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Apesar da importante vitória alcançada fora de casa, em Lille, no play-off da Liga dos Campeões, que representa um passo de gigante rumo aos 8,6 milhões de euros correspondentes à passagem à fase de grupos da competição, foi a ausência de Quaresma dos convocados para o jogo em Paços de Ferreira, depois de o internacional português apenas ter atuado cerca de 5 minutos no jogo em solo francês, o alvo de destaque da imprensa sobre a equipa portista ao longo da semana.

Enquanto adepto, custa-me ver este desviar das atenções para um jogador apenas, quando uma equipa consegue uma vitória tão importante fora de casa. Enquanto observador do fenómeno mediático que é o futebol, não me surpreende que Quaresma seja agora o protagonista do “filme” que ele próprio diz não existir. Recuando a fita oito meses, para Janeiro de 2014, constatamos que o regresso de Ricardo Quaresma foi visto por grande parte dos adeptos portistas como uma excelente notícia para a equipa: não só por ser um jogador que já havia passado pelo clube, mas também porque o extremo trazia consigo um selo de qualidade inegável, mesmo que o “mundo do futebol” tenha estado alguns meses sem lhe pôr a vista em cima. Por isso, e falando em bom português, pode dizer-se que com o regresso de Quaresma se juntou a fome à vontade de comer, num negócio que parecia agradar a todas as partes.

Por não haver concorrência à altura no plantel, que era qualitativamente fraco, o extremo chegou, viu e entrou de caras na equipa, que suspirava por um jogador com as credenciais de Quaresma. Ainda assim, e apesar de todo o génio que as botas do português poderiam trazer, muitos foram os que olharam para o outro lado da balança e duvidaram das vantagens que o FC Porto poderia ter com este regresso: pelo mau feitio que lhe é reconhecido e pela instabilidade emocional que parece demonstrar, pareceu claro desde o início que Quaresma não estava preparado para encontrar obstáculos no plantel, ou, se preferir, em termos cinematográficos, para encontrar actores que lhe pudessem tirar protagonismo.

Quaresma não reagiu da melhor maneira à entrada em campo contra o Lille  Fonte: A Bola
Quaresma não reagiu da melhor maneira à entrada em campo contra o Lille
Fonte: A Bola

Por isso, o discurso de Pinto da Costa no início desta temporada, antecipando uma espécie de revolução para os lados do Dragão, acabou por ser o primeiro contratempo do Mustang: com um treinador novo, que não acredita em “titulares absolutos”, e com um plantel com 15 caras novas até ao momento, tornou-se mais do que óbvio que com Lopetegui começava uma nova era e todos os jogadores partiam do mesmo patamar. Naturalmente que jogadores como Danilo, Alex Sandro, Herrera, Óliver, Brahimi, Tello ou Jackson terão sempre mais oportunidades do que Marcano, Reyes, Evandro, Carlos Eduardo, Ricardo, Sami ou Kelvin; mas, depois das palavras de Lopetegui, a rotatividade do plantel do FC Porto tornou-se algo natural. Assim, não foi de estranhar que entre os jogos contra Marítimo e Lille o treinador optasse por gerir a equipa, numa medida perfeitamente compreensível se pensarmos que, em condições normais, o FC Porto terá mais de 50 jogos nesta temporada.

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Depois da titularidade e da boa exibição frente ao Marítimo, Ricardo Quaresma possivelmente não deu grande importância às palavras de Lopetegui e não acreditou que o espanhol o colocasse no banco de suplentes. Muitos meses e jogos depois, aquilo que era impensável até ao início da temporada acabou por acontecer: Ricardo Quaresma foi mesmo para o banco de suplentes. Sem surpresa, até porque o plantel desta época é incomparavelmente superior ao da época anterior, a equipa não se ressentiu da falta do extremo e venceu em solo gaulês com aparente tranquilidade. Lopetegui acabou por chamar Quaresma já perto do fim e, como era previsível, o mau génio de Ricardo reapareceu: com uma atitude reprovável, o internacional português entrou em campo como se nada fosse com ele, como se lá estivesse contra a sua vontade, como se se tivesse esquecido de que há bem pouco tempo o “seu” clube lhe tinha dado uma braçadeira para dignificar em todos os jogos, contra qualquer adversário. Só que para Quaresma, com ou sem braçadeira, o seu “filme” de sonho havia acabado quando Lopetegui entrou. De um momento para o outro, o bilhete que comprou quando chegou Dragão deixou de funcionar e o lugar marcado que tinha no onze portista deu lugar a um espaço em aberto sem um nome garantido. Com tão poucos jogos nesta temporada, acredito que até Quaresma entende o argumento deste “filme”. Basta para isso deixar-se de conversas de rede social e de exibicionismos sem sentido para que, de uma vez por todas, entenda que ele é apenas mais um actor no elenco portista. Se não conseguir entender isso, então talvez seja altura de verificar a validade do bilhete e ir para outras paragens. É que agora o filme é outro.