma identidade, que em 90 minutos seria impensável passar mais tempo em organização defensiva do que em organização ofensiva, que ter bola é essencial para controlar o jogo, que a reação à perda de bola deve sempre ser asfixiante (com recurso a um pressing zonal alto), e que os 11 jogadores em campo devem, todos eles, ter qualidade para jogar em posse. E eram estes os princípios de jogo do FC Porto, eram estas as caraterísticas que marcavam a identidade da equipa em todos os jogos, em todos os campos, contra todos os adversários.
Para além das questões táticas, Mourinho destacava-se pelo seu rigor na preparação dos jogos. Não se pode dizer que foi o primeiro treinador a preocupar-se seriamente com a mesma, mas seguramente foi o primeiro a conseguir faze-lo com sistematização e por via de um estudo aprofundado do jogo. Em termos comunicacionais, José Mourinho era também brilhante e, nesse particular, pode bem dizer-se que marcou uma forma de estar com a imprensa desportiva. As suas conferências de imprensa eram marcadas por frases fortes, por mind games com impacto significativo nos seus jogadores e no adversário, e por uma atitude ímpar ao nível da liderança do grupo: sempre que a equipa não ganhava Mourinho assumia a responsabilidade; sempre que a equipa ganhava, Mourinho atribuía integralmente os créditos da vitória aos seus jogadores.

Fonte: UEFA
E foi assim, assente nestas premissas, que o FC Porto conquistou duas Ligas Portuguesas, uma Taça de Portugal, uma Supertaça Cândido de Oliveira, uma Taça UEFA e uma Liga dos Campeões. Como consequência José Mourinho foi considerado, em dois anos consecutivos, o melhor treinador do ano pela UEFA. Daí em diante, e após a saída do FC Porto, o palmarés do técnico português fala por si e dispensa apresentações. Se por um lado Mourinho não será lembrado como um treinador que criou um novo estilo de jogo (como Johan Cruyff ou Pep Guardiola), este ficará para sempre na história do futebol como alguém com uma capacidade ímpar de adaptar as suas equipas ao contexto competitivo no qual estão inseridas, tendo como objetivo único a vitória até porque, como em tempos afirmou o “Special One”, “o segundo é o primeiro dos últimos”.
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Foto de Capa: FC Porto









